Samaúma
 







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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
e-mail:gsantos@inpa.gov.br

CORES DOS MAPAS,
REALIDADES DA VIDA


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )



Aprecio os mapas, sobretudo aqueles resultantes de imagens de satélite, onde relevos, drenagens, vales, matas e áreas devastadas aparecem em cores e densidades diferentes, lembrando obras de arte.

Dentre os mais belos e representativos que conheço está o de Manaus. Nele, a cidade aparece normalmente em cores amarelo-amarronzadas ao norte, na periferia e em púrpura ao sul, mais ao centro.

Há, no entanto, um detalhe que detesto quando analiso mapas de Manaus (na verdade, qualquer mapa): ao mesmo tempo em que eles são ótimos para representar acidentes geográficos e até taxas de ocupação, são péssimos ou mesmo incapazes, de representar situações pessoais, as realidades humanas.

Acho o mapa da área de Manaus tão lindo, que tenho um deles emoldurado na parede de meu quarto. De vez em quando olho para ele, sempre atento, como se estivesse a procura de algo. Ontem, após fazer uma visita técnica em vários pontos da cidade, juntamente com colegas do Conselho Municipal de Desenvolvimento e Meio Ambiente, detive-me observando aquele mapa, tentando confrontar o significado das suas cores, com a realidade observada de perto em algumas de suas unidades.

Chequei as cores firmes do papel com as cores oscilantes do ambiente e da organização social por onde passei e cheguei às conclusões seguintes, algumas delas óbvias, mas não totalmente.

O verde corresponde aos fragmentos vegetais, restos de vegetação salva pela teimosia e sorte, conjunto de árvores bonitas, algumas delas centenárias, todas extremamente úteis aos pássaros e miríades de outros animais, inclusive o homem, usuário habitual de suas sombras. Em quase todos esses lugares, mesmo onde o verde é intenso, normalmente a água é poluída, verdadeiro veículo de lixo e doenças.

O vermelho do mapa é lindo apenas na cor. Na realidade, representa a destruição do natural e a implantação de avenidas, ruas, prédios e casas. Representa também, de maneira clara, a incapacidade (oxalá apenas falta de educação, consciência e sensibilidade) de saber conciliar a obra da natureza com os esquemas da engenharia, arquitetura e politicalha.

O amarelo lembra o ouro apenas na cor e no valor do mapa. Na prática, não passa de áreas recentemente invadidas, casebres de palha, tábua ou tijolo sem reboco, ao lado de terrenos baldios e não raro mansões desorganizadas. Um painel de tétrico contraste.

O preto é tão somente reflexo das águas do Negro, o mais belo rio do mundo. A drenagem desse rio e de seus afluentes não deixa dúvida que a mais importante estratégia de defesa ambiental da cidade deve passar
obrigatoriamente pela conservação e manutenção de suas margens, especialmente nas nascentes.

O encontro das águas pretas do Negro com as barrentas do Solimões é um dos mais belos espetáculos da terra, sobretudo quando contemplado de cima. Apreciá-lo através do mirante da Associação japonesa BSGI é um privilégio e também uma vergonha, pois mostra que a sociedade e as autoridades brasileira ainda não souberam aproveitar de maneira eficaz e inteligente as belezas paradisíacas desse rio. Nesse caso particular, as instituições públicas brasileiras podem e devem aprender muito com as ONGs.

A retratação da realidade física de que os mapas são capazes é algo de incontestável importância. Além disso, ela permite comparações históricas e serve como evidência de tendências futuras. Muito importantes são também as sensações lúdicas das cores e de seus formatos, mesmo quando representadas em simples retratos coloridos. Importante mesmo e com um caráter totalmente novo, edificante e vívido do contato pessoal com a realidade nua e crua representada por essas cores.

Holismo é uma palavra já meio desgastada, mas é importante que a visão holística seja uma premissa básica da atuação de todo estudioso que trata das questões sócio-ambientais, com base em imagens ou mesmo discussões em conselhos representativos. Nesse sentido, entendo que seja oportuno e até mesmo necessário que as informações contidas nas cores dos mapas, sejam associadas e intercaladas com a vivência real (nem que seja passageira) nos locais e nas situações por elas representadas.

As cores dos mapas dizem muito mas são estáticas, inertes. Os fatos reais da vivência social são muito dinâmicos e ecléticos, sempre reveladores de novas realidades, anseios irretratáveis no papel, indizíveis enigmas. Lá se encontram indícios, aqui se encontram verdades e essas são mais importantes.