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1.nov-2006
Irm. Geraldo Mendes dos Santos

O triunfo da morte,
pintura de Pieter Brueghel o Velho (1562).
A vida é o fenômeno mais espetacular do universo e apesar de ser estudada em praticamente todas as áreas do conhecimento humano, continua sendo um dos maiores enigmas. A biologia (bios: vida; logus: tratado) dedica-se a ela de modo especial, apoiada por ciências afins, como a Física, a Cosmologia, a Filosofia e a Bioquímica. Até a Teologia, área reservada às coisas ditas divinas, empresta-lhe certa ajuda.
Apesar do considerável acervo de informações e do tremendo esforço de cientistas, pouco avanço tem-se conseguido, desde que o homem começou a teorizar sobre o tema. A máxima conquista neste campo não passa de conceitos lacônicos. Não raro, de anacrônicas doutrinas ou suspeitas ideologias. Assim, quase tudo disponível sobre a vida se encontra envolto numa bruma de mistérios. As ciências quantitativas chegam a apontar algumas estruturas moleculares como princípio ativo do processo vital, mas estas não passam de elementos pífios e desarticulados, frente à complexidade com a qual se defrontam.
Totalmente incapaz de desvendar tais segredos a Biologia e as ciências correlatas passaram a considerar como seus objetos de estudo não mais a vida, mas os seres vivos que a possuem (ou são possuídos por ela?). De acordo com a teoria kantiana, a essência da vida é númeno e assim não pode ser apreendida pela razão humana. Daí que se deve buscar não ela, mas apenas sua manifestação, o fenômeno. Curiosamente, um dos mais notáveis fenômenos da vida é a morte. Assim, enganam-se redondamente aqueles que pensam ser isto uma simplificação das coisas. Aqui, parece que essência e fenômeno se completam. Outra interpretação também eivada de equívocos é aquela que considera a morte como o oposto da vida. Longe disso: até a simples lógica indica que uma é o complemento da outra: só há morte onde há vida, sendo esta causa daquela. Só há vida onde prevalece a morte, sendo esta também conseqüência da mesma.
O significado de morte é largamente tratado na cultura grega sob o nome de Tanatos e possui duas grandes vertentes: uma de cunho eminentemente biológico e outra, metafísica. Ambas se articulam, formando uma estrutura indecifrável, mas coerente, quando visto em conjunto:
Do ponto de vista biológico, a morte é um falecimento, repouso, limitação da existência. Ou seja, morte como potência e ato de um princípio vital. Vive-se para morrer e morre-se para que a vida tenha continuidade. Neste caso, é a morte que fecha o ciclo de todos os seres vivos, dos organismos às espécies, sendo este ciclo uma grande espiral, tocada por leis evolucionárias. A morte é o mecanismo que recicla os nutrientes, disponibilizando a energia para os sistemas bióticos e abióticos. É assim que as cadeias tróficas se estruturam, com alguns seres servindo de alimento para outros.
Fundamentada em base estritamente materialista, esta vertente é alicerça no princípio da reciclagem de nutrientes: tudo que a terra produz, volta para ela, após a morte, em forma de pó; é do pó que a vida recomeça. Nesse sentido, morte e vida se completam, uma depende da outra: sabedoria imanente, solidariedade pura!
Do ponto de vista metafísico, a morte é um signo cultural, modelo de interpretação da existência humana. Para uns, há distinção clara entre alma e corpo; para outros, aglutinantes ou panteístas, estas duas entidades se fundem numa entidade única ou então se dilui numa Alma Universal. Naturalmente, isso depende de cada doutrina, mas o resultado é o mesmo, ou seja, morte e vida se entrecruzam, fazem parte do mesmo processo. Isso corresponde àquela situação paradoxal e profundamente intrigante do extremo de um círculo perfeito, onde origem e fim situam-se num mesmo ponto.
Fundamentada em base estritamente psicológica, esta vertente é alicerçada na tradição, na intelecção e no imaginário. Pois o homem é fruto do meio, ser cultural por excelência. Tudo que a mente produz fica nela retida. O homem é o que pensa, sendo este a base da sua consciência. Penso, logo existo, como dissera Descartes. Pensar é existir. É do ato pensante que surge o inferno ou o paraíso. O pensamento é tudo!
Está claro, portanto, que morte e vida se mesclam, se confundem. Provavelmente, se trate de uma coisa única: elos de uma mesma cadeia, faces de uma mesma moeda: virtuoso holismo!
Diante disso, parece que ao invés de um dia consagrado apenas aos mortos, com o tétrico nome de “finados”, dever-se-ia ter o mesmo (ou outro!) consagrado aos vivos, os “infindos”. Afinal, os mortos já passaram pela vida e os vivos passarão pela morte. Ambos têm o mesmo destino. A história é a mesma, inelutavelmente. Afinal, que diferença há entre a vida da morte e a morte da vida? – Nenhuma!
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