
Maria da Glória Rosa*
Academia Sul-Mato-Grossense de Letras
Revista nº 7
Não sou biografável.
Ou
Talvez seja. Em três linhas.
1.Nasci na beira do rio Corumbá.
2. Passei a vida recolhendo coisas inúteis.
3.Aguardo um recolhimento de conchas E
que seja sem dor, em algum banco de praça,
espantando da cara as moscas mais brilhantes.
(Introdução de uma entrevista de Manoel de
Barros a Antônio Gonçalves Filho - Folha de
S.Paulo, 15-4-1989).
Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá em 1916, na Travessa da Marinha, sem número. A infância, até os oito anos, transcorreu no Pantanal da Nhecolândia, Corumbá. Seus pais, João Wenceslau Leite de Barros e Alice Pompeu Leite de Barros, eram naturais de Livramento (MT). Foi alfabetizado pela tia Rosa Pompeu de Barros, no Pantanal. Estudou e fez exame de admissão para o ginásio no Instituto Pestalozzi (atual Colégio Dom Bosco), em Campo Grande.
Foi para o Rio de Janeiro em 1929, onde estudou no Colégio Lafayette. Ainda no Rio, matriculou-se, em 1932, no Colégio São José, dos Irmãos Maristas. Ali conheceu o padre Ezequiel, que o introduziu na leitura do Padre Antônio Vieira, segundo ele seu “desvirginamento poético, sua maior descoberta”. Leu todos os clássicos portugueses e produziu um livro de sonetos, cerca de cento e cinqüenta, dos quais nenhum resta.
Considera-se marcado pela influência quinhentista barroca, pela literatura francesa (Rimbaud, Baudelaire, Apollinaire), por filósofos como Schopenhauer, Kierkegaard e pelos clássicos da literatura brasileira como Machado de Assis, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa.
Sua primeira publicação aconteceu em 1932, no Boletim da Nhecolândia, uma crônica chamada Mano. Formou-se em Direito em 1939. Em meados de 1947 exercitou-se no prazer de ver pintura e cinema em curso no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, quando alargou a visão das coisas e o “bugre deixou de ser provinciano”. Descobriu os pintores e poetas modernos como Chagall, Picasso, Miró, Paul Klee, Elliot e Ezra Pound e os poetas da imagem, como chama seus cineastas preferidos: Fellini, Kurosawa, Buñuel.
De volta ao Brasil, conheceu a mineira Stella, com quem se casou. O casal tem três filhos: Pedro, João e Martha Barros, artista plástica que faz as ilustrações de seus livros.
Em 1935 deu a um público restrito seu primeiro livro, CABELUDINHO, que depois viria a chamar-se POEMAS CONCEBIDOS SEM PECADO (1937).
Nas décadas seguintes publicou FACE IMÓVEL (1942), POESIAS (1946), COMPÊNDIO PARA USO DE PÁSSAROS (1961), GRAMÁTICA EXPOSITIVA DO CHÃO (1969), MATÉRIA DE POESIA (1974), ARRANJOS PARA ASSOBIO (1982), LIVRO DE PRÉ-COISAS (1985), O GUARDADOR DE ÁGUAS (1989), CONCERTO A CÉU ABERTO PARA SOLOS DE AVES (1991), O LIVRO DAS IGNORÃÇAS (1993), LIVRO SOBRE NADA (1996), RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA (1998), ENSAIOS FOTOGRÁFICOS (2000), TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO (2001), MEMÓRIAS INVENTADAS (2003), POEMAS RUPESTRES (2004).
Escreveu também para crianças: EXERCÍCIO DE SER CRIANÇA (1999), O FAZEDOR DE AMANHECER (2001), POEMINHAS PESCADOS NUMA FALA DE JOÃO (2001), CANTIGAS PARA UM PASSARINHO À-TOA (2003).
Tem mais de vinte livros publicados e em cada novo lançamento sua poesia ganha riqueza maior. É reconhecido pela crítica como um dos maiores poetas brasileiros, traduzido e aclamado no exterior. Sua obra tem sido objeto de teses, ensaios, filmes, peças de teatro e vídeos.
