Maria da Glória Rosa*
Viver essa vida é mais um lembrar-se indireto dela do que um viver direto. Parece uma convalescença macia de algo que, no entanto, poderia ter sido absolutamente terrível.
Clarice Lispector
Quando a vi na sala de espera do aeroporto, meu coração disparou. Meus olhos atravessaram o tempo. Estava mais magra, as mãos engelhadas, mas os traços fisionômicos eram os mesmos. Como se fosse irmã gêmea da mulher da foto que estava em minha carteira. Ou seria outra? As pessoas mudam tanto, e talvez eu começasse a delirar, vendo em cada desconhecida a imagem de minha mãe. O vestido de seda estampada era o mesmo de doze anos atrás, que usava para ir à missa. Os sapatos pareciam gastos pelas ruas de desconforto e solidão que percorrera. Tentei fitá-la, mas ela desviou o olhar, como se temesse o terrível encontro com a verdade.
Quis segui-la, enquanto nos encaminhávamos para o avião, mas ela, como se percebesse meu desejo de interrogá-la, tocá-la, subiu rápido as escadas e sentou-se na última fileira, cabeça baixa, olhos vermelhos de quem muito chorou. Seriam verdes como os da foto, ou a cor era produto das fantasias em que nas noites de insônia eu via seu olhar com os mistérios do mar pousado em minhas inquietações? Teria me reconhecido? Afinal, eu tinha apenas dez anos quando ela desapareceu e nunca mais a vira nem ouvira nada a seu respeito até o dia em que me disseram: Sua mãe morreu em Poços de Caldas. Mas ninguém morre em Poços de Caldas, muito menos uma mulher que sempre fora avessa ao sossego das cidadezinhas do interior.
A mãe, que eu conhecera, era alguém que vivia a céu aberto, que amava a agitação dos grandes centros, que considerava cada minuto como uma aventura inconseqüente. Numa sociedade destituída de valores, de destruição das liberdades individuais, conservava-se altiva, disposta a defender até o limite das forças a permanência das autênticas possibilidades do ser humano.
No meu quarto, ainda vejo seu auto-retrato a fitar-me com olhos de rebeldia.
– Posso desistir de tudo, menos de minha arte, é ela que me salva da desesperança que queima de forma lenta as melhores reservas interiores. Prefiro morrer a transformar-me em matéria desintegrada.
Impossível não recordar a intimidade que se estabeleceu entre nós: enquanto ela pintava, eu acompanhava o movimento das mãos muito brancas, que deslizavam o pincel na tela com a habilidade de um ator de posse de todos os seus recursos.
Numa viagem que fizemos juntas, ela desabafou: – Sinto-me massacrada pela mediocridade provinciana desta cidade. Vivo sufocada, preciso de ar puro, não quero ser enterrada viva.
Apesar de ter apenas oito anos, pude sentir o labirinto de solidão em que se consumia. E que, mais tarde, passou a ser o caminho onde se perdiam meus pensamentos. Muitas vezes, quando regressava da escola, só encontrava o perfume oriental presente nos quartos vazios, nas roupas sem vida nos armários que sem ela nada significavam.
Havia uma intimidade entre nós que ia além das lições escolares, das bobagens do meu dia-a-dia, que tornava insuportáveis as ausências cada vez mais repetidas e prolongadas.
– Fui ao médico, minha querida. Essas aplicações estão acabando comigo.
Estranhei que viessem buscá-la algumas amigas ou um rapaz bonito, que não era seu parente e com quem saía de braços dados.
Até o dia em que desapareceu de vez. Para trás ficaram os vestidos impregnados de um perfume que renova sensações perdidas nas veias da saudade.
Sei que convalesço de alguma doença ao deixar as lembranças queimarem-me a pele. Mas que fazer se essa é hoje minha forma de viver?
Levantei-me de mansinho para fingir que ia ao toalete, numa tentativa de abordagem, mas faltou-me coragem ao vê-la entregue ao abandono, como alguém que soltou as amarras para depois perder-se na despreocupação de um sono sem sonhos.
A convalescença de macia tornou-se dolorosa. As conversas maliciosas de parentes, o jeito perdido de meu pai voltavam no vídeo-tape de uma memória de cicatrizes.
Certa vez, avistei-a de repente na escuridão de uma rua, braços dados com o rapaz bonito que vinha buscá-la para as sessões de pintura. Gritei: Mamãe, e saí doida, desesperada, para ao menos tocar-lhe a ponta do vestido, mas acordei molhada de suor, o coração aos pulos, enquanto as duas sombras se desfaziam na escuridão.
Reencontrá-la, saber de sua vida, era mais que obsessão. O silêncio dos parentes e conhecidos transformou-se em estímulo de uma busca desesperada, que envolveu a procura de papéis, de um diário, da mínima coisa que a identificasse, além das fotos e do retrato na parede. Nada encontrei. A família resolvera matar também sua memória.
Comecei a tentar descobri-la na multidão, na saída do cinema, nos bares, hotéis e reuniões de arte. Mas a simples perspectiva de poder indagar-lhe o motivo do desaparecimento deixava-me as mãos geladas, a boca seca pelo medo antecipado da desilusão.
De repente, sonhei que estávamos juntas no aeroporto, aguardando a ida para um lugar desconhecido, só que não a encontrava quando começavam a chamar para o embarque. Vi-me então num elevador que subia lentamente até parar diante de uma janela, por onde divisei um mar de escuro azul, de onde, ao longe, ela me acenava em desespero.
Despertei com o toque da aeromoça que me avisava da chegada. Foi de certa forma a aterrissagem de minhas angústias no vazio da aeronave.
No silêncio do avião pairava a suavidade de um perfume oriental.
Encontro frustrado. As coisas perdidas podem um dia ser recuperadas?
Misteriosos acontecimentos conspiravam contra mim.
O que realmente teria acontecido se aquela senhora fosse na verdade minha mãe? Se tivesse sido possível a abordagem? Não teria sido absolutamente terrível o fim da convalescença macia em que se perdem meus pensamentos? |