Samaúma
 







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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
e-mail:gsantos@inpa.gov.br

CIÊNCIA PARA QUEM?


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )

Diante da onda avassaladora da globalização, onde crises e oportunidades se revezam e diante também do desbaratamento dos recursos naturais, observa-se que os empreendedores brasileiros estão ávidos por conhecimentos tecnológicos e científicos para serem agregados a seus produtos e serviços. É enorme a demanda pelo componente C&T e normalmente sua busca se dá na Academia do saber, sobretudo nas universidades e institutos públicos de pesquisa. Importa, portanto, saber um pouco sobre a própria natureza dessa instituição.

Academia é um termo originado na Grécia, nome de um jardim de oliveiras dedicado a um herói chamado Akademo e onde o filósofo Platão ministrava suas aulas. Mais tarde, nesse local foi erigido um centro de estudos formais e que serviu de modelo para as universidades. Deduz-se, portanto, que a velha academia tem cerca de 2.390 anos, ao longo dos quais vem fazendo história em todas as partes do mundo.

É verdade que nas últimas décadas o termo Academia vinha sendo relegado ou aplicado apenas às congregações de "imortais", onde normalmente se refugiavam os vetustos senhores (agora também, felizmente, senhoras!). Recentemente o termo voltou à tona com força total, transformando-se num jargão do mundo intelectualizado.

Nesse sentido, Institutos de pesquisa e Universidades, tanto públicos como privados, levam o nome de Academias e todos os professores e pesquisadores que neles trabalham são acadêmicos.

Título pomposo esse, não!?

Pelo fato de ser acadêmico (ou talvez por isso mesmo) é indispensável questionar: - o que a Academia tem feito ou está fazendo para ajudar os cidadãos, sobretudo os empreendedores, nesse momento crítico da sociedade brasileira? - Gerar conhecimento! - dirão os mais afoitos ou mais afeitos à tarefa de investigar, estudar e pesquisar. - Nada, absolutamente nada.

Quando muito, o sexo dos anjos! - dirão alguns, de si para si, ou mesmo vociferando na mídia, de modo intempestivo, deselegante e grosseiro, como fez recentemente um dos caciques políticos do Amazonas, a respeito do INPA.

Ok! saibamos perdoar esses arrogantes senhores mandatários e concordemos com a postura dos que acreditam estarem as academias promovendo de fato a "geração do conhecimento". Pois bem, a questão complementar e que aqui realmente interessa é esta: - a quem se destina o conhecimento gerado?! Outra pergunta que vem em seu rastro é o "que" e "como" esse conhecimento é gerado, mas por ora deixemos isso de lado, confiando nos postulados e nos métodos científicos, bem como na capacidade daqueles que os executam. Tentemos nos ater à pergunta original: "para quem?".

Para quem... de pronto, isso nos remete para um interlocutor, destinatário ou usuário do conhecimento e se conclui que estamos nos referindo à real finalidade da pesquisa, isto é, de seu alcance junto ao público-alvo, ao povo, à sociedade, em geral.

É evidente que o pesquisador consciente não pode se eximir nem deixar de se preocupar com a destinação do conhecimento que gera (tanto dos resultados da investigação científica, como do que pensa!). Um produto tão especial, tão precioso e hoje tão demandado, como o conhecimento, não pode ficar estanque, guardado a sete chaves na Academia ou destinado unicamente a outros pesquisadores. Conhecimento bom é aquele disseminado e que pode ser aproveitado, retrabalhado e transformado pela sociedade. É imperativo, portanto, que todo conhecimento deve ser disponibilizado, democratizado, sociabilizado, compartilhado. Não existe conhecimento bom em gavetas e muito menos hermeticamente fechado no círculo elitista da comunidade científica e menos ainda na mente de alguns privilegiados.

É evidente que o produtor do conhecimento deve estar atento para defender a garantir seu direito autoral, buscar os meios mais apropriados para divulgar suas idéias ou resultados de suas pesquisas, mas é importante ter sempre em mente o interesse coletivo e o alcance social de sua obra. Há cientistas e intelectuais de toda ordem e com as mais diversas tendências (é ótimo que seja assim, isto atesta a maravilhosa diversidade da vida!), mas um gerador de conhecimento socialmente responsável e competente nunca deve ser:
1º) ELITISTA, isto é, buscando meios de divulgação sofisticados, apenas como forma de promoção pessoal/profissional. Esse modismo se assemelha muito ao velho e surrado estilo da moda de sapatos, que vive em função de etiquetas, de marcas.
2º) NARCISISTA, isto é, dirigindo sua publicação para si mesmo ou seu grupo de trabalho, como se isso fosse um espelho ou troféu de sua própria vaidade.
3º) ICONOCLASTA, isto é, achando que sua pesquisa tem um fim em si mesmo, que o conhecimento científico é o único meio válido para encontro da verdade ou que a ciência é a mais elevada expressão do valor humano e evolução da humanidade.

O cientista é membro e tem compromissos com a academia, mas também é parte integrante da sociedade com a qual interage a todo o momento, em todas as áreas e pela qual é pago. Assim sendo, ele precisa honrar seus compromissos profissionais e dar satisfação a seus pares, mas não pode jamais abrir mão de seu dever de cidadão bem preparado intelectualmente e daí, sua enorme responsabilidade social.

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