Recebeu inúmeros prêmios e homenagens, entre os quais o Grande Prêmio da Crítica/Literatura concedido pela Associação Paulista de Críticos de Artes e o Prêmio Jabuti de Poesia, oferta da Câmara Brasileira do Livro, pela publicação O GUARDADOR DE ÁGUAS.
Na tranqüilidade da confortável residência em Campo Grande (MS), rodeado de belos quadros, objetos de fino gosto, das obras da literatura brasileira, portuguesa e universal, dos sons de Bach, Brahms, Beethoven, Satie e Schumann, o poeta pousa o olhar na insignificância do mundo, enquanto as palavras reconstroem, no concerto dos passarinhos, o leve rumor do que chamamos vida.
O olhar do poeta investiga a máquina do mundo
“A Máquina do mundo
Olha repara, asculta, essa riqueza
sobrante a cada pérola, essa ciência
sublime, formidável mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular
que nem concebes mais pois tão esquivo.”
Carlos Drummond de Andrade
A poética de Manoel de Barros investiga os mistérios do mundo. Indaga o porquê das coisas, tenta desvendar a mecânica dos movimentos, que regem o universo, busca penetrar no hermetismo de uma ciência sublime, poderosa, mas incapaz de satisfazer as ânsias do coração. Para decifrá-la, apropria-se da sabedoria da infância, reassume o olhar de criança, certo de que apenas a inocência pode desvendar a razão de tantas contradições. A desigualdade imposta por algumas classes sobre as outras queima-lhe a pele como fogo. A mesquinhez dos gestos e das palavras, o horror da bomba, atingem o mais fundo da sensibilidade de quem foi criado na largueza do Pantanal, “de rios inventados e bentevis pendurados no sol.”
Homem culto, versado em ciências, filosofia, literatura, amante das artes, imagina escondidas nos meandros do passado as soluções para tantos insolúveis teoremas. Como Proust, busca no fio das lembranças a solução para os enigmas que o atormentam:
Sou um sujeito cheio de recantos
Os desvãos me constam
Tem hora leio avencas
Tem hora Proust
Ouço aves e beethovens
Gosto de Bola Sete e Charles Chaplin.
O dia vai morrer aberto em mim.
(LIVRO SOBRE O NADA)

Extremamente ligado à família, aos avós, aos pais, às paisagens do Pantanal nas quais se acostumou a enxergar nos olhos da garça os perfumes do sol, pelo poder da memória involuntária, junta ciscos (que para ele têm a importância de uma catedral), barbantes, bêbados, loucos de estrada, como Bola Sete e Chaplin, para através da insignificância dar unidade à existência fragmentada. Criado no mato, aprendeu a gostar das “coisinhas do chão”. Mais que paisagem, o Pantanal é para ele um estado de espírito, um ente mitológico que o fita e determina a universalidade de suas criações. Lembranças de brinquedos, aves, árvores, rãs, pedras largatixas e caracóis transformam-se em elementos simbólicos, iluminados e revividos à luz do presente.
Dotado de discurso único e intraduzível, explora todas as potencialidades da linguagem numa busca revestida de sentido ético e revolucionário que choca os desavisados, como se, colocados na escuridão de uma mina, precisassem de tempo e reflexão para analisar suas próprias percepções. Não precisa inventar metáforas nem imagens. Elas invadem-no, fazem-lhe cócegas, obrigam-no a transcrevê-las.
A linguagem refaz o inventário de tudo o que dá sentido à vida. A memória é a guardiã das indagações do poeta. Que caminha para trás, prefere os avessos e, para atingir a escuridão, caminha por clarezas, precisa adoecer as palavras, para que sirvam ao poema.
Agora só espero a despalavra: a palavra nascida
Para o canto-desde os pássaros.
A palavra sem pronúncia, ágrafa
Quero o som que ainda não deu liga
Quero o som gotejante das violas de cocho.
(RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA)
Por vezes assume o tom de um penitente, consciente da inutilidade da grandeza humana, pronto para a viagem final: Me acho como aqueles des-heróis de Callais que Rodin esculpiu: nus de seus orgulhos e de suas esperanças. Só de camisolões e cordas no pescoço. Pesados de silêncio e da tarefa de morrer.
