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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478, Bairro Petrópolis Manaus- AM 69060-001
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Ciência da Política & Política da Ciência

 

Geraldo Mendes dos Santos *

Nos últimos tempos, talvez não tenham havido palavras tão repetidas e também forjadoras de uma combinação tão perfeita, como esta de Política & Ciência. Curioso é que uma pode adjetivar a outra, conferindo um sentido autônomo. Isoladas, cada uma tem sentido próprio, história única; combinadas, complementam-se, tornam-se cúmplices.

Ciência da política nos leva à concepção da polis grega, da cidade e do Estado, ou seja, da vida social, da vivência em comunidade, da convivência, das inter-relações humanas. Trata-se de uma atividade prática, cujo fim é a administração pública, o bem-comum.

Política da Ciência diz respeito às concepções teóricas envolvidas no processo da investigação sistematizada, da descoberta orientada, do desenvolvimento do espírito científico. Trata-se de uma atividade produtiva, cujo fim é o conhecimento e domínio do mundo que nos cerca.

Naturalmente, o homem é um animal político, isto é, um ser que depende dos outros (da comunidade, da cidade e do Estado), para se desenvolver, progredir, ter vida em plenitude e até sobreviver. É por meio da política que o homem vê atendidas suas carências mais primitivas e também suas aspirações mais sublimes. Fora da polis e da cultura, o ser humano seria uma besta-fera, pouco diferente das outras.

Aristóteles considerava as ciências práticas superiores às produtivas. Para ele, a Política era o instrumento social mais apropriado para a realização do ideal individual e coletivo; a prática arquitetônica que deveria estruturar todas as ações e as produções humanas. Já dizia este filósofo que a natureza nada faz em vão. Assim, se ao homem foi dada a linguagem, não foi apenas para comunicar sentimentos de prazer e dor, como talvez ocorra com todos os outros animais, mas para poder expressar a noção de valores, aquilo que lhe parece benéfico e nocivo, mal e bem, bom e ruim, justo e injusto

Ainda de acordo com princípios aristotélicos, a ciência é uma atividade essencialmente humana, sumamente importante, mas secundária, em relação à política. Vê-se, daí, o quanto a coisa pública ( res publica ) e, daí, a República, eram consideradas importantes para a estruturação das sociedades e para a realização do ideário humano.

Nos dias atuais, parece constatar-se, uma inversão de valores: tudo que é "científico" parece ser bom, bonito e justo. Tão extremada é sua reputação, que parece ter-se tornado panacéia, condão mágico, pedra filosofal, única via de salvação. Cientificidade parece ter-se tornado artigo de fé e luxo. Tudo que não tenha esta marca, parece destinado ao luto e ao lixo. Ao contrário da Ciência, a Política parece ter-se tornado magia diabólica, algo tremendamente temeroso e temerário, caminho maldito.

Aqui faço um parênteses para lembrar outra importante lição de Aristóteles, para quem todo excesso se distancia da verdade e se torna nocivo.

Volto ao foco da abordagem, indagando: por que esta inversão de valores entre os conceitos de político e científico?

Certamente há muitas respostas e cada um tem a sua, mas ouso afirmar que a principal delas está vinculada à educação. Logicamente, não no seu excesso, mas na sua falta crônica.

No mundo moderno, a Ciência é ensinada e praticada em todos os níveis e instâncias. Sobre ela debruçam-se professores, pais e estudantes. Há um exercício singular e plural de reflexão sistemática sobre a mesma. Há programas e instituições de toda ordem, para seu aprimoramento e difusão. O mundo parece respirar sob os auspícios da Ciência.

E quanto à política, onde, como e por quem ela está sendo gestada, compreendida, empreendida, ensinada?

Infelizmente, via de regra, a política é aprendida na "escola da vida", isto é, no muque e na marra, geralmente no campo das disputas sorrateiras e das confrarias viciadas.

Os rudimentos políticos que há décadas eram ensinados na famigerada disciplina Organização Social e Política Brasileira (OSPB), foram banidos dos currículos escolares, sob a alegação que continham ranço do ideário militarista. Que foi colocado em seu lugar? Quais as alternativas que os educadores e os gestores públicos da educação providenciaram para preencher esta enorme lacuna da vida cívica?

Se não deram um nome para determinada disciplina que trataria disso, que outras disciplinas, da escola de base, estão voltadas para o ensino e prática do pensar reflexivo, do raciocínio crítico e dos princípios elementares de cidadania e da política verdadeira, voltada para a coisa pública?

O que se observa por aí é um simples arremedo de educação cívica, misto de religiosidade ilógica com conceitos anacrônicos de humanismo. Nele, os conteúdos são distorcidos, porque unicamente focados em dogmas e nas penalidades das leis, o que acaba por servir à uma inculcação maléfica na mente dos jovens, levando-os ainda mais ao medo e ao distanciamento das reais questões da sociedade e do Estado. Neste vazio, é evidente que surjam facilidades de sobra e terrenos exageradamente férteis para as manobras dos oportunistas de plantão e que estão interessados na política não como mecanismo para servir ao povo, mas como tática para o enriquecimento ilícito e perpetuação no poder, sob qualquer artifício..

Diante desse marasmo e para uma mudança social a longo prazo, advogo que a Política, como ciência essencialmente prática, deve ser ensinada nas escolas. Não nas escolas dos partidos políticos-partidários, como fazem alguns, mas nas escolas públicas, a partir da infância e juventude. Se não para formar bons quadros de políticos autênticos, esse mecanismo serviria ao menos para a formação de cidadãos plenos e verdadeiros.

Cidadania plena não se consegue por espasmos, apenas com direito ao voto (ainda que voto obrigatório, na marra), em época de eleição; consegue-se pela educação permanente.

Como educadores de alto nível, intelectuais bem preparados e cidadãos de elite, nos quais grande parcela da população se espelha, os filósofos e cientistas detém uma enorme parcela de responsabilidade nesse campo. São eles que devem se irmanar e ir à luta para ajudar a construir uma nação realmente desenvolvida e onde a política volte a adquirir o status, o valor e o sentido apregoados pela cultura grega, da qual somos herdeiros e temos a obrigação da honra.

Nesse sentido, toda política científica consistente e sustentável deve tomar por base e ao mesmo tempo dar sustentação à ciência política, sendo a recíproca também verdadeira.