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( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos,
pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
Av.André Araújo, 2936, Cx.P.478,
Bairro Petrópolis
Manaus- AM
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Ouro, mirra e incenso...

Dr.Geraldo Mendes dos Santos*

Observo, no decorrer dos últimos dias (e noites, também) multidões em frenesi para as "compras natalinas". Daí me vem a idéia de confrontar os principais tipos de presentes atualmente em uso, com aqueles levados ao Jesus recém-nascido pelos Reis Magos: ouro, mirra e Incenso. Trazidos por ilustres senhores do Oriente, certamente esses presentes eram valiosos por si mesmos, mas com certeza ainda maior: eram uma mensagem simbólica; ou melhor, eram o símbolo de uma mensagem. Mensagem apostólica, divina.

Talvez esteja falando de algo muito óbvio ou mesmo, cometendo grave erro de interpretação das escrituras "sagradas", mas de maneira racional e intuitiva sou levado a interpretar a simbologia dos presentes ofertados pelos Magos da seguinte maneira: O ouro simbolizava as coisas materiais e concretas, o prestígio social, a posse mundana, o comércio, a troca. A mirra tinha por símbolo a conquista das artes e das técnicas, os artefatos, artesanatos, produtos da criatividade humana. O incenso simbolizava o etéreo e transcendental, os sentimentos, as emoções, a sublimação, a convergência do humano com o divino.

Detalhando e ao mesmo tempo ampliando essa metáfora, o ouro é o símbolo da Economia, o tema que domina o mundo, especialmente o capitalista e cuja égide é a produção e consumo. A mirra simboliza a tecnologia, filha bastarda da Ciência e instrumento da própria Economia. O incenso simboliza o imaterial, a razão e o discernimento, a verdadeira essência do ser humano. Com o mesmo senso interpretativo e vis a vis com a natureza dos principais presentes, atualmente em voga, percebo uma exorbitância do ouro e da mirra e uma carência tremenda de incenso.

A exorbitância do ouro e da mirra se revela na transmutação da figura do menino Jesus, originalmente alojado numa humilde manjedoura agora figurado num velhinho de vestimenta vermelha e barba branca, blefando com seu tradicional Rô, rô, rô!, além do sininho convidativo para as compras. Compras e mais compras. O aniquilamento do incenso se revela na sua própria ausência, ou melhor, na transfiguração da pessoa livre e autônoma, para um consumidor autômato, vítima de necessidades artificialmente construídas e vicejadas por um mercado sempre mais ávido.

Importantes ciências, como a Fisiologia e Ecologia sempre têm o equilíbrio como algo indispensável para a saúde integral do organismo e dos biomas. O mesmo ocorre com a Religião, a Política e as principais linhas filosóficas, com respeito às ações humanas verdadeiramente sábias e virtuosas: equilíbrio, meio-termo ou mediania. Assim, considerando que os três presentes doados ao menino Jesus pelos Magos se constituem em elementos metafóricos, indicadores de uma vida realmente saudável, harmoniosa e fraterna, talvez sejam eles o arauto ou um convite/lembrete para arrefecermos o ouro e a mirra ou, então, avivarmos o incenso em nossas relações com Deus, os outros e nós mesmos.

Feliz Natal a todos!