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Geraldo Mendes dos Santos*
"Sorria! você está sendo filmado". Este é um aviso cada vez mais comum nas empresas modernas, aliadas dos processos tecnológicos, necessitadas de segurança interna, ávidas por conquista (sic!) do público.
Evidentemente, este apelo ao riso nada tem a ver com o tradicional lembrete dos fotógrafos, induzindo as pessoas a rirem para aparecerem melhor nas fotos. Também não é tratamento cortês, em nome do marketing eficiente ou da satisfação do freguês. Muito menos, simples penduricalhos na ante-sala do chefe ou pura brincadeira de mau gosto. Na verdade, tal aviso encerra uma realidade bem distinta: o convite ao riso é uma forma disfarçada e deselegante de informar ao cidadão que dele estão sendo tomadas imagens denunciadoras de gestos, movimentos e semblantes. Curiosamente, quando mais esses empresários filmam, mais parecem trabalhar às escondidas e atender à distância. Que situação grotesca!
Dizem os adeptos das tecnologias e expertos em segurança que a tática da filmagem é indispensável para manter os níveis de estabilidade das empresas e proteção dos clientes. Em parte isso é verdade, pois muitos casos de violência e furto têm sido esclarecidos pela analise das imagens geradas por este artifício. O que questiono, no entanto, não é isso, o nível de proteção conferido pela tática da filmagem, mas a maneira sarcástica de mandar sorrir frente às câmeras.
Também questiono o modo tendencioso de dizer que a filmagem é uma medida para proteger o cliente, quando de fato, a proteção é incomensuravelmente maior para empresa, os empresários e seus patrimônios. A verdade disso é tão óbvia, que aparece estampada até mesmo na frase que acompanha o aviso referido: "nossa loja está protegida por circuito fechado". Claro! Enquanto a empresa é protegida por circuito fechado, o cliente é obrigado a se revelar, atestar seu estado de ânimo, mostrar seu lindo sorriso.
A permissão para que ricos e poderosos possam filmar os cidadãos-clientes e até mesmo transeuntes do jeito que quiserem (até mesmo com o sarcástico convite ao riso e com a revelação prepotente de que são possuidoras de sistemas de circuito fechado) pode ser um importante instrumento de defesa patrimonial e de ordenação da sociedade, mas não deixa de conter um elemento que atesta e avaliza as desigualdade sociais. Nele se mostra com muita clareza o desequilíbrio construído e cada vez mais institucionalizado entre pobres e ricos; entre os cidadãos filmados na marra e o poderoso empresário, proprietário da câmera, avalizado pela autoridade do Estado.
Nesse cenário lúgubre e pouco animador, me vem à lembrança a idéia central do livro "1984" do inglês-indiano George Orwell, a qual concebia câmeras poderosas à disposição do Estado para controlar os passos dos cidadãos. Ao mesmo tempo, me vêm à lembrança os ideais iluministas, de uma sociedade mais esclarecida, fraterna e igualitária e onde todo tipo de tirania deveria ser abolido. Neste contexto, câmera e luz parecem constituir-se em elementos opostos, mas na verdade são convergentes, confluem-se. Tomando luz e câmera como metáforas para uma reflexão consciente, compete indagar qual seu papel e destinação na sociedade que estamos construindo. Ou seja, estão elas orientadas para a tirania tecnológica das empresas ou para a liberdade consciente dos indivíduos? Os indivíduos não são proprietários das câmeras, mas são portadores de luz. Assim, como dizia Goethe: "Luz! mais luz!" |
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