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Dr.Geraldo Mendes dos
Santos ( * )
Nunca se falou tanto
de paz e nunca houve tanta guerra. Aliás, paradoxalmente,
o mundo moderno, à medida que se torna mais e mais
detentor e gerador de conhecimentos, parece avançar
na ignorância e recuar no tempo, em termos de convivência.
Analisando bem, percebe-se que grande parte da humanidade
ainda vive sob a égide da barbárie. A outra
parte, talvez melhor estruturada, assiste à barbárie
de maneira indiferente e acanhada. Às vezes, quando
toma partido, acaba impondo seus arsenais de guerra, seus
ódios latentes e assim também se torna bárbara.
As duas Grandes Guerras,
a última delas ocorrida há pouco mais de cinqüenta
anos, foram um marco histórico nesse cenário
bélico e estão bem documentadas, mas depois
delas têm ocorrido incontáveis guerras mundo
afora, muitas nem relatadas. Na maioria das vezes, estas
não têm número ou nome, mas têm
matado dezenas de vezes mais gente que aquelas guerras famosas.
Há poucos anos, a
mídia fez grande divulgação das guerras
nas tribos africanas, onde era impressionante o contingente
de desnutridos, aleijados e moribundos. Mais recentemente,
o mundo assistiu, entre o medo e a perplexidade, aos terríveis
ataques terroristas contra prédios americanos. Igualmente
perplexo, assistiu à resposta violenta, destes e
de seus aliados, contra as milícias afegãs,
tidas como bodes expiatórios. Agora, o mundo assiste
- sempre perplexo, mas parece que sempre torcendo! - a mais
uma guerra que parece não ter começo nem fim,
a do Médio Oriente, entre israelenses e palestinos,
dois povos vizinhos e irmãos. Aliás, as guerras
ocorrem sempre entre irmãos, considerando que a humanidade
é uma família única. Isso é
terrível e lastimável, uma vergonha tamanha
para o Homo sapiens, essa espécie moderninha, prepotente
e vaidosa, que se julga filha dileta do Criador e da criação
rei/rainha.
É um privilégio
extraordinário atuar no campo da ciência, onde
o conhecimento é a matéria prima das transformações
pessoais e sociais e onde sua própria busca se constitui
em recompensa gratificante, mas é desagradável
e frustrante perceber que a C&T é o componente
básico para a prática bélica. É
horroroso ver os céus cruzados por bombas teleguiadas
e tanques nos quatro cantos de cidades e campos. Verdadeiras
minas de guerra! Igualmente horrendo é ver homens
e mulheres às vezes crianças! - cujos corpos
são atrelados a mortíferos petardos. Acúmulo
de maldade! Cúmulo de violência!
Nesse momento em que toda a mídia mundial mostra
imagens chocantes e depoimentos detalhados (uns verdadeiros,
outros falsos) sobre a guerra no oriente, prefiro tratar
hoje da paz.
Conclamo a paz, para lembrar
que ela não é simplesmente a ausência
de luta ou guerra, mas um estado mental, tanto da coletividade,
como do indivíduo.
Paz não é
armistício entre nações ou grupos,
para manterem seus interesses, mas a miscigenação
espontânea das raças, a integração
efetiva dos povos. Nesse sentido, o Brasil é um exemplo
para o mundo.
Paz não é
apenas a abertura ou ampliação de canais para
os negócios, mas a fraternidade humana autêntica.
Não é apenas a globalização
dos mercados, com concentração de riquezas,
mas a distribuição eqüitativa de bens
e oportunidades e a redução crescente da pobreza.
Paz é solidariedade entre todos os homens.
Paz não é
a expectativa ingênua da cessação de
lutas e agressões (um meme atávico da natureza
humana), mas o esforço sincero e constante em prol
da liberdade, da justiça e do respeito. Respeito
às pessoas, a todos os seres, ao meio ambiente.
Talvez o conceito da paz
não seja matematicamente possível, mas há
alta probabilidade de que a somatória da paz individual
seja o resultado da paz coletiva. Deduz-se, portanto, que
a paz não deve estar somente lá fora, mas
em nós mesmos. Humana e biologicamente, poder-se-ia
afirmar que a paz é uma semente. Nesse sentido, é
preciso lembrar que a messe é grande e difícil
de ser trabalhada, mas para trocar os campos de guerra por
campos de paz, é preciso semear a paz.
Semeemos! |