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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos,
pesquisador - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
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CIÊNCIA DO MITO & MITO DA CIÊNCIA


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )

"No princípio era o verbo...". Quem não conhece esta sentença bíblica, este belo e cristalino manifesto a respeito da gênese? Pois é, parece que desde o momento da criação a força do verbo vem operando no destino e transformação das pessoas, das coisas e do mundo. Acredito que a substância do verbo esteja no pensamento e na palavra e estes são basicamente os elementos que distinguem o homem dos animais, ou melhor, de todos os demais organismos. É sabido, também, que o verbo e por extensão, a expressão cultural, foi por muito tempo e ainda continua sendo até hoje, transmitido através dos mitos. Estes, via de regra, contêm uma carga enorme de valores morais e transcendentais e seu legado encerra virtudes essenciais, como a coragem, o respeito, a liberdade, o amor e a ética.

A cultura mitológica dominou as civilizações antigas por milhares de anos, sempre mantendo uma relação direta, amistosa e amigável com os fenômenos naturais, mas sempre tendo como fundamento o ideal da vida e o destino dos seres. Como nos ensina a história, a sabedoria mitológica acabou sendo confrontada pela primeira vez pelos filósofos, inicialmente na Grécia. Talvez não tenha sido intenção da filosofia derrubar os mitos, mas o fato é que ela acabou fornecendo os fundamentos para as ciências e as técnicas que deles se distanciaram com o passar do tempo, sobretudo no mundo ocidental. Foi, então, a partir delas, que toda a magia e senso auto-explicativo da criação e demais signos dos mitos se desfiguraram, cedendo espaço e vez ao "logus", instrumento reducionista e tido como único capaz de apreender, entender e interpretar o mundo. A partir da aceitação generalizada dos princípios científicos, esboçados inicialmente por Descartes e Newton, quase tudo passou a ser analisado sob o crivo da racionalidade e entendido sob o prisma da lógica.

É inquestionável que a ciência, aliada à tecnologia, tem trazido benefícios espetaculares ao ser humano, mas é certo também que ela tem engendrado desequilíbrios terríveis e impactos funestos. Alguns humanistas advogam que ela tem ido longe demais, ao estabelecer como rotina a manipulação do genoma e o bombardeio do cerne do átomo e que as conseqüências disso no futuro podem ser aberrações genéticas e energias incontroláveis que podem por em risco não somente os transgênicos e os corpos, mas todos os demais organismos e os habitats.

Como decorrência dos postulados científicos, muitos políticos, administradores, intelectuais e mesmo cidadãos comuns têm adotado no discurso e mais ainda na prática uma atitude irresponsável, estreita e mesquinha, considerando que o mundo é algo totalmente material e que a terra (ou talvez, mesmo, todos os planetas e astros) não passam de um baú de recursos a serem explorados pelo rei da criação, o arrogante Homo sapiens. Na concepção humana, bem ao estilo da economia capitalista, parece que as coisas começam a ganhar real valor somente quando diminuem a oferta ou mesmo se acabam e esta estupidez pode ser observada com os combustíveis fósseis, as matas, os minerais, a água... Já não está passando da hora de se adotar uma nova visão e postura, mais calcadas na responsabilidade coletiva, na espiritualidade e na ética?

Bem, deixemos de lado a noção de ciência. Ela já é por demais conhecida e seus feitos e méritos, embora às vezes bastante questionados, ainda são pela esmagadora maioria, decantados. Falemos dos mitos que, como a ciência e antes dela, têm muito a nos ensinar. Verdadeiramente, os mitos são destituídos da lógica cartesiana, mas encerram uma beleza admirável, uma elegância ímpar e uma sabedoria exemplar. Infelizmente a maioria deles está perdida, desbaratada, alguns só sendo encontrados em escritos filosóficos ou mesmo em livros infantis, mas vale a pena resgatá-los. Tive a sorte de localizar alguns por aí e gostaria de compartilhá-los com vocês. Vou começar pelo mito central que é a terra, também denominada nas versões greco-romanas de Gaia-Tellus, Ceres-Deméter e Héstia-Vesta. Prometo, portanto, que na próxima crônica falarei sobre ele, lembrando desde já que estas entidades têm tudo a ver com os ensinamentos sistêmicos, holísticos e ecológicos tão em voga. Isto significa que tanto na ciência, como na mitologia, dá para perceber claramente que todas as coisas estão inter-relacionadas; que a interdependência é a regra; que agora, como antes e depois, somos individualidades pertencentes ao tudo e ao todo; entidades únicas e livres, mas umbilicalmente ligadas ao cosmos. Abraço a todos.

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