Samaúma
 

 

 

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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
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LIÇÕES DA SERPENTE, ENIGMAS DA VIDA


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )

 

Convalescente e ainda com algumas seqüelas do acidente que fui vítima em 17/06/01, provocado por uma serpente (provavelmente a Jararaca Bothrops atrox), estou retornando às lides normais e ao convívio dos colegas com grande alegria. Gostaria nesta oportunidade de deixar registrado meu profundo agradecimento aos médicos, doutorandos e enfermeiros do Hospital Tropical que me atenderam com competência e desvelo; aos amigos que me brindaram com a gentileza da visita e também àqueles que lembraram de mim nas orações, sentiram minha ausência, torceram pela minha recuperação. A todos, muitíssimo grato, cordiais saudações. Ainda meio traumatizado pelos danos provocados pela cobra, mas sempre agradecido pelas constantes lições da vida e entusiasmado pelo prazer de compartilhar conhecimentos, aproveito para tecer algumas considerações sobre as cobras e a possibilidade de seus acidentes:

1) Existem aproximadamente 3.000 espécies no mundo, sendo que no Brasil ocorrem cerca de 250, das quais 70 são venenosas.

2) Com exceção das Corais (Gênero Micrurus, com 17 espécies), com seus típicos anéis vermelhos, pretos e brancos e presas fixas, situadas na porção mediana do teto da boca, as demais cobras peçonhentas do Brasil são denominadas comumente de Cascavel, Jararaca e Surucucu, todas pertencentes ao grupo das Crotalíneas.

Elas possuem quatro características básicas:

a) fosseta loreal, isto é, um orifício para detecção de variações térmicas, localizado entre o olho e a narina, em cada lado da cabeça;

b) parte superior da cabeça coberta com escamas pequenas;

c) partes superior e lateral do corpo cobertas com escamas em forma de quilha, lembrando casca de arroz;

d) um par de dentes em forma de presa, na extremidade anterior da maxila superior, sendo estes exageradamente grandes, chegando a cerca de 3cm, depressíveis na porção basal e com a parte central oca, por onde passa o veneno oriundo da glândula venenosa localizada na cabeça.

Estes três tipos de serpentes podem ser distinguidas pelas seguintes características:

A cascavel (Crotalus durissus) tem um chocalho ou guizo na ponta da cauda que produz um ruído característico e vive normalmente em áreas abertas e secas, como no cerrado.

As Jararacas (gênero Bothrops, 17spp), têm a extremidade da cauda lisa, com escamas semelhantes ao restante do corpo, vivem em ambientes úmidos, como matas, áreas cultivadas e locais de proliferação de roedores, em zonas rurais e periféricas às grandes cidades e a Sucurucu (Lachesis muta) tem cauda com escamas salientes ou arrepiadas.

Os acidentes ofídicos constituem-se num grave problema de saúde pública. Apesar de haver muitos casos não notificados, sabem-se que no Brasil ocorrem cerca de 20.000 e no estado do Amazonas cerca de 300 casos por ano.

A incidência de acidente com as Jararacas é bem maior que com as demais serpentes, chegando a cerca de 80% dos casos.

Apesar da letalidade ser baixa, com apenas 0,45% dos acidentes, geralmente ocorrem seqüelas perniciosas, não sendo raro a necrose e perda de membros atingidos.

É bom lembrar que aproximadamente 80% das picadas por cobras ocorrem abaixo do joelho e cerca de 20% no tronco, sobretudo nas mãos e braços.

É evidente que o uso de botas de cano alto ou perneiras de couro e o hábito de se evitar enfiar a mão em buracos, ocos de árvores ou vãos de pedra ajudam muito a evitar os acidentes.

Durante os dias em que passei no hospital fiquei sabendo de um acidente extraordinário, um sujeito que fora picado no pescoço no momento em que deixava a procissão de uma festa religiosa no interior, para adentrar no mato para "fazer xixi". Louvado seja! Que falta de sorte!

O meu caso se enquadra no rol dos comuns, mas encerra algo curioso, de coincidências interessantes.

Abstenho-me dos detalhes, mas não posso esquecer que isso tenha se dado às primeiras horas de um domingo ensolarado, à beira de uma nascente cristalina, em plena mata primária, exatamente no local ao qual me destinara, depois de andar aproximadamente 700m da casa onde estava, uma distância que parece ter sido calculada para a perna atingida poder me trazer de volta...

Aliás, generalizando essa idéia, talvez pudesse dizer que nossa existência é constituída por uma sucessão de fatos, denominados normalmente de coincidências, mas que também poderiam ser interpretados como sendo acontecimentos complementares, realidades paralelas ou eternos enigmas da vida.

É a vida!

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