Dr.Geraldo
Mendes dos Santos *
CONVÊNIO COM ELETRONORTE
A Obra resultou de um levantamento sobre as espécies que foram afetadas diretamente pela Hidrelétrica de Tucuruí - as remanescentes e as que desapareceram; A distrubuição será gratuita para escolas da rede pública.
Bibliotecas públicas, universida-des, escolas agrícolas e centros de pesquisa e ensino agora têm uma nova fonte de pesquisa sobre a ictiofauna (estudo das espécies de peixes) do Baixo Rio Tocantins. O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Geraldo Mendes dos Santos, doutor em Biologia Aquática, acaba de lançar a obra "Peixes do Baixo Rio Tocantins: 20 anos depois da Usina Hidrelétrica de Tucuruí", em parceria com Anastácio Afonso Juras e os franceses Bernard de Mérona e Michel Jégu. O inventário foi feito no período de 1999 a 2003 e a pesquisa para elaboração do livro levou um ano, resultando na identificação de 217 espécies.
Segundo Santos, o objetivo foi fazer o levantamento das espécies de peixes que foram afetadas diretamente pela construção da Hidrelétrica de Tucuruí, ou seja, quais ainda habitam a região e quais desapareceram. Ele disse que um trabalho semelhante foi realizado em 84 para avaliar os impactos ambientais e que esse agora vem completá-lo. "É bom salientar que a ictiofauna da área, após 20 anos, ainda é bastante rica e diversificada", destacou. O material servirá de consulta para várias instituições do País, isso porque a Eletronorte, financiadora do projeto, está distribuindo em escolas dois mil exemplares.
O Rio Tocantins nasce nas proximidades do Distrito Federal e flui em direção ao Norte, por aproximadamente 2.750 km, até desaguar no estuário do Amazonas, na Baía de Marajó, próximo à cidade de Belém (PA). O reservatório de Tucuruí ocupa uma área de cerca de 2.875 km², criado para produzir aproximadamente 4 milhões de quilowatts. "É o maior reservatório do Brasil. Ele é o responsável por fornecer energia para cidades como, por exemplo, Belém, Carajás, além de ser interligada com as Redes do Nordeste e do Sudeste. O objetivo agora é dobrar a capacidade", destacou Santos.
O pesquisador explicou que o impacto ambiental foi grande, algumas das espécies que existiam no local desapareceram, contudo, outras tiveram um grande aumento. "Aquelas espécies que eram adaptadas a regiões de corredeiras desapareceram da área central do reservatório, mas não quer dizer que elas não possam está na periferia do lago", disse, acrescentando que também foi possível verificar quais os biótopos (conjunto de ambientes distintos) que estão ocupando os canais e as áreas periféricas.
Geraldo Mendes disse que isso acontece porque o reservatório é um corpo estranho no rio. De repente, esse ambiente passa a ser favorável para o desenvolvimento de espécies como o tucunaré (Cichla monoculus), pescada (Plagioscion squamossmus) mapara (Hipophthalmus edentatus), na área central e próximo às ilhas, que, mesmo já habitando a região, agora têm a oportunidade de se reproduzir com mais facilidade. "Foi exatamente o que aconteceu, porque houve um crescimento do potencial de recursos alimentares, e esses peixes aproveitaram os recursos. O tucunaré, que é carnívoro, se alimenta de outros peixes e faz a cadeia alimentar funcionar. Formou-se um novo equilíbrio, a partir de outro contexto criado pelo usina", informou
Santos explicou que em função disso, como são espécies de alto valor comercial, a pesca aumentou em cima delas e o pescador atua como mais um integrante da cadeia. "Essas espécies são as mais importantes, que incluem a base de sustentação do ecossistema. Mas também existem outras que ficam no periferia do lago e constituem a base alimentar dos predadores, como, por exemplo, piabas e matupiris, pequenos peixes que não passam de dez centímetros de comprimento (caracídeos)", salientou.
De acordo com o pesquisador, essas informações são importantes para a gestão adequada e manejo dos ecossitemas. "O livro pode ser utilizado por gestores públicos de recursos aquáticos, piscicultura, pesqueiros, para a elaboração de estratégias de preservação", salientou, acrescentando que todos os exemplares analisados no estudo se encontram cadastrados e depositados na coleção do Inpa, servindo para estudos de biogeografias e sistemáticos dos peixes da Amazônia, estudos taxonômicos da comunidade científica do Inpa. |