|
04- Fev-2005 Dr.Geraldo
Mendes dos Santos
Durante o XVI Encontro Brasileiro de Ictiologia, realizado na última semana em João Pessoa, foram apresentadas centenas de trabalhos tratando da Pesca e da Sistemática, Biologia, Ecologia, Fisiologia, Genética, comportamento e inventário de peixes. Dezenas de palestras e apresentações, centenas de pôsteres, tudo de acordo com o figurino traçado para congressos desse tipo. Um toque especial, além disso: a sensação da brisa do Atlântico, o brilho do sol, as cores do mar paraibano.
Por se tratar de encontro de "pesquisadores-especialistas", uma grata surpresa ficou por conta de uma mesa redonda que discutia a ética em pesquisa, um tema quase sempre relegado, tratado nos bastidores da ciência ou remetido aos "generalistas" das ciências humanas.
Pelo fato do tema abordar especificamente a ética na pesquisa científica, minha surpresa foi ainda maior ao ver na "mesa" de cientistas, um profissional formado em Jornalismo e Direito. Depois fiquei sabendo tratar-se de um brilhante Promotor de justiça em São José dos Campos e um amante dos bichos e da natureza (Dr. Laerte Fernando Levai). Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente e adquirir um exemplar de seu livro denominado "Direito dos animais", o qual já li e gostei muito.
Ao contrário e além das perguntas tradicionais da pesquisa científica a que os ictiólogos e demais biólogos estão acostumados e quase sempre focadas no "que?" e às vezes "como?" dos problemas, os temas e as discussões suscitadas nesse debate estiveram centradas em questões-de-base, compreendidas pelas indagações do "por que?", "para que?" e "para quem?".
Nesse sentido, os principais questionamentos estiveram vinculados à forma e necessidade ou não da matança de animais para experimentação ou montagem de coleções, bem à conduta de pessoas, grupos e instituições nas práticas da pesquisa, do gerenciamento de acervos científicos e da difusão da informação e do conhecimento para os quais são empregados recursos públicos.
Também, ao contrário do que normalmente se discute nos meios técnicos/científicos quando as verdadeiras questões éticas são confundidas com códigos de normas deontológicas, isto é, deliberações jurídicas e obrigações profissionais, nesse encontro foram levantadas questões de ordem eminentemente ética, ou seja, calcadas em reflexões racionais, em sistemas filosóficos e nos princípios da moral. A temática é instigante e bem que poderia ser objeto de análises e avaliações em muitos órgãos de pesquisa, ensino e extensão que existem por aí afora.
Sinto-me gratificado em perceber que os enunciados filosóficos e as reflexões éticas estejam a permear, de modo vigoroso e instigante, as instâncias científicas, até recentemente alheias, céticas e reticentes quanto a essa causa.
É gratificante perceber a origem comum, os contornos indefinidos e as linhas de cruzamento entre os saberes científicos e filosóficos.
É maravilhoso sentir que mesmo pensamentos filosóficas que sempre apregoaram a harmonia do homem com a natureza, mas que foram retratados por frases dúbias como as de Protágoras "o homem é a medida de todas as coisas" ou mesmo a citação bíblica de que compete ao homem "dominar" a natureza, contém em sua essência, uma verdade totalmente distinta daquilo que o leigo concebe e espalha, ou seja, que o homem é superior a todos os seres e que o mundo foi criado para seu sustento e deleite. A interpretação que faço dessas sentenças é outra, totalmente distinta: ao homem é dado ser a medida das coisas e dominar a natureza, mas não pela razão que mata e maltrata, mas pela razão que observa, entende e cuida.
Como nos ensinam as lentes da Semiótica e da Fenomenologia, a verdade não está nas coisas ou nos fatos, mas na sua interpretação. É preciso saber interpretar e para isso é sempre necessário afastar das aparências, do senso comum. Aliás, afastar não: duvidar e penetrar em seus domínios. Nesse sentido, a visão filosófica não é diferente da científica, pois ambas são determinadas por acurado senso crítico.
Estou seguro de que Ciência e Filosofia são ciências irmãs (histórica e cronologicamente a segunda é mãe da primeira) e tanto uma como outra, sempre irmanadas, devem se empenhar para seus próprios aprimoramentos, bem como o aprimoramento do homem, do qual elas provém e ao qual devem servir com humildade, competência e desvelo. |
|