|
Dr.Geraldo Mendes dos
Santos ( * )
Até
poucos anos atrás, o noticiário policial ocupava
um espaço insignificante na mídia brasileira.
No parlamento, o assunto era escasso, mote para perdedores
e por isso, passava ao largo. Na televisão, era tratado
com reserva, apenas em programas que os elitistas consideravam
de nível baixo. Hoje a criminalidade atinge a mídia
inteira e todas as classes sociais, grassa nas grandes metrópoles,
invade cidades de médio e pequeno porte e até
a zona rural. Por ser assunto de alto interesse social,
passou a constituir-se também em elemento de marketing
e em seu nome muitas empresas de segurança privada
passaram a ganhar rios de dinheiro. Além disso, o
tema virou estratégia de todos os matizes políticos,
está nas manchetes dos grandes jornais e capa das
principais revistas semanais. O país inteiro só
fala nisso!
Leio, ouço e reflito sobre as estatísticas
da criminalidade e o universo de dados parece infinito.
Também as causas parecem não ter limites,
estando baseadas na genética, na personalidade, no
meio familiar e social, no QI, na cultura e até na
psique. É um prato cheio para estatísticos,
sociólogos, juristas, psicólogos e outros
estudiosos do gênero.
Criminalidade não
se extingue ou diminui com comentários superficiais
desse tipo. Igualmente, ou menos ainda com a apatia e o
silêncio. Então, para onde correr, ou melhor,
o que fazer diante dessa situação crítica?
Entendo que todo cidadão consciente gostaria de dar
sua contribuição, então, onde, como
e quando podemos atuar?
Atrevo-me a esboçar
um quadro tridimensional no qual podemos desenvolver um
trabalho profícuo, como cidadão, profissional
e agente de transformação social. Vejamos:
A.- Plano Um: o aumento
da pressão do mercado, a competição
como regra geral e o incentivo generalizado ao consumismo
têm provocado terríveis desequilíbrios
psicológicos e sociais que fatalmente potencializam
o crime. Por outro lado, ou talvez como conseqüência
disso, o senso de cooperação e fraternidade,
os legítimos valores espirituais, éticos,
morais e sociais vêm sendo corroídos ao longo
do tempo e precisam ser resgatados, como contrapartida àquela
mórbida tendência. Nesse sentido, a postura
cívica, a família, a igreja, a mídia
e a escola (do jardim de infância à pós-graduação)
tem muito a realizar. Realizemos!
B.- Plano Dois: o papel
do estado nacional tem que ser redefinido com base no homem
e não nos recursos financeiros. Lastimavelmente,
sua missão e poder vêm perdendo terreno para
os interesses das grandes corporações, sem
donos ou pátrias. Igualmente, para as médias
empresas privadas, suas filhas bastardas, que só
visam lucro sobre lucro e ainda por cima, são financiadas
pelo próprio estado, num ciclo vicioso e de conseqüências
macabras. Neste cenário, os intelectuais precisam
abdicar um pouco de suas especializações para
colaborar mais diretamente com os interesses prementes da
sociedade que clama por sua ajuda e quase sempre paga as
contas dessa classe privilegiada. É preciso refletir,
esclarecer, opinar e falar por nós mesmos e por milhões
de patrícios analfabetos e indigentes. Ajudemos!
C.- Plano Três: o
atual processo globalizante, capitaneado pelas nações
hegemônicas capitalistas, precisa ser remodelado.
Ele se baseia numa premissa falsa e insustentável,
pois concentra renda e distribui miséria. Mais que
isso: produz contingentes incontáveis de desempregados
e alienados. Neste contexto, é imperativo a reorganização
das nações unidas e desunidas em torno de
princípios e alvos que não sejam apenas C&T
e dinheiro. É preciso aprender a votar e para isso,
também saber educar os jovens para o mercado de trabalho,
sem perder de vista o desenvolvimento humano integral, a
prática da solidariedade e da cidadania. Eduquemos!
Este quadro é tridimensional
e também caleidoscópico, verdadeiro fenômeno
de ótica pessoal e social, assim sendo, ele apresenta
diferentes facetas para as mesmas formas, vistas por ângulos
diferentes. Portanto, para atuar nele com competência
e eficácia, além de muito trabalho e persistência,
é preciso muita fé e esperança. Claro
que isso é básico, mas a compaixão
também é importante e em certos casos, pode
fazer a diferença. Em todo o contexto, é importante
desenvolver a sabedoria, sempre buscando a sapiência. |