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QUEM VAI PAGAR OS MEUS PREJUIZOS

 

 

Irm Gilson Boaventura

 


A Nação também precisa Reparar os Danos da Ditadura infanto-juvenil já que pagou milhões para personas não gratas que fazem parte desta politicagem.

 

 

Nasci no dia em que se comemora a queda da bastilha na França, aos 14 dias do mês de Julho de 1956, na ilha de São Francisco do Sul, Santa Catarina; transformada em península, e considerada como a 3ª cidade mais antiga do Brasil.

Eu Venho evidentemente de uma família de formação humilde, mas de origem tradicional, honesta hospitaleira e trabalhadora; comecei o trabalho ainda criança enfrentando a difícil disputa cotidiana da vida.

Aos sete anos de idade meus pais se separam, e como já é bastante conhecido no meio das famílias humildes, à tendência é de fragmentação e miserabilidade; mas para que isto não acontecesse conosco, comecei a encarar o trabalho ainda criança, indo para as ruas vender amendoins torrado, pinhão, engraxar sapatos, armar palitos de jogos de bolão, e efetuar todo tipo de trabalho que era possível para se ganhar dinheiro honestamente, para que no outro dia eu e minha família tivéssemos realmente o que comer.

        Ainda hoje eu me recordo daquelas crianças brincando de bola naqueles saudosos parquinhos naturais com aqueles campinhos de bola espalhados pela cidade afora que hoje você não costuma ver mais por ai; campinhos estes, que também eram freqüentados por quase todos os pais daquela garotada, a fim de baterem uma bola juntos, passarem o tempo, e assisti-los na educação.

Eu também freqüentava estes lugares, não para jogar bola ou brincar, mas na esperança de que alguns daqueles pais comprassem meus amendoins torrados.

 Recordo que muitas vezes aqueles pais, me oportunizaram um sorriso de felicidade, pois me chamavam para comprar meus amendoins para darem aos seus filhos por merecimento de alguma grande jogada ou lance bonito ou até mesmo pela vitória da partida; no entanto, para mim aquele gesto paterno, era uma forma de ajuda indescritível, pois ali, eu vencia parte das minhas necessidades como barreiras econômicas e pessoais.

Como todo esforço na vida denota um pré-nome “torradinho” era a palavra chave dos amendoins torrados e vendidos por mim.

        Quando completei meus oito anos de idade, já era um guri esperto, embora ainda criança, mas cuidadoso dos princípios e dos bons costumes de uma vida libada na educação e no ensinamento. 

        Lembro-me muitíssimo bem, da então ditadura militar que se espalhara rapidamente no país afora, era como uma febre verde-oliva derramada sobre o torrão brasileiro, por onde um rebuliço sem igual acontecia nos grandes centros do país afora, e também, na minha pacata ilha portuária, que muito embora pequena, mas de grandeza sem igual, justamente por ser tratar de uma coluna internacional no comércio exterior do cenário brasileiro.

Lembro-me muito bem, que aqui todos os Sindicatos, foram invadidos pelos militares das forças armadas, homens de buenas verdes, quepes azuis e caxangá brancos que apareciam de todos os cantos e de todas as partes do Brasil; eles se faziam presentes nas áreas de trabalho, nas áreas sociais, inclusive esportivas.

Nesta época, embora ainda criança, eu já freqüentava a UNE União Nacional dos Estudantes, que ficava a beira-mar, lá no centro da cidade; lá eu ia e freqüentava as reuniões estudantis que serviam como debates dos últimos acontecimentos que se passava no país, e também, para assistir televisão porque na minha casa nós não tínhamos TV.

Nesta época eu também já freqüentava o porto público, que ainda hoje é o nosso portal comercial Francisquense, eu até adentrava aos navios lá atracados para vender torradinho aos estivadores, aos tripulantes e passageiros nacionais e estrangeiros; foi ali que eu me interessei a apreender a falar inglês, e que me despertou o interesse de manusear aqueles guinchos que efetuavam a carga e descarga dos navios.