Morrer é uma coisa indestrutível.
(RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA)
Para atingir o caroço das coisas, desconstrói as palavras, dissecalhes as vísceras até concluir que apenas o olhar de uma borboleta é capaz de definir, ampliar e libertar o homem.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta
Seria com certeza um mundo livre aos poemas.
(ENSAIOS FOTOGRÁFICOS)
A sabedoria não está nos livros, mas na natureza:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras
do que os homens
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas.
(ENSAIOS FOTOGRÁFICOS)
A consciência do fim torna mais aguda a certeza da inutilidade de tudo que o mundo venera e considera fundamental. “Quando o mundo abandonar o meu olho, que hei de fazer?” A única salvação consiste em integrar-se à natureza, desaprender, chegar ao “criançamento das palavras”, aprender a divinar como os sabiás.
Diante da máquina do mundo o poeta sorri. O olhar cheio de sol, desvia-se esquivo da solenidade do universo. Como Manoel Bandeira, de quem se sentia irmão, quanto mais o vento “varre tudo” mais a vida do poeta “fica mais cheia de tudo”.
A riqueza poética de Manoel de Barros tem sido continuamente explorada. No panorama da literatura sul-mato-grossense e brasileira ele se destaca como um daqueles heróis de que fala Baudelaire, que ousou anular tudo o que havia sido criado para reexaminar e recompor novas formas de linguagens. Impossível escapar ao seu envolvimento. A alteração do código, que provoca o estranhamento inicial, instiga o leitor a novas descobertas, estimula-o à excitante e bem-humorada viagem a mundos impossíveis de onde regressa com os sentidos muito mais apurados e abertos à apreensão dos mistérios da existência.

Poemas de Manoel de Barros
Pantanal
Viajando...
Apear à margem dos banhados
Beber água dormida nos balcedos
Dos aguapezais...
Viajando...
Despir-se à margem dos corixos
Dar cangapés nas águas virgens, na ferrugem
Das pedras-cangas...
Viajando...
Apear descalço, à margem de uma sanga
Aberta no cerrado
E adormecer num tronco recostado...
Viajando...
Curvar-se até o chão
Para sorver a água que irrompe de olheiros
Na estrada...
Viajando...
Morder pitanga!
(POESIAS, 1956, p.60)
Mundo Renovado
No Pantanal ninguém pode passar régua. Sobremuito quando chove. A régua é existidura de limite. E o Pantanal não tem limites.
Nos pátios amanhecidos de chuva, sobre excrementos meio derretidos, a surpresa dos cogumelos! Na beira dos ranchos, nos canteiros da horta, no meio das árvores do pomar, seus branquíssimos corpos sem
raízes se multiplicam.
O mundo foi renovado durante a noite com as chuvas. Sai o garoto pelo piquete com olho de descobrir. Choveu tanto que há ruas de água. Sem placas, sem nomes, sem esquinas.
Incrível a alegria do capim. E a bagunça dos periquitos. Há um referver de insetos por baixo da casca úmida das mangueiras.
Alegria é de manhã ter chovido de noite. As chuvas encharcaram tudo. Os baguaris e os caramujos tortos. As chuvas encharcaram os cerrados até os pentelhos. Lagartos espaceiam com olhos de paina. Borboletas desovadas melam. Biguás engolem bagres perplexos. Espinheiros emara-nhados guardam por baixo filhotes de pato. Os bulbos das lixeiras estão ensangüentados. E os ventos se vão apodrecer!
Até as pessoas sem eira nem vaca se alegram.E as águas irrompem no cio os limites do pátio. Um cheiro de araticum maduro penetra as crianças. Fugiram dos buracos cheios de água os ofídios lisos. E entraram debaixo dos fogões de lenha.Os meninos descobrem de mudança formigas carregadeiras.Cupins constroem seus túneis. E há os benteviscartolas nos pirizeiros de asas abertas.
Um pouco do pasto ficou dentro dágua. Lá longe em cima da piúva o ninho do tuiuiú ensopado. Aquele ninho fotogênico cheio de filhotes com frio.
