SAMAÚMA
 







( * ) Dr.Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia -INPA
Coordenação de Pesquisas em Biologia Aquática-CPBA
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Espelho e Cegueira:
Signos Metafóricos do Conhecimento Humano

 

Dr.Geraldo Mendes dos Santos( * )



Signo é algo que está no lugar do objeto e capaz de transmitir seu sentido ou mensagem para um organismo ou instrumento, denominado interpretante. Seu significado e abrangência vai muito além da noção popular do Zodíaco, com seus signos astrológicos e de caráter futurista.

A representação sígnica pode assumir diversos aspectos, dependendo do tipo de relação que o signo mantém com o objeto representado, podendo ser um Ícone (semelhanças na forma), Índice (causa e efeito) ou Símbolo (convenção arbitraria). Como as palavras são símbolos ou memes culturais, produzidos e reproduzidos na mente das pessoas, pode-se afirmar que elas são os elementos básicos da linguagem e do pensamento.

Exceto expressões verbais e onomatopéicas, as palavras normalmente não contém um significado preciso quando utilizadas isoladamente. Aliás, às vezes uma mesma palavra pode ter diversos sentidos. Como regra, para ter e dar sentido às coisas concretas e abstratas, elas devem funcionar em conjunto. As palavras “espelho” e “cegueira”, por exemplo, quando isoladas, não nos dizem muito, mas se são apresentadas num contexto, formando frases e orações, passam a representar não um ou dois, mas um mundo de signos. Tomo, portanto essas duas palavras para refletir sobre seu significado na linguagem e, sobretudo, como metáfora do conhecimento humano.

Espelho é uma superfície regular, polida, com fundo metalizado e capaz de refletir a imagem dos objetos, por ação da luz que sobre eles incide.

A superfície especular nos possibilita uma experiência reveladora e única: nela, nossa imagem refletida é percebida como se fôssemos um “outro” que nos observa e julga. Essa alteridade ilusória é interessante porque, o “outro”, não é absolutamente um outro (simples imagem nossa) nem nós mesmos (como podemos ocupar dois lugares ao mesmo tempo?).

Segundo alguns autores, tal imagem também não poderia ser signo, já que, por definição, só há signo quando o objeto representado está ausente (A imagem especular, ao contrário, só ocorre quando o objeto que lhe dá origem ocorre no mesmo campo ou atua simultaneamente). Segundo outros autores, mesmo a imagem não o sendo, o espelho que lhe dá origem encerra signos importantes, como o tipo de moldura, as formas e dimensões de sua superfície, a posição ou local em que está colocado, etc. Independentemente dessas noções técnicas e dessas interpretações, o espelho se presta também à imagens metafóricas altamente construtivas e carregada de significados, como veremos a seguir.

A imagem especular pode ser comparada como o reflexo da realidade do mundo em nossa experiência de vida. Ou o reflexo de nossa experiência de vida na realidade do mudo? Seja qual for a alternativa para esta instigante questão, talvez a maneira mais adequada de exprimir tal realidade seja a metáfora de um rio caudaloso e perene e ao qual nossas experiências pessoais – semelhantes aos igarapés e pequenas nascentes - se juntam para interconectar a grande bacia da história e desaguar no imenso oceano da Vida. Nesse sentido e em qualquer caso, as imagens do real e do imaginário se entrelaçam e se fundem, formando uma realidade única.

A imagem especular pode também ser associada ao conjunto dos conhecimentos adquiridos e que, por mais sólidos que pareçam, não têm nada de solidez, mesmo nas ciências consideradas exatas ou duras: eles são fluidos, à semelhança de uma névoa fugaz e itinerante e a mudança contínua é sua regra de ouro.l Conhecimentos de ontem se transformam na ignorância de hoje e amanhã tudo passa a ser diferente. A própria ciência faz da mudança e da alternância de saberes o seu escopo operacional; sua missão, ou melhor, sua própria natureza consiste em testes intermináveis visando a refutação das verdades que apregoa.

Outro aspecto interessante neste contexto é que as delimitações do conhecimento em áreas, setores, campos ou disciplinas são totalmente arbitrárias. As linhas entre suas abordagens, caso sejam necessárias para o ordenamento das ciências particulares devem ser tênues e interligadas, como malhas de uma grande teia. Nesse sentido, considerados em conjunto, como forma de entender e interpretar o mundo, como um todo, o conhecimento é único.

A imagem metafórica do conhecimento em constante mutação pode servir de penitência a certos intelectuais que por acaso se julgam detentores de conhecimentos sólidos ou que são elitizados por causa de títulos, condecorações ou mesmo considerados superiores aos homens comuns. Na verdade, isso não se sustenta, pois todos sabem que a ignorância aumenta na mesma proporção que aumenta o nível de conhecimentos; ou seja, quanto mais se aprende, mais se tem a aprender. Isso é válido tanto para o intelectual generalista, que tende a saber pouco de tudo, como também, e sobretudo, para o especialista, que tende a saber tudo de pouco.

O signo da Cegueira pode ser invocado como referência ao mito do Cosmo ordenado e ordenador, surgido de Caos, brumas escuras, denunciadoras da falta de luz e onde os espelhos não servem para nada. A cegueira pode ser associada ao mito platônico da caverna, indicadora da ignorância escura, repetidora das velhas opiniões ou “doxa” e depois redimida pelo brilho da razão, do raciocínio e da lógica.

A Cegueira denota a incapacidade dos seres vivos de captar visualmente as imagens projetadas dos objetos circundantes. Em sentido literal, ela é signo de incapacidade visual, mas de um ponto de vista ontológico e humano, ela pode constituir-se como sinal distintivo da capacidade que certas criaturas cegas têm de se interagir com o mundo de forma diferente, admirável e talvez mais criativa que aqueles possuidores de visão. Exemplos disso é o lendário Homero, autor dos contos épicos Ilíada e Odisséia, o poeta inglês John Milton, os escritores argentinos Jorge Luis Borges, além de tantos outros que utilizaram sua própria cegueira como inspiração para obras grandiosas.

Se cegueira pode ou não existir, dependendo do ângulo em que se analisa, como atribuir-lhe um signo definitivo? Nesse, como em todos os casos, os signos só funcionam em conjunto e são tão mutantes, como as próprias coisas que representam. Nesse sentido, como se pode observar, Espelho e Cegueira, são signos ilusórios, indicativos de que a realidade que eles representam também o é.

Considerando que vivemos mental, social e culturalmente mergulhados num universo de signos e que esses operam há milhares de anos; considerando também que o conhecimento, a linguagem e a cultura são conquistas coletivas e vinculadas tanto ao passado, como ao futuro e ao presente, é forçoso admitir que todos os signos se complementam e que o homem evolui com base nas mudanças dos próprios signos que ele cria e recria, num processo interminável e incessante. Nesse sentido e como conotação metafórica, podemos concluir que a linguagem é uma das mais distintivas características do homem e esse, por sua vez, uma extraordinária imagem da Natureza, reflexo da luz que se fez Verbo e espelho de si mesmo.