 Lembro-me que naquela época, as cargas típicas movimentadas em nosso porto eram justamente importação de sacas de cimento, vindo de portos europeus, e exportada madeiras de Imbuia e Pinho; também lembro que os guinchos daqueles navios eram quase todos a vapor, muito complicado para operá-los, porém, possível quando se quer apreender, até porque na vida tudo é questão de vontade e aprendizagem para se adquirir prática; e isto sempre foi uma das minhas virtudes, pois ainda carrego aceso na minha recordação a chama de todos estes fatos e ocorrências daquela e das demais aprendizagens, pois, eu ficava horas e horas ali parado observando todo aquele manuseio do estivador guincheiro, que em obediência ao portoló do navio lhe dando instruções de movimentos rápidos e lentos como para cima, para baixo, para os lados e para frenagem do equipamento, cumpria fielmente para com a subida e ou descida da carga dentro do porão ou dentro da caçamba do caminhão que ficava no costado do navio, uma verdadeira organização na operação, com união, com padronização, sincronia e muita responsabilidade.

 E a ditadura continuava ai, se alastrando pelo Brasil afora pelo poder da força militar; e a pobreza também ai na obediência do regime e no silencio da fome; sem contar que além de amargar com o desrespeito pelo toque de recolher ignóbil adotado pelo regime, tinha que dar satisfação alheia a sua vontade mesmo quando vinha do trabalho, um abuso de poder sem igual que não amenizava em nada a revolta social, só fazia aumentar a militância dos fracassados no país.

Já com 11 de idade, comecei a enfrentar o trabalho árduo dos adultos, comecei fazendo limpeza em porões de navios que após a descarga de trigo, cimento ou carvão, tinha que fazer a limpeza para que pudessem carregar outro tipo de mercadoria.

Como as maiorias dos porões de navios daquela época tinham o fundo de seus porões cobertos por madeira, necessitavam desta limpeza de cavernas e das muras, pois ali se alojava muita sujeira e umidade, e tinha que ser tirada senão apodrecia e não daria para que outra carga pudesse ser carregada e ou transportada à posterior, isto inclusive, é obrigatório no comércio marítimo internacional.

 Foi nesta época que descobri que as maiorias dos profissionais que exerciam a função de estivador, não sabiam manusear aqueles aparelhos, eles tinham medo de manusear aqueles guinchos, pois realmente eram complicados, foi então que eu apreendi a manuseá-los, tanto os a vapores como os elétricos, e hidráulicos, bem como, os navios com aparelhagem de guindastes; esta aprendizagem só me foi possível porque a principio serviu como experiência na retirada de lixo da limpeza dos porões, que eram colocadas em tinas, para posterior descarga em terra ou encima de caçambas.

Com 12 anos de idade embora ainda vendendo amendoins torradinhos, eu também já trabalhava mesmo que ilegalmente de avulso na estiva, lá eu efetuava a operação de guindasteiro na descarga de carvão, de cimento, de trigo importado de portos oriundo de países da Europa e da América Latina como a Argentina etc., como eu já dominava bem os controles de guinchos a vapor, elétricos e hidráulicos, assumi então a responsabilidade de também efetuar o carregamento de madeira nas embarcações que adentravam ao porto só para carregarem madeira.

A maioria daqueles estivadores não sabia de fato, operar os guinchos e tinham receio de mexer naquela geringonça, foi quando ganhei amigos no meio daqueles senhores estivadores que serviam de pai-avô pra mim, pois já estavam em idade avançada perto de se aposentarem.

Ainda lembro-me muitíssimo bem daquele dia 13 de dezembro de 1968 quando foi decretado o AI-5, Ato Institucional nº 5, que abusou por completo da nossa liberdade criando o toque de recolher, impedindo todos, inclusive eu, uma criança em fase de adolescência, de caminhar fora de hora mesmo trabalhando para ter o que comer no outro dia, um verdadeiro descaso para com a nossa sociedade que sempre foi punida aleatoriamente.

Pois é, meus amigos, eu já provava do amargo político deste país pelo descaso social desde a minha infância.

 Eu trabalhava sim, para ajudar a minha família, coisa de um administrador familiar atípico, ao contrário da nefasta ordem de um país tupiniquim que ainda continua a não fazer absolutamente nada pelo seu povo, que carece de uma política justa e ordeira a fim de amenizar o problema da sociedade que precisa especialmente de educação para a evolução e modernização do seu povo.