A pelagem do gado está limpa. A alma do fazendeiro está limpa. O roceiro está alegre na roça porque sua planta está salva. Pequenos caracóis pregam saliva nas roseiras. E a primavera imatura das araras sobrevoa nossas cabeças com sua voz rachada de verde.
LIVRO DE PRÉ-COISAS (1985, p.31-32)
Nasci para administrar o à-toa
O em vão
O inútil
Pertenço de fazer imagens
Opero por semelhanças
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
De pessoas com rãs
De pessoas com pedras
Etc etc
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade para clarezas
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria
mineral.
LIVRO SOBRE NADA (1996, p. 51)
Venho de nobres que empobreceram.
Restou-me por fortuna a soberbia
Com esta doença de grandezas:
Hei de monumentar os insetos!
(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os pés dos seus
discípulos)
São Francisco monumentou as aves
Vieira, os peixes
Shakespeare, o Amor. A Dúvida, os tolos.
Charles Chaplin monumentou os vagabundos.
Com esta mania de grandeza:
Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas de orvalho.
LIVRO SOBRE NADA (1996, p.61)
A Borra
Prefiro as palavras obscuras que moram nos
fundos de uma cozinha-tipo borra, latas, cisco
Do que as palavras que moram nos sodalícios
Tipo excelência, conspícuo, majestade.
Também os meus alter-egos são todos borra,
Ciscos, pobres-diabos
Que poderiam morar nos fundos de uma cozinha
Tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego Prego etc
Todos bêbados ou bocós.
E todos condizentes com andrajos.
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um
alter-ego respeitável-tipo um príncipe,
Um almirante, um senador.
Eu perguntei:
Mas quem ficará com os meus abismos se os
Pobres diabos não ficarem?
ENSAIOS FOTOGRÁFICOS (2000, p. 61)

Poema
A poesia está guardada nas palavras-é tudo que
eu sei
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
Insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO (2001, p.19)
Sobre meu corpo se deitou a noite (como se
eu fosse um lugar de paina).
Mas eu não sou um lugar de paina.
Quando muito um lugar de espinhos.
Talvez um terreno baldio com insetos dentro.
Na verdade eu nem tenho ainda o sossego de
uma pedra.
Não tenho os predicados de uma lata.
Não sou uma pessoa sem ninguém dentro-
Feito um osso de gado
Ou um pé de sapato jogado no beco.
Não consegui ainda a solidão de um caixote -
Tipo aquele engradado de madeira que o poeta
Francis Ponge fez dele um objeto de poesia.
Não sou sequer uma tapera, Senhor
Não sou um traste que se preze.
Não sou digno de receber no meu corpo os
Orvalhos da manhã.
RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA (2002, p. 41)
Teologia do traste
As coisas jogadas fora por motivo de traste
São alvo de minha estima.
Prediletamente latas.
Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.
Se você jogar na terra uma lata por motivo de
traste: mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes
por exemplo do que as idéias.
Porque as idéias sendo objetos concebidos pelo
espírito elas são abstratas.
E, se você jogar um objeto abstrato na terra por
motivo de traste, ninguém quer pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes
A gente pega uma lata enche de areia e sai
puxando pelas ruas moda um caminhão de areia.
E as idéias, por ser um objeto abstrato concebido
pelo espírito não dá para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.
Idéias são a luz do espírito – a gente sabe.
Há idéias luminosas – a gente sabe.
Mas elas inventaram a bomba atômica, a bomba
atômica, a bomba atôm.................
....................................... Agora
eu queria que os vermes iluminassem.
Que os trastes iluminassem.
POEMAS RUPESTRES (2004, p. 47)
Garça
A palavra garça em meu entender é bela.
Não seja só pela elegância da ave.
Há também a beleza letral.
O corpo sônico da palavra
E o corpo níveo da ave
Se comungam.
Não sei se passo por tantã dizendo isso
Olhando a garça-ave e a palavra garça
Sofro uma espécie de encantamento poético.
POEMAS RUPESTRES (2004, p. 47)
Os Dois
Eu sou dois seres
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
E vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas e vaidades
Frases
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.
POEMAS RUPESTRES (2004, p. 45) |