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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( *
)
"No
princípio era o verbo...". Quem não conhece
esta sentença bíblica, este belo e cristalino
manifesto a respeito da gênese? Pois é, parece
que desde o momento da criação a força
do verbo vem operando no destino e transformação
das pessoas, das coisas e do mundo. Acredito que a substância
do verbo esteja no pensamento e na palavra e estes são
basicamente os elementos que distinguem o homem dos animais,
ou melhor, de todos os demais organismos. É sabido,
também, que o verbo e por extensão, a expressão
cultural, foi por muito tempo e ainda continua sendo até
hoje, transmitido através dos mitos. Estes, via de
regra, contêm uma carga enorme de valores morais e
transcendentais e seu legado encerra virtudes essenciais,
como a coragem, o respeito, a liberdade, o amor e a ética.
A
cultura mitológica dominou as civilizações
antigas por milhares de anos, sempre mantendo uma relação
direta, amistosa e amigável com os fenômenos
naturais, mas sempre tendo como fundamento o ideal da vida
e o destino dos seres. Como nos ensina a história,
a sabedoria mitológica acabou sendo confrontada pela
primeira vez pelos filósofos, inicialmente na Grécia.
Talvez não tenha sido intenção da filosofia
derrubar os mitos, mas o fato é que ela acabou fornecendo
os fundamentos para as ciências e as técnicas
que deles se distanciaram com o passar do tempo, sobretudo
no mundo ocidental. Foi, então, a partir delas, que
toda a magia e senso auto-explicativo da criação
e demais signos dos mitos se desfiguraram, cedendo espaço
e vez ao "logus", instrumento reducionista e tido
como único capaz de apreender, entender e interpretar
o mundo. A partir da aceitação generalizada
dos princípios científicos, esboçados
inicialmente por Descartes e Newton, quase tudo passou a
ser analisado sob o crivo da racionalidade e entendido sob
o prisma da lógica.
É
inquestionável que a ciência, aliada à
tecnologia, tem trazido benefícios espetaculares
ao ser humano, mas é certo também que ela
tem engendrado desequilíbrios terríveis e
impactos funestos. Alguns humanistas advogam que ela tem
ido longe demais, ao estabelecer como rotina a manipulação
do genoma e o bombardeio do cerne do átomo e que
as conseqüências disso no futuro podem ser aberrações
genéticas e energias incontroláveis que podem
por em risco não somente os transgênicos e
os corpos, mas todos os demais organismos e os habitats.
Como
decorrência dos postulados científicos, muitos
políticos, administradores, intelectuais e mesmo
cidadãos comuns têm adotado no discurso e mais
ainda na prática uma atitude irresponsável,
estreita e mesquinha, considerando que o mundo é
algo totalmente material e que a terra (ou talvez, mesmo,
todos os planetas e astros) não passam de um baú
de recursos a serem explorados pelo rei da criação,
o arrogante Homo sapiens. Na concepção humana,
bem ao estilo da economia capitalista, parece que as coisas
começam a ganhar real valor somente quando diminuem
a oferta ou mesmo se acabam e esta estupidez pode ser observada
com os combustíveis fósseis, as matas, os
minerais, a água... Já não está
passando da hora de se adotar uma nova visão e postura,
mais calcadas na responsabilidade coletiva, na espiritualidade
e na ética?
Bem,
deixemos de lado a noção de ciência.
Ela já é por demais conhecida e seus feitos
e méritos, embora às vezes bastante questionados,
ainda são pela esmagadora maioria, decantados. Falemos
dos mitos que, como a ciência e antes dela, têm
muito a nos ensinar. Verdadeiramente, os mitos são
destituídos da lógica cartesiana, mas encerram
uma beleza admirável, uma elegância ímpar
e uma sabedoria exemplar. Infelizmente a maioria deles está
perdida, desbaratada, alguns só sendo encontrados
em escritos filosóficos ou mesmo em livros infantis,
mas vale a pena resgatá-los. Tive a sorte de localizar
alguns por aí e gostaria de compartilhá-los
com vocês. Vou começar pelo mito central que
é a terra, também denominada nas versões
greco-romanas de Gaia-Tellus, Ceres-Deméter e Héstia-Vesta.
Prometo, portanto, que na próxima crônica falarei
sobre ele, lembrando desde já que estas entidades
têm tudo a ver com os ensinamentos sistêmicos,
holísticos e ecológicos tão em voga.
Isto significa que tanto na ciência, como na mitologia,
dá para perceber claramente que todas as coisas estão
inter-relacionadas; que a interdependência é
a regra; que agora, como antes e depois, somos individualidades
pertencentes ao tudo e ao todo; entidades únicas
e livres, mas umbilicalmente ligadas ao cosmos. Abraço
a todos.
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