O que mais me entristece ainda hoje é o descaso pelos meus direitos;
1º pela minha lembrança avivada com revolta por não ter a liberdade infantil, porque o país não deteve uma política social, para amenizar as carências financeiras das famílias;

 2º pela falta de Liberdade juvenil, aplicada por um Regime Ditatorial que privava o direito de ir e vir, principalmente no meu caso que era para buscar uma fonte de recurso familiar dentro do mais singelo direito de um homem “o trabalho”; e ter que me esconder de pessoas fardadas por algo ou coisa de que você não fez ou praticou; daquele corre-corre repugnante diário para satisfazer uma obediência regimental desgraçada e revoltante que privava você de alcançar o bem mais precioso do ser humano, o trabalho; inclusive com ameaças repugnante de prisão.

É publico e notório que naquele tempo eu nem compreendia direito tudo aquilo que estava acontecendo comigo, eu realmente ficava com medo, pois, sendo ainda uma criança a caminho da adolescência não tinha noção do que era baderna política, muito menos Revolução.

Eu saia para as ruas porque tinha que correr atrás do meu ganha-pão honestamente, trabalhando como vendedor de amendoins torrado para ajudar a criar meus irmãos e ver minha família a ter o que comer no outro dia.

Só o fato de eu ter sido repelido com freqüência pelos militares das forças armadas, e pela policia militar da época, de que se eu fosse visto fora do horário estabelecido pelo regime, que eu seria algemado e preso e posteriormente levado pra ilha; sei lá que ilha era esta! Só sei hoje, que fui severamente repugnado dos meus direitos, e tudo isto é arbitrariedade no direito individual, até porque, sei que neste ato se caracteriza terror repugnante! Isto acontecia quando eles me encontravam nas ruas antes do toque de recolher evidentemente, porque durante os horários do toque de recolher eu muitas das vezes estava trabalhando dentro de algum navio, e ou mesmo vendendo amendoim torradinho, sendo que não saia de bordo para vir até minha casa comer porque eu não era maior de idade e não tinha documento para provar que estava trabalhando até porque para você ser um estivador tinha que ter 21 anos e um dia, do contrario você não podia trabalhar.

 Muito me escondi por diversas vezes debaixo de carros antigos, de caminhões, atrás de escombros de casas velhas, correndo dos militares e da policia que ajudava a nos perseguir.

O negocio deles, era por as pessoas na prisão mesmo que fosse jovem, no meu caso ainda uma criança! E tudo por algo que você não fez não praticou e nem sabia do por que de tudo aquilo! Esta atitude por si só, se caracteriza como tortura e trauma militar! É o mesmo trauma que sofreram aqueles cidadãos que foram presos e ofendidos durante o regime.

Eu me sinto ainda hoje humilhado por ter sido repelido no meu direito de ir e vir, principalmente por não ter tido o poder de ganhar honestamente o meu pão de cada dia, justamente nos horários proibidos, porque a nação nunca cumpriu o seu dever na educação moral e cívica.

 Eram justamente nestes horários, que havia comes e bebes após os jogos dos militares.

 Digo isto porque quando um dia eu furei a barreira do toque de recolher e consegui chegar à mesa de um General rodeado de Comandantes e Tenentes aqui no Clube Náutico Cruzeiro do Sul, consegui vender todos os meus amendoins para ele, sem ser repelido ou ameaçado por eles ou pelos que faziam guarda para eles, porque ali se fazia presente jornalistas bajuladores que eram convidados, mas eram jornalistas. 

A nação Brasileira me deve o direito de eu cobrar por estes danos causados pela tortura militar emocional, pela tortura do meu direito de ir e vir e principalmente, pela minha infância e adolescência perdida na angustia da liberdade!

O país me deve o respeito, porque não me deu o direito da educação, porque não me deu garantia de liberdade; porque não me deu o direito da proteção; eu fui ferido em todos os meus direitos, fui impedido aleatoriamente do meu progresso. Portanto, hoje eu quero justiça e reparação destes danos. 

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