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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
Aprecio
os mapas, sobretudo aqueles resultantes de imagens de satélite,
onde relevos, drenagens, vales, matas e áreas devastadas
aparecem em cores e densidades diferentes, lembrando obras
de arte.
Dentre os mais belos e representativos que conheço
está o de Manaus. Nele, a cidade aparece normalmente
em cores amarelo-amarronzadas ao norte, na periferia e em
púrpura ao sul, mais ao centro.
Há, no entanto, um detalhe que detesto quando analiso
mapas de Manaus (na verdade, qualquer mapa): ao mesmo tempo
em que eles são ótimos para representar acidentes
geográficos e até taxas de ocupação,
são péssimos ou mesmo incapazes, de representar
situações pessoais, as realidades humanas.
Acho o mapa da área de Manaus tão lindo, que
tenho um deles emoldurado na parede de meu quarto. De vez
em quando olho para ele, sempre atento, como se estivesse
a procura de algo. Ontem, após fazer uma visita técnica
em vários pontos da cidade, juntamente com colegas
do Conselho Municipal de Desenvolvimento e Meio Ambiente,
detive-me observando aquele mapa, tentando confrontar o
significado das suas cores, com a realidade observada de
perto em algumas de suas unidades.
Chequei as cores firmes do papel com as cores oscilantes
do ambiente e da organização social por onde
passei e cheguei às conclusões seguintes,
algumas delas óbvias, mas não totalmente.
O verde corresponde aos fragmentos vegetais, restos de vegetação
salva pela teimosia e sorte, conjunto de árvores
bonitas, algumas delas centenárias, todas extremamente
úteis aos pássaros e miríades de outros
animais, inclusive o homem, usuário habitual de suas
sombras. Em quase todos esses lugares, mesmo onde o verde
é intenso, normalmente a água é poluída,
verdadeiro veículo de lixo e doenças.
O vermelho do mapa é lindo apenas na cor. Na realidade,
representa a destruição do natural e a implantação
de avenidas, ruas, prédios e casas. Representa também,
de maneira clara, a incapacidade (oxalá apenas falta
de educação, consciência e sensibilidade)
de saber conciliar a obra da natureza com os esquemas da
engenharia, arquitetura e politicalha.
O amarelo lembra o ouro apenas na cor e no valor do mapa.
Na prática, não passa de áreas recentemente
invadidas, casebres de palha, tábua ou tijolo sem
reboco, ao lado de terrenos baldios e não raro mansões
desorganizadas. Um painel de tétrico contraste.
O preto é tão somente reflexo das águas
do Negro, o mais belo rio do mundo. A drenagem desse rio
e de seus afluentes não deixa dúvida que a
mais importante estratégia de defesa ambiental da
cidade deve passar
obrigatoriamente pela conservação e manutenção
de suas margens, especialmente nas nascentes.
O encontro das águas pretas do Negro com as barrentas
do Solimões é um dos mais belos espetáculos
da terra, sobretudo quando contemplado de cima. Apreciá-lo
através do mirante da Associação japonesa
BSGI é um privilégio e também uma vergonha,
pois mostra que a sociedade e as autoridades brasileira
ainda não souberam aproveitar de maneira eficaz e
inteligente as belezas paradisíacas desse rio. Nesse
caso particular, as instituições públicas
brasileiras podem e devem aprender muito com as ONGs.
A retratação da realidade física de
que os mapas são capazes é algo de incontestável
importância. Além disso, ela permite comparações
históricas e serve como evidência de tendências
futuras. Muito importantes são também as sensações
lúdicas das cores e de seus formatos, mesmo quando
representadas em simples retratos coloridos. Importante
mesmo e com um caráter totalmente novo, edificante
e vívido do contato pessoal com a realidade nua e
crua representada por essas cores.
Holismo
é uma palavra já meio desgastada, mas é
importante que a visão holística seja uma premissa
básica da atuação de todo estudioso que
trata das questões sócio-ambientais, com base
em imagens ou mesmo discussões em conselhos representativos.
Nesse sentido, entendo que seja oportuno e até mesmo
necessário que as informações contidas
nas cores dos mapas, sejam associadas e intercaladas com a
vivência real (nem que seja passageira) nos locais e
nas situações por elas representadas.
As cores dos mapas dizem muito mas são estáticas,
inertes. Os fatos reais da vivência social são
muito dinâmicos e ecléticos, sempre reveladores
de novas realidades, anseios irretratáveis no papel,
indizíveis enigmas. Lá se encontram indícios,
aqui se encontram verdades e essas são mais importantes. |