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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
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MEMES POLÍTICOS.


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )



Em algum momento da evolução, há aproximadamente 100 mil anos atrás, os genes deixaram de ser os senhores supremos do destino do Homo sapiens. Com a aquisição da cultura, eles passaram a dividir o poder que sempre detiveram incólumes, com seus similares, denominados memes. Memes são genes culturais. Em outras palavras, nós humanos somos seres simbiontes, maravilhosamente adaptados ao mundo orgânico, animal e social.

Tal como os genes, os memes são replicadores de informações e ao invés dos cromossomos, adotam a mente como habitat natural. Genes e memes atuam em parceria na espécie humana (provavelmente, em todas as demais espécies, se considerarmos que todas elas têm inteligência) e por isso, somos resultados, produtos bem acabados dessa atuação mútua. Uma das características fundamentais dos memes é a repetição de velhas fórmulas e apego ao usual. Curiosa e paradoxalmente, eles também são caracterizados por uma incrível capacidade criativa e mimética.

Há uma enormidade de memes e sua expressão no mundo é extremamente variável com o tempo. Parece que o ritmo das modificações de suas estruturas guarda estreita relação com o ritmo das mudanças dos valores sociais, morais e éticos. Em outros termos e de modo mais geral, à medida que se busca desenfreadamente a modernidade, os memes aumentam de plasticidade.

Vejamos alguns exemplos destas mudanças em nossa sociedade: no passado, os acordos eram feitos com fio de bigode ou com a palavra dada; hoje, bigode não tem sentido nenhum e a palavra nada mais vale. Há poucas décadas a virgindade feminina era um tabu, necessidade quase vital no casamento e na afirmação social; hoje, isso parece estória da carochinha e sua notoriedade parece se dar em sentido contrário. Antes, numa comunidade essencialmente ruralista, a escola era realidade distante, mas buscada com empenho e com garantia de um futuro brilhante; na atual comunidade urbana, a escola tornou-se obrigatória, mas para a maioria, ela perdeu o encanto e não tem garantia nenhuma de sucesso pessoal ou profissional. Antigamente, a ciência era uma iniciativa pessoal, vocacionada, espontânea e lúdica. Atualmente, é algo induzida pelo estado, pago pelo erário, vendido e comprado como qualquer outro serviço e produto. Em outros tempos, religião era coisa séria, chegava haver morte em seu nome. Hoje, o verbo "religare", que lhe deu origem, perdeu o sentido de comunhão com o Pai e a prática religiosa se fundamenta nos costumes humanos, viciados pelo mercado globalizado. O conceito de desenvolvimento religioso parece não mais se basear na qualidade da devoção, mas nos valores do capital.

Comuns a todos os seres humanos, mas variável de pessoa para pessoa e conforme as circunstâncias, os memes se prestam às mais diversas finalidades e seu nicho predileto parece ser a política. Nela, há exemplos clássicos, uns mais discretos e evasivos, outros mais exorbitantes e escrachados, mas todos de suma valia para compreensão desse fenômeno mundial.

Sendo seres humanos comuns e da sociedade representantes, o que os políticos tem de tão especial na configuração, ou melhor, na essência de seus memes? Ninguém sabe, nunca saberemos, mas há um fato, no entanto, que deve ser ponderado. Apesar de essência desconhecida, as manifestações meméticas (quase miméticas!) dos políticos são bem conhecidas. Estas podem ser observadas facilmente nas famosas "costuras de alianças", acordos imprevistos (aliás, para eles sempre previsíveis) e outras peripécias semelhantes.

Os memes políticos são altamente adaptativos e por isso é necessário que eles e seus hospedeiros estejam sintonizados para que a relação seja mutuamente benéfica e de preferência, harmônica.