Samaúma
 





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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
Tel.(092) 643.3235/324o/3244
ou 6442051
e-mail:gsantos@inpa.gov.br

LIÇÃO DOS EXPEDICIONÁRIOS


Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )



Assisti na noite passada à uma reportagem sobre a expedição Langsdorff ao interior do Brasil, entre 1826 e 1828 e não pude me furtar a uma reflexão sobre a motivação, ideal e lição que este e tantos outros expedicionários nos legaram. Georg Heinrich von Langsdorff era médico e membro da Academia de Ciências de São Petersburgo. Em 1813 foi nomeado cônsul-geral da Rússia no Rio de Janeiro. Sua trajetória em território amazônico foi marcada pela grande quantidade e excelente qualidade do material biológico e etnográfico coletado. Mais marcantes, no entanto, foram as dificuldades, doenças e em seguida a loucura que o acometeram naquela jornada, sobretudo a partir da descida pelo rio Juruena.

Outro aspecto relevante da expedição foi o excelente trabalho de registro feito pelos pintores franceses Adrien Taunay (morto afogado no rio Guaporé) e Hercule Florence (que ao final da expedição fixou residência no Brasil). A expedição Langsdorff foi feita em toscas canoas de madeira ao longo do trecho entre o rio Tietê, no estado de São Paulo e Belém, no Pará, passando pelo Pantanal, Cuiabá e Santarém, num percurso total de aproximadamente seis mil quilômetros.

Sob todos os aspectos, a expedição foi extraordinária. Vale a pena conhecer sua história. Vários outros expedicionários estrangeiros também se embrenharam pela Amazônia, todos com particularidades históricas. É o caso do matemático francês Charles Marie de la Condamine (1743), o alemão barão von Humboldt (1800), os ingleses Walter Bates, Alfred Russel Wallace, Richard Spruce (por volta de 1850), o suiço e professor de Cambridge João Luis Rodolfo Agassiz e o escritor americano James Orton (cerca de 1865), além do geógrafo francês Henri Anatole Coudreau (que morreu nas cachoeiras do rio
Trombetas em 1899).

O que levou estes homens, oriundos do outro lado do mundo, muitos deles aristocráticos ou bem estabelecidas em seus países de origem, a se aventurarem na Amazônia, uma região tão erma perigosa? É bom lembrar que naquela época não haviam estradas, carros ou barcos motorizados; os mapas eram incipientes; os índios, temidos; as condições insalubres e as doenças grassavam por todos os cantos e meios. Como se sabe, todo louco tem sua mania, mas qual foram a razão básica e o motivo comum que levaram estas pessoas a tamanha aventura? Teriam sido as lendas das lindas Amazonas, as riquezas do Eldorado e de tantas outras, despertadas pelos relatos fantasiosos, feitos num passado distante (primeiras décadas de 1500) por Vicente Pinzon, Francisco Orellana, Gaspar de Carvajal e Cristobal de Acuna? Ou teria sido isso decorrência natural de um profundo apreço que estes expedicionários nutriam pelas ciências da terra e pelas descobertas, simples fuga da realidade em que viviam ou pura maluquice pessoal? Embora estas perguntas sejam pertinentes e intrigantes, desconheço respostas satisfatórias e muito menos cabais. Além do mais, isso se trata de tema mais apropriado para a Antropologia e a História e essas não são áreas que domino bem. Entro nesta discussão apenas para lembrar dois princípios de ordem geral e que podem servir de escopo ou simplesmente estar relacionados ao tema. Primeiro, o homem é um ser extraordinariamente inteligente, atavicamente levado pela curiosidade e a novidade sempre o fascina. A Amazônia, por sua dimensão, riqueza e diversidade, foi e continua sendo um lugar privilegiado para oportunidades de estudos e novas descobertas e sempre atraiu muita gente, famosa ou não.

Segundo, enquanto no passado e ainda hoje os estrangeiros enfrentam as maiores dificuldades e gastam muito dinheiro para conhecer a Amazônia, muitos brasileiros parece não se importar com ela, a ignoram ou fazem de contas que a conhece por meio de relatos televisivos, muitos deles superficiais ou totalmente falsos, ilusórios.

A Amazônia é o maior celeiro de vida, a última grande fronteira da natureza virgem e um do mais maravilhosos cenários do planeta terra. Floresta, água e céu se misturam num matiz multicor, eclético, paradisíaco e mágico.

"Conhecer para amá-la e amar para conhecê-la". Essa talvez tenha sido a principal razão e o ideal maior daqueles expedicionários. Que isso sirva de lição para todos nós.