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19-Out-2006 Dr.Geraldo
Mendes dos Santos

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No decurso da sua longa evolução, a natureza vem ensaiando o vôo. Os casos mais notórios ocorreram com os insetos, as aves e os morcegos. Os dinossauros, já extintos, além de vários peixes e répteis atuais, também atestam tal fato.
Embora a pergunta não tenha nenhum fundamento, a não ser do ponto de vista psicológico, convém indagar por que não foi dada a capacidade do vôo aos humanos, levando-se em conta, além das vantagens adaptativas, o seu atávico desejo de voar. Seria isso decorrente de um lapso de Physis ou simples capricho dos deuses? – Certamente, nem uma dessas razões. Nem por nenhuma outra que possamos julgar plausível ou lógica. Afinal, a mãe-natureza tem razões que a simples natureza-humana desconhece. Além disso e embora não pareça, o certo é que o homem, de certo modo, também é um ser alado: ao contrário de ossos e penas, suas asas são feitas de inteligência e de sonhos. É por isso que ele tem voado tanto e tão alto.
A saga humana, na direção do vôo é bem representada pelo eidos ou idéias platônicas, oriundas de topus uranus, pelas passagens bíblicas referentes ao profeta Elias e pelos fragmentos filosóficos dos pré-socráticos, especialmente Heráclito. Todos eles carregam o traço comum do arrebatamento de formas perfeitas que voam entre os céus e a terra.
Narrativas mais racionalistas são encontradas nos escritos de Roger Bacon e Leonardo da Vinci, sobre esboços de máquinas mais complexas. Num momento mais recente, quando a crença começa a ser fecundada pela ciência e técnica, eis que começam a surgir as máquinas. Uma delas foi a “passarola”, desenvolvida pelo padre brasileiro Bartolomeu Gusmão e apresentada ao rei D. João V, na corte de Lisboa. Ainda no final do século XIX, numerosos balões já riscavam os céus da Europa, especialmente na França. Poucas décadas depois, em várias partes do mundo, os céus estavam apinhados de aparelhos voadores. Hoje, de tão comuns, mais parecem apêndices de nossos próprias pernas, asas nossas.
Um marco referencial na conquista humana das alturas foi dado por Alberto Santos Dumont, criador do primeiro aparelho mecânico, de vôo autônomo. Seu feito só foi rivalizado pelos irmãos Wright, mas ao contrário do vôo de Dumont, apresentado em público e amplamente documentado, o vôo dos norte-americanos foi quase anônimo, com baixo valor histórico.
A primeira grande viagem de Dumont se deu nas águas do Atlântico, quando partiu do Brasil para a França, terra da mecânica e onde “repousa o futuro do mundo”, segundo seu pai Henrique-Dumont. Neste tempo, ainda jovem provinciano, oriundo da fazenda mineira Cabangu, com passagem por Ribeirão Preto, contava com dezessete anos de idade. Depois dessa arrancada fluvial, vieram os vôos aéreos: primeiramente com os balões alugados, depois os dirigíveis, construídos por ele mesmo. Atestando seu orgulho e amor pelo seu país, deu ao primeiro desses o nome de “Brasil”.
A este seguiram-se vários outros, todos designados por uma série contínua de números, até o 22. Não havia diferenças fundamentais entre eles, mas todos detinham a marca da novidade, refletida no modelo, revestimento, potência, aerodinâmica ou mesmo nas cordas exteriores. Como coroamento e também como base de todo esse processo, a marca da persistência e da determinação: após sucessivas experiências, eis que surge o 14-bis, aparelho mecânico de 50Hp, mistura de aeroplano e avião.
Com esta máquina revolucionária, Dumont participa em 23 de outubro de 1906, do prêmio internacional “Deutsch” realizado no centro de treinamento Bagatelle, em Paris. Neste dia, diante de vários competidores, uma comissão julgadora e grande público, Dumont está radiante em poder mostrar e aferir seu invento. Já na pista da prova, motor roncando e hélice girando apressadamente, ele gesticula, pedindo que lhe abram caminho. O biplano começa a se mover, depois a correr devagar, depois mais rápido, a cerca de 35Km/h. Daí em diante, as duas rodas já se encontram a 10, 30, 40, 90centímetros do chão... aparelho nas alturas!
O desfecho do vôo foi assim descrito no periódico francês: Le Petit Journal “... vê-se sua elegante e prestigiosa silhueta toda branca descrever um gracioso arco de circulo sobre a esquerda; minutos depois descer e pisar a terra”. Nesse momento de triunfo, o público se encontrava embevecido, lenços agitados, aclamações por todos os lados. Eis a conquista do espaço, o domínio do vôo autônomo. Desse momento em diante: a legendária figura do 14-Bis, a consagração de Alberto Santos-Dumont!
Porquanto seres geniais, alguns aspectos míticos de Ícaro e Dumont se entrelaçam e por isso podem ser analisados em conjunto. Assim, tal qual Dédalo, pai de Ícaro, o pai de Dumont também era engenheiro. Além disso, ambos apoiavam o plano dos filhos. No entanto, ao contrário de Ícaro, que tinha o pai a seu lado ensinando-lhe o ofício para escapar do labirinto, o pai de Dumont convalescia em terra distante, enquanto ele labutava sozinho na construção de seu aparelho. Algo especial, no entanto, os unia mais que tudo: a moira, o destino, o signo. Ou seja, a própria essência da realidade humana, sempre carente e ansiosa de uma dimensão divina.
Assim, não importa se as asas de Ícaro foram feitas de pena e cera e as do 14-Bis, de seda e bambu. Também não importa se as daquele derreteram pelo calor do sol, lançando seu dono ao fundo do mar ou se as deste, pela angústia, levando-o às profundezas da morte. Importante a considerar é a lição deixada por ambos. Ou seja: a marca do trabalho, o traço da genialidade, a lição de vida, a força do sonho. Daí, que Ícaro é um dos mais expressivos mitos de todos os tempos; daí que Dumont é um dos homens mais ilustres do mundo.
A obra de ilustre brasileiro não se refere simplesmente à invenção do avião ou do vôo de um objeto mais pesado que o ar; ela tem uma dimensão bem mais ampla e a transcende. Na verdade, ela redime o sonho icárico de voar, sempre atualizando o desejo humano de vencer barreiras, conquistar a liberdade, vivenciar espaços novos, fora e dentro de si mesmo.
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