Samaúma
 







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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
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A Granja como Lição de Sapiência


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )



Na última crônica que fiz, analisando a frase de Michel Houellebecq, sobre o valor do ser homem, com base na eficiência econômica, acabei citando rapidamente Albert Camus. Pelo fato de o haver citado, senti-me inclinado a pesquisar sobre ele (para quem não sabe, essa é uma das razões positivas de se escrever crônicas, para ter motivação e aprender sempre mais) e acabei descobrindo tratar-se de um escritor valoroso, sempre interessado em encontrar um sentido grandioso para sua vida e a vida dos outros.

Ontem à noite, lendo a obra de outro intelectual admirável, o professor e filósofo Rubem Alves, deparei-me com uma frase que ele cita do mesmo Albert, chamando a atenção para o poder das metáforas na formação das pessoas e na transformação da sociedade. A frase é exatamente esta: "só se pensa por imagens". O sentido metafórico do que li, adaptado à situação do setor produtivo e, especificamente, ao universo acadêmico e científico do Brasil e do mundo considerado desenvolvido é mais ou menos o seguinte:

"Havia um granjeiro incomum, metido a intelectual, que desejava fazer de sua granja uma referência internacional na produção de ovos. Não satisfeito com seu curso de Engenharia, fez especialização em Avicultura, onde aprendeu tudo sobre as galináceas e adotou como lema obstinado, a produtividade empresarial.

Com o propósito de garantir qualidade total em seu negócio, o granjeiro estabeleceu um rigoroso sistema de controle de suas galinhas, através de um índice de produtividade, que levava em conta o número de ovos botados num determinado tempo. Para ele, galinha cujo índice fosse igual ou superior a 360 ovos/ano podiam continuar vivendo na granja, como poedeira.

Galinha, cujo índice estivesse entre 360 e 300 ovos/ano não fazia juz à ração que comia e portanto deveria ser retirada do cenário granjeiro e jogada no campo, para se virar com grilos e bichos semelhantes. Galinha cuja produtividade não chegasse a 300 ovos/ano não prestava para ser criada, deveria ser transformada em cubinhos de caldo-de-galinha.

O ambicioso granjeiro chegou, inclusive, a estabelecer um prêmio, denominado "mérito galináceo" para as poedeiras que chegassem a 400 ovos/ano. Esse prêmio consistia num atraente suplemento alimentar à base de ferro e vitaminas.

O sucesso do negócio está na produtividade - pensava e por isso os modelos adotados pelas agências de governo (não precisa citar nomes, todos conhecemos!) deveriam ser seguidos à risca. O disciplinado granjeiro sabia que não podia ficar pensando demais, analisando a situação perigosa, mas irreversível do mundo globalizado, tinha que ter seu negócio em foco, seu problema era a produtividade da granja e por isso, não parava de pensar nas galinhas.

Acontece que no meio das galinhas poedeiras haviam indivíduos peculiares, cuja tarefa não era botar, mas participar da fecundação. Como o granjeiro tinha visão estreita e estava realmente interessado apenas em produção de ovos, acabou descobrindo que aqueles galináceos diferenciados não eram galinhas poedeiras e por isso, mandou que fossem transformados em carne-de-galo.

Os relatórios feitos logo depois pelos seus assessores estatísticos não deixaram dúvidas: as galinhas continuaram a botar ovos, no entanto, uma coisa estranha começou a ocorrer: antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, suas cascas se rompiam e de dentro nasciam pintinhos lindos e sadios que eram incorporados à granja ou mesmo cedidos para as granjas da redondeza. Agora, os ovos chegavam a vinte e dois, até quarenta dias e continuavam inertes, alguns deles exalando um cheiro fétido, de gás sulfídrico. As galinhas, coitadas, velhas e estressadas de tanto botar ovos, acabaram morrendo. Um filósofo, amigo do granjeiro, chegou a postular que pelo fato de alegria e realização própria não serem computados nos índices de produtividade, seria bem provável que muitas delas sucumbiram, justamente pela profunda tristeza por terem passado toda a vida servindo unicamente para botar ovos".

Aí, o granjeiro, com a granja quase em falência e o mercado ainda mais ávido por ovos, galinhas e também galos! - pôde aprender uma coisa sumamente valiosa, chamada de sapiência e que pode ser assim resumida:

- O mais importante não é a quantidade de ovos, mas sua qualidade, o que está dentro deles. Em outras palavras, há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidos por meio de números. Precisa-se ouvir o canto do galo!

Essa metáfora não se aplica apenas aos granjeiros, gestores do conhecimento, que hoje só se interessam pela produção quantificável e geralmente sob encomenda. Ela se aplica também aos gerentes dos granjeiros, subalternos acomodados e que, pior que aqueles, apelam para o termo produtividade sem saber realmente do que se trata e desconhecendo completamente a natureza dos ovos e até a diferença mínima entre galinhas e galos.

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