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Dr.Geraldo
Mendes dos Santos*
Observo,
no decorrer dos últimos dias (e noites, também)
multidões em frenesi para as "compras natalinas".
Daí me vem a idéia de confrontar os principais
tipos de presentes atualmente em uso, com aqueles levados
ao Jesus recém-nascido pelos Reis Magos: ouro, mirra
e Incenso. Trazidos por ilustres senhores do Oriente, certamente
esses presentes eram valiosos por si mesmos, mas com certeza
ainda maior: eram uma mensagem simbólica; ou melhor,
eram o símbolo de uma mensagem. Mensagem apostólica,
divina.
Talvez esteja falando de algo muito óbvio ou mesmo,
cometendo grave erro de interpretação das
escrituras "sagradas", mas de maneira racional
e intuitiva sou levado a interpretar a simbologia dos presentes
ofertados pelos Magos da seguinte maneira: O ouro simbolizava
as coisas materiais e concretas, o prestígio social,
a posse mundana, o comércio, a troca. A mirra tinha
por símbolo a conquista das artes e das técnicas,
os artefatos, artesanatos, produtos da criatividade humana.
O incenso simbolizava o etéreo e transcendental,
os sentimentos, as emoções, a sublimação,
a convergência do humano com o divino.
Detalhando e ao mesmo tempo ampliando essa metáfora,
o ouro é o símbolo da Economia, o tema que
domina o mundo, especialmente o capitalista e cuja égide
é a produção e consumo. A mirra simboliza
a tecnologia, filha bastarda da Ciência e instrumento
da própria Economia. O incenso simboliza o imaterial,
a razão e o discernimento, a verdadeira essência
do ser humano. Com o mesmo senso interpretativo e vis a
vis com a natureza dos principais presentes, atualmente
em voga, percebo uma exorbitância do ouro e da mirra
e uma carência tremenda de incenso.
A exorbitância do ouro e da mirra se revela na transmutação
da figura do menino Jesus, originalmente alojado numa humilde
manjedoura agora figurado num velhinho de vestimenta vermelha
e barba branca, blefando com seu tradicional Rô, rô,
rô!, além do sininho convidativo para as compras.
Compras e mais compras. O aniquilamento do incenso se revela
na sua própria ausência, ou melhor, na transfiguração
da pessoa livre e autônoma, para um consumidor autômato,
vítima de necessidades artificialmente construídas
e vicejadas por um mercado sempre mais ávido.
Importantes ciências, como a Fisiologia e Ecologia
sempre têm o equilíbrio como algo indispensável
para a saúde integral do organismo e dos biomas.
O mesmo ocorre com a Religião, a Política
e as principais linhas filosóficas, com respeito
às ações humanas verdadeiramente sábias
e virtuosas: equilíbrio, meio-termo ou mediania.
Assim, considerando que os três presentes doados ao
menino Jesus pelos Magos se constituem em elementos metafóricos,
indicadores de uma vida realmente saudável, harmoniosa
e fraterna, talvez sejam eles o arauto ou um convite/lembrete
para arrefecermos o ouro e a mirra ou, então, avivarmos
o incenso em nossas relações com Deus, os
outros e nós mesmos.
Feliz Natal a todos!
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