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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
Assisti
na noite passada à uma reportagem sobre a expedição
Langsdorff ao interior do Brasil, entre 1826 e 1828 e não
pude me furtar a uma reflexão sobre a motivação,
ideal e lição que este e tantos outros expedicionários
nos legaram. Georg Heinrich von Langsdorff era médico
e membro da Academia de Ciências de São Petersburgo.
Em 1813 foi nomeado cônsul-geral da Rússia
no Rio de Janeiro. Sua trajetória em território
amazônico foi marcada pela grande quantidade e excelente
qualidade do material biológico e etnográfico
coletado. Mais marcantes, no entanto, foram as dificuldades,
doenças e em seguida a loucura que o acometeram naquela
jornada, sobretudo a partir da descida pelo rio Juruena.
Outro
aspecto relevante da expedição foi o excelente
trabalho de registro feito pelos pintores franceses Adrien
Taunay (morto afogado no rio Guaporé) e Hercule Florence
(que ao final da expedição fixou residência
no Brasil). A expedição Langsdorff foi feita
em toscas canoas de madeira ao longo do trecho entre o rio
Tietê, no estado de São Paulo e Belém,
no Pará, passando pelo Pantanal, Cuiabá e
Santarém, num percurso total de aproximadamente seis
mil quilômetros.
Sob
todos os aspectos, a expedição foi extraordinária.
Vale a pena conhecer sua história. Vários
outros expedicionários estrangeiros também
se embrenharam pela Amazônia, todos com particularidades
históricas. É o caso do matemático
francês Charles Marie de la Condamine (1743), o alemão
barão von
Humboldt (1800), os ingleses Walter Bates, Alfred Russel
Wallace, Richard Spruce (por volta de 1850), o suiço
e professor de Cambridge João Luis Rodolfo Agassiz
e o escritor americano James Orton (cerca de 1865), além
do geógrafo francês Henri Anatole Coudreau
(que morreu nas cachoeiras do rio
Trombetas em 1899).
O
que levou estes homens, oriundos do outro lado do mundo,
muitos deles aristocráticos ou bem estabelecidas
em seus países de origem, a se aventurarem na Amazônia,
uma região tão erma perigosa? É bom
lembrar que naquela época não haviam estradas,
carros ou barcos motorizados; os mapas eram incipientes;
os índios, temidos; as condições insalubres
e as doenças grassavam por todos os cantos e meios.
Como se sabe, todo louco tem sua mania, mas qual foram a
razão básica e o motivo comum que levaram
estas pessoas a tamanha aventura? Teriam sido as lendas
das lindas Amazonas, as riquezas do Eldorado e de tantas
outras, despertadas pelos relatos fantasiosos, feitos num
passado distante (primeiras décadas de 1500) por
Vicente Pinzon, Francisco Orellana, Gaspar de Carvajal e
Cristobal de Acuna? Ou teria sido isso decorrência
natural de um profundo apreço que estes expedicionários
nutriam pelas ciências da terra e pelas descobertas,
simples fuga da realidade em que viviam ou pura maluquice
pessoal? Embora estas perguntas sejam pertinentes e intrigantes,
desconheço respostas satisfatórias e muito
menos cabais. Além do mais, isso se trata de tema
mais apropriado para a Antropologia e a História
e essas não são áreas que domino bem.
Entro nesta discussão apenas para lembrar dois princípios
de ordem geral e que podem servir de escopo ou simplesmente
estar relacionados ao tema. Primeiro, o homem é um
ser extraordinariamente inteligente, atavicamente levado
pela curiosidade e a
novidade sempre o fascina. A Amazônia, por sua dimensão,
riqueza e diversidade, foi e continua sendo um lugar privilegiado
para oportunidades de estudos e novas descobertas e sempre
atraiu muita gente, famosa ou não.
Segundo,
enquanto no passado e ainda hoje os estrangeiros enfrentam
as maiores dificuldades e gastam muito dinheiro para conhecer
a Amazônia, muitos brasileiros parece não se
importar com ela, a ignoram ou fazem de contas que a conhece
por meio de relatos televisivos, muitos deles superficiais
ou totalmente falsos, ilusórios.
A
Amazônia é o maior celeiro de vida, a última
grande fronteira da natureza virgem e um do mais maravilhosos
cenários do planeta terra. Floresta, água
e céu se misturam num matiz multicor, eclético,
paradisíaco e mágico.
"Conhecer
para amá-la e amar para conhecê-la". Essa
talvez tenha sido a principal razão e o ideal maior
daqueles expedicionários. Que isso sirva de lição
para todos nós. |