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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
Na
última crônica que fiz, analisando a frase
de Michel Houellebecq, sobre o valor do ser homem, com base
na eficiência econômica, acabei citando rapidamente
Albert Camus. Pelo fato de o haver citado, senti-me inclinado
a pesquisar sobre ele (para quem não sabe, essa é
uma das razões positivas de se escrever crônicas,
para ter motivação e aprender sempre mais)
e acabei descobrindo tratar-se de um escritor valoroso,
sempre interessado em encontrar um sentido grandioso para
sua vida e a vida dos outros.
Ontem
à noite, lendo a obra de outro intelectual admirável,
o professor e filósofo Rubem Alves, deparei-me com
uma frase que ele cita do mesmo Albert, chamando a atenção
para o poder das metáforas na formação
das pessoas e na transformação da sociedade.
A frase é exatamente esta: "só se pensa
por imagens". O sentido metafórico do que li,
adaptado à situação do setor produtivo
e, especificamente, ao universo acadêmico e científico
do Brasil e do mundo considerado desenvolvido é mais
ou menos o seguinte:
"Havia um granjeiro incomum, metido a intelectual,
que desejava fazer de sua granja uma referência internacional
na produção de ovos. Não satisfeito
com seu curso de Engenharia, fez especialização
em Avicultura, onde aprendeu tudo sobre as galináceas
e adotou como lema obstinado, a produtividade empresarial.
Com
o propósito de garantir qualidade total em seu negócio,
o granjeiro estabeleceu um rigoroso sistema de controle
de suas galinhas, através de um índice de
produtividade, que levava em conta o número de ovos
botados num determinado tempo. Para ele, galinha cujo índice
fosse igual ou superior a 360 ovos/ano podiam continuar
vivendo na granja, como poedeira.
Galinha,
cujo índice estivesse entre 360 e 300 ovos/ano não
fazia juz à ração que comia e portanto
deveria ser retirada do cenário granjeiro e jogada
no campo, para se virar com grilos e bichos semelhantes.
Galinha cuja produtividade não chegasse a 300 ovos/ano
não prestava para ser criada, deveria ser transformada
em cubinhos de caldo-de-galinha.
O ambicioso granjeiro chegou, inclusive, a estabelecer um
prêmio, denominado "mérito galináceo"
para as poedeiras que chegassem a 400 ovos/ano. Esse prêmio
consistia num atraente suplemento alimentar à base
de ferro e vitaminas.
O sucesso do negócio está na produtividade
- pensava e por isso os modelos adotados pelas agências
de governo (não precisa citar nomes, todos conhecemos!)
deveriam ser seguidos à risca. O disciplinado granjeiro
sabia que não podia ficar pensando demais, analisando
a situação perigosa, mas irreversível
do mundo globalizado, tinha que ter seu negócio em
foco, seu problema era a produtividade da granja e por isso,
não parava de pensar nas galinhas.
Acontece que no meio das galinhas poedeiras haviam indivíduos
peculiares, cuja tarefa não era botar, mas participar
da fecundação. Como o granjeiro tinha visão
estreita e estava realmente interessado apenas em produção
de ovos, acabou descobrindo que aqueles galináceos
diferenciados não eram galinhas poedeiras e por isso,
mandou que fossem transformados em carne-de-galo.
Os relatórios feitos logo depois pelos seus assessores
estatísticos não deixaram dúvidas:
as galinhas continuaram a botar ovos, no entanto, uma coisa
estranha começou a ocorrer: antes, os ovos eram colocados
em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, suas cascas
se rompiam e de dentro nasciam pintinhos lindos e sadios
que eram incorporados à granja ou mesmo cedidos para
as granjas da redondeza. Agora, os ovos chegavam a vinte
e dois, até quarenta dias e continuavam inertes,
alguns deles exalando um cheiro fétido, de gás
sulfídrico. As galinhas, coitadas, velhas e estressadas
de tanto botar ovos, acabaram morrendo. Um filósofo,
amigo do granjeiro, chegou a postular que pelo fato de alegria
e realização própria não serem
computados nos índices de produtividade, seria bem
provável que muitas delas sucumbiram, justamente
pela profunda tristeza por terem passado toda a vida servindo
unicamente para botar ovos".
Aí, o granjeiro, com a granja quase em falência
e o mercado ainda mais ávido por ovos, galinhas e
também galos! - pôde aprender uma coisa sumamente
valiosa, chamada de sapiência e que pode ser assim
resumida:
- O mais importante não é a quantidade de
ovos, mas sua qualidade, o que está dentro deles.
Em outras palavras, há coisas de valor superior aos
ovos, que não podem ser medidos por meio de números.
Precisa-se ouvir o canto do galo!
Essa metáfora não se aplica apenas aos granjeiros,
gestores do conhecimento, que hoje só se interessam
pela produção quantificável e geralmente
sob encomenda. Ela se aplica também aos gerentes
dos granjeiros, subalternos acomodados e que, pior que aqueles,
apelam para o termo produtividade sem saber realmente do
que se trata e desconhecendo completamente a natureza dos
ovos e até a diferença mínima entre
galinhas e galos.
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