Maria da Glória Rosa*
“Não era fácil escrever histórias. Ao se transformarem em palavras, os projetos passeavam pelo papel e as ideias e imagens morriam. Como reanimá-los? Por sorte aí estavam os mestres para que eu aprendesse com eles e seguisse seu exemplo”
Mário Vargas Llosa
Este é um livro a quatro mãos, numa parceria entre mim e Albana Xavier Nogueira, que começou nos anos de 1970, na Faculdade Dom Aquino de Filosofia Ciências e Letras, quando tive o privilégio de tê-la como aluna brilhante no curso de Letras, criadora de textos reveladores dos mistérios de Clarice, Drummond, Guimarães Rosa e de tantos outros mestres no ofício de descer ao fundo dos mistérios do mundo. Mais tarde produzimos juntas uma coleção de livros didáticos, para o ensino médio, em que tentamos amenizar a aridez das regras gramaticais, com a introdução da arte em todos os seus aspectos e que foi adotado em nível nacional.
A presente obra intitulada A literatura sul-mato-grossense sob a otica de seus construtores brotou do desejo de caminhar ombro a ombro com os sujeitos da pesquisa, os criadores de historias, poemas, contos, numa tentativa de desbravar os caminhos da escrita pela força de depoimentos em que a memória organizou, de forma cronológica, as lembranças definidoras dos traços distintivos de uma literatura multifacetada, onde cabem influências de toda ordem. De certa forma, foi uma viagem ao reino dos mitos, à descoberta do “quem das coisas”, diálogo dos avessos, que se escondem no interior das palavras.
Nasceu desse convívio um compromisso afetivo entre os escritores e as autoras do projeto, no qual as introspecções e observações foram definindo e aprofundando laços de admiração e amizade, de tal forma que o trabalho acabou transformando-se em fonte geradora de prazer e de descobertas imprevisíveis.
Tolstoi anotou em seu diário que “escrever não é difícil, o difícil é não escrever”. Nos últimos anos de vida, o grande autor russo redigia seus contos escondido de si mesmo, em segredo, conforme nos afirma Ricardo Piglia em recente artigo publicado no jornal Folha de São Paulo.Tentou abandonar a literatura, entregar-se ao trabalho manual, mas a vocação de autor era maior que o desejo de dedicar a vida aos camponeses, de tornar-se um ser mais puro.
Essa observação aplica-se aos autores de Mato Grosso do Sul, que, de modo geral, mantêm relação de alma, corpo e mão com a escrita, no objetivo de transformar a essência humana em acordes de frases e períodos.
Escrever é compulsão da grande maioria, as palavras são alimento, espaço de sobrevivência em sociedades anestesiadas pelos produtos eletrônicos.
Entre as inúmeras conclusões a que fomos levadas, depois de longas horas de convivência, em que se alternavam vozes, sonhos, ambições e desencantos afirma-se a certeza da escrita como razão de ser, elemento imprescindível à vida de cada um.
A literatura figura no relato de muitos como precioso veículo para descoberta de valores profundos da realidade humana. Sem ela, o espírito crítico, motor das mudanças históricas e do senso de liberdade desapareceria, dando lugar a agrupamentos em que a liberdade, a prosperidade e a justiça deixariam de existir. A leitura foi o grande estímulo, os mestres em que se inspiraram na composição de suas obras. A pobreza nunca serviu de obstáculos à ambição de escrever e de publicar. O meio ambiente rural, a solidão pantaneira, o brilho da paisagem são reinventados nas obras de Manoel de Barros, Augusto Cesar Proença, Abílio de Barros, Geraldo Ramon Pereira e Cláudio Valério. O magistério e o jornalismo funcionaram como estágio preparatório das produções de Raquel Naveira, Lucilene Machado, Orlando Antunes Batista, Adail José de Aguiar, Flora Thomé e José Pedro Frazão.
As perseguições políticas reacenderam em Brígido Ibanhes o espírito de luta, a vontade de transformar o sofrimento em matéria de romance. O hábito de fazer diários, as leituras de Pedro Nava foram responsáveis pelos livros de memórias de Samuel Xavier Medeiros. Reginaldo Araújo, Guimarães Rocha e Rubênio Marcelo representam a força nordestina presente em poemas, romances, histórias de cordel embasadas em registros de vida. O senso de humor a ironia são a tônica das narrativas de Heliophar Serra e José do Couto Pontes, para os quais a magistratura serviu de pano de fundo para a recriação de experiências relatadas com a força das lembranças guardadas nas dobras da memória.
Emmanuel Marinho, Henrique Medeiros, marcados pela militância política e cultural estabelecem com as artes plásticas um processo de humanização, em que tem relevo a economia de signos lingüísticos, presente nos textos de ambos.
Um capítulo especial do livro é dedicado às análises críticas do panorama literário de MS pelos professores doutores Maria Adélia Menegazzo, Marcelo Marinho, Padre Afonso de Castro e Paulo Nolasco, que enriquecem a obra com pertinentes comentários. O prefácio de José Fernandes, Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, detém-se na análise de cada escritor, mergulha nas raízes da literatura brasileira e sul- mato-grossense.
Esse livro, patrocinado pelo FIC (Fundo de Investimentos Culturais de MS) surge em cena, graças à dedicação de Marília Leite, responsável pela editoração eletrônica, às fotos de Elis Regina e Vânia Jucá, à gerência financeira de Solimar Alves de Almeida, à assessoria técnica de Idara Duncan. e à divulgação de Marília de Castro. À Life Editora coube a impressão e o acabamento.
O lançamento da obra acontecerá dia 31 do corrente, no Marco (Museu de Arte Contemporânea) em Campo Grande, e, no dia 28 de abril, em Corumbá.
Palmilhar o universo da literatura de MS foi sentir o testemunho eloqüente e vibrante de vidas dedicadas ao sonho de criar que nos proporcionou a aproximação com as mais intensas formas de vida.
Maria da Glória Sá Rosa |