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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( *
)
Convalescente e ainda com
algumas seqüelas do acidente que fui vítima
em 17/06/01, provocado por uma serpente (provavelmente a
Jararaca Bothrops atrox), estou retornando às lides
normais e ao convívio dos colegas com grande alegria.
Gostaria nesta oportunidade de deixar registrado meu profundo
agradecimento aos médicos, doutorandos e enfermeiros
do Hospital Tropical que me atenderam com competência
e desvelo; aos amigos que me brindaram com a gentileza da
visita e também àqueles que lembraram de mim
nas orações, sentiram minha ausência,
torceram pela minha recuperação. A todos,
muitíssimo grato, cordiais saudações.
Ainda meio traumatizado pelos danos provocados pela cobra,
mas sempre agradecido pelas constantes lições
da vida e entusiasmado pelo prazer de compartilhar conhecimentos,
aproveito para tecer algumas considerações
sobre as cobras e a possibilidade de seus acidentes:
1) Existem aproximadamente 3.000 espécies no mundo,
sendo que no Brasil ocorrem cerca de 250, das quais 70 são
venenosas.
2) Com exceção das Corais (Gênero Micrurus,
com 17 espécies), com seus típicos anéis
vermelhos, pretos e brancos e presas fixas, situadas na
porção mediana do teto da boca, as demais
cobras peçonhentas do Brasil são denominadas
comumente de Cascavel, Jararaca e Surucucu, todas pertencentes
ao grupo das Crotalíneas.
Elas possuem quatro características básicas:
a) fosseta loreal, isto é, um orifício para
detecção de variações térmicas,
localizado entre o olho e a narina, em cada lado da cabeça;
b) parte superior da cabeça coberta com escamas pequenas;
c) partes superior e lateral do corpo cobertas com escamas
em forma de quilha, lembrando casca de arroz;
d) um par
de dentes em forma de presa, na extremidade anterior da
maxila superior, sendo estes exageradamente grandes, chegando
a cerca de 3cm, depressíveis na porção
basal e com a parte central oca, por onde passa o veneno
oriundo da glândula venenosa localizada na cabeça.
Estes três tipos de serpentes podem ser distinguidas
pelas seguintes características:
A cascavel (Crotalus durissus) tem um chocalho ou guizo
na ponta da cauda que produz um ruído característico
e vive normalmente em áreas abertas e secas, como
no cerrado.
As Jararacas (gênero Bothrops, 17spp), têm a
extremidade da cauda lisa, com escamas semelhantes ao restante
do corpo, vivem em ambientes úmidos, como matas,
áreas cultivadas e locais de proliferação
de roedores, em zonas rurais e periféricas às
grandes cidades e a Sucurucu (Lachesis muta) tem cauda com
escamas salientes ou arrepiadas.
Os acidentes ofídicos constituem-se num grave problema
de saúde pública. Apesar de haver muitos casos
não notificados, sabem-se que no Brasil ocorrem cerca
de 20.000 e no estado do Amazonas cerca de 300 casos por
ano.
A incidência de acidente com as Jararacas é
bem maior que com as demais serpentes, chegando a cerca
de 80% dos casos.
Apesar da letalidade ser baixa, com apenas 0,45% dos acidentes,
geralmente ocorrem seqüelas perniciosas, não
sendo raro a necrose e perda de membros atingidos.
É bom lembrar que aproximadamente 80% das picadas
por cobras ocorrem abaixo do joelho e cerca de 20% no tronco,
sobretudo nas mãos e braços.
É evidente que o uso de botas de cano alto ou perneiras
de couro e o hábito de se evitar enfiar a mão
em buracos, ocos de árvores ou vãos de pedra
ajudam muito a evitar os acidentes.
Durante os dias em que passei no hospital fiquei sabendo
de um acidente extraordinário, um sujeito que fora
picado no pescoço no momento em que deixava a procissão
de uma festa religiosa no interior, para adentrar no mato
para "fazer xixi". Louvado seja! Que falta de
sorte!
O meu caso se enquadra no rol dos comuns, mas encerra algo
curioso, de coincidências interessantes.
Abstenho-me dos detalhes, mas não posso esquecer
que isso tenha se dado às primeiras horas de um domingo
ensolarado, à beira de uma nascente cristalina, em
plena mata primária, exatamente no local ao qual
me destinara, depois de andar aproximadamente 700m da casa
onde estava, uma distância que parece ter sido calculada
para a perna atingida poder me trazer de volta...
Aliás, generalizando essa idéia, talvez pudesse
dizer que nossa existência é constituída
por uma sucessão de fatos, denominados normalmente
de coincidências, mas que também poderiam ser
interpretados como sendo acontecimentos complementares,
realidades paralelas ou eternos enigmas da vida.
É a vida!
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