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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
Em algum
momento da evolução, há aproximadamente
100 mil anos atrás, os genes deixaram de ser
os senhores supremos do destino do Homo sapiens.
Com a aquisição da cultura, eles passaram
a dividir o poder que sempre detiveram incólumes,
com seus similares, denominados memes. Memes são genes culturais. Em outras palavras, nós
humanos somos seres simbiontes, maravilhosamente adaptados
ao mundo orgânico, animal e social.
Tal como os genes, os memes são replicadores
de informações e ao invés dos cromossomos,
adotam a mente como habitat natural. Genes e memes atuam em parceria na espécie humana (provavelmente,
em todas as demais espécies, se considerarmos que
todas elas têm inteligência) e por isso, somos
resultados, produtos bem acabados dessa atuação
mútua. Uma das características fundamentais
dos memes é a repetição de velhas fórmulas
e apego ao usual. Curiosa e paradoxalmente, eles também
são caracterizados por uma incrível capacidade
criativa e mimética.
Há
uma enormidade de memes e sua expressão no mundo
é extremamente variável com o tempo. Parece
que o ritmo das modificações de suas estruturas
guarda estreita relação com o ritmo das mudanças
dos valores sociais, morais e éticos. Em outros termos
e de modo mais geral, à medida que se busca desenfreadamente
a modernidade, os memes aumentam de plasticidade.
Vejamos
alguns exemplos destas mudanças em nossa sociedade:
no passado, os acordos eram feitos com fio de bigode ou
com a palavra dada; hoje, bigode não tem sentido
nenhum e a palavra nada mais vale. Há poucas décadas
a virgindade feminina era um tabu, necessidade quase vital
no casamento e na afirmação social; hoje,
isso parece estória da carochinha e sua notoriedade
parece se dar em sentido contrário. Antes, numa comunidade
essencialmente ruralista, a escola era realidade distante,
mas buscada com empenho e com garantia de um futuro brilhante;
na atual comunidade urbana, a escola tornou-se obrigatória,
mas para a maioria, ela perdeu o encanto e não tem
garantia nenhuma de sucesso pessoal ou profissional. Antigamente,
a ciência era uma iniciativa pessoal, vocacionada,
espontânea e lúdica. Atualmente, é algo
induzida pelo estado, pago pelo erário, vendido e
comprado como qualquer outro serviço e produto. Em
outros tempos, religião era coisa séria, chegava
haver morte em seu nome. Hoje, o verbo "religare",
que lhe deu origem, perdeu o sentido de comunhão
com o Pai e a prática religiosa se fundamenta nos
costumes humanos, viciados pelo mercado globalizado. O conceito
de desenvolvimento religioso parece não mais se basear
na qualidade da devoção, mas nos valores do
capital.
Comuns
a todos os seres humanos, mas variável de pessoa
para pessoa e conforme as circunstâncias, os memes
se prestam às mais diversas finalidades e seu nicho
predileto parece ser a política. Nela, há
exemplos clássicos, uns mais discretos e evasivos,
outros mais exorbitantes e escrachados, mas todos de suma
valia para compreensão desse fenômeno mundial.
Sendo
seres humanos comuns e da sociedade representantes, o que
os políticos tem de tão especial na configuração,
ou melhor, na essência de seus memes? Ninguém
sabe, nunca saberemos, mas há um fato, no entanto,
que deve ser ponderado. Apesar de essência desconhecida,
as manifestações meméticas (quase miméticas!)
dos políticos são bem conhecidas. Estas podem
ser observadas facilmente nas famosas "costuras de
alianças", acordos imprevistos (aliás,
para eles sempre previsíveis) e outras peripécias
semelhantes.
Os
memes políticos são altamente adaptativos
e por isso é necessário que eles e seus hospedeiros
estejam sintonizados para que a relação seja
mutuamente benéfica e de preferência, harmônica. |