Goiânia, dezembro/2010.
Anestor Porfírio da Silva
Era outono do ano de l995, dezessete horas e trinta minutos de um dia de sábado. Aquela data e hora estavam marcadas para celebração da cerimônia de casamento de um amigo meu numa cidadezinha do interior de Goiás. Momentos antes, a Igreja já se encontrava repleta de convidados, todos bem vestidos e aguardando com ansiedade o início da cerimônia. Depois de meia hora de atraso, eis que surge a noiva à porta da igreja onde permaneceu por alguns instantes antes de adentrar o templo. Como manda a tradição, estava ela vestida de branco, usando véu e grinalda, enquanto o seu futuro esposo a esperava ante o altar. Os dois, bastante jovens, não eram de famílias ricas. Aparentemente tensos, mas entre sorrisos, buscavam transmitir aos presentes a satisfação que simultaneamente sentiam por estarem prestes a realizar o sonho, que há tempos alimentavam, de um dia se casarem. Muitos eram os convidados e, entre eles estava Ruth, a mulher, que pela exagerada preocupação em merecer a atenção de todos, havia se tornado o símbolo da vaidade naquele lugar e foi lá que eu a vi pela primeira vez.
Na continuidade dos anos que sucederam aquele dia, minha mente se fez povoada das lembranças de outros fatos também não menos importantes e, mesmo assim, não me esqueci das cenas que meus olhos testemunharam no transcorrer daquela celebração religiosa, vez que, além de convidado, lá eu me fazia presente porque era fotógrafo e fora incumbido de registrar todos os momentos daquele cerimonial.
Lembro-me, que enquanto o ato não se iniciava, fiquei à procura de um lugar dentro da igreja, que me desse condições para também começar o meu trabalho. Enfim, acabei me posicionando ao lado de algumas mulheres que se encontravam ocupando os últimos assentos do lado esquerdo de um dos bancos mais próximos do altar. Em um dos ângulos escolhidos, quando eu já me preparava para dar início ao meu trabalho, senti que alguém tocava em meu braço como se quisesse dizer-me alguma coisa.
Atendo-me àquele toque sutil que mais parecia um chamado, volvi o rosto para trás a fim de certificar se alguém realmente me chamava. Eis que, inesperadamente, deparei-me com Ruth. Foi quando algo me chamou a atenção naquela mulher, que até então não me era conhecida. Observei-a por um instante. Sua fisionomia, imaginei, dava-lhe uns cinqüenta anos de idade. De estatura mediana, tinha um corpo perfeito e seu rosto, com delicados traços esculturais deixaram-me convicto de que Ruth teria sido no passado uma mulher de singular formosura e que mesmo com o passar dos anos boa parte de sua beleza angelical não havia desaparecido. Seu rosto e seu corpo ainda eram atraentes. Fiquei a admirá-la por alguns instantes e logo lhe perguntei:
-Quer falar-me?
Ao que me respondeu:
-Sim! É meu desejo ser fotografada ao lado dos noivos. É possível?
Concordando em satisfazê-la no que era de seu desejo eu lhe disse:
-Por gentileza, vá com o seu par para o lado de lá, pois assim que terminar a cerimônia estarei começando uma série de fotos dos noivos com os seus convidados.
Ela se explicou:
-Não estou acompanhada. Sou solteira!
Desculpei-me e, momentaneamente, não compreendi por que uma mulher, que na mocidade fora sem dúvida tão bela, pudesse chegar aos cinqüenta anos de idade vivendo só, como ela própria me revelou minutos depois. Quem a observava logo percebia tratar-se de mulher que, mesmo com tanto fascínio, ainda buscava através de excessiva vaidade ficar mais bela ou então estaria deixando que os seus desejos, simplesmente, extravasassem daquela forma na ânsia de recuperar a parte da beleza que os anos nitidamente já lhe haviam tirado.
Expunha com muito orgulho através das mãos, orelhas e pescoço, todas as jóias que possuía, o que a deixava com um visual diferente e sobre o que meu olhar, surpreso, se prendia.
Naquele instante, alguém por perto, percebendo o meu espanto ante a beleza que ainda ostentava aquela mulher, aproximou-se mais de mim e murmurou aos meus ouvidos:
- Não se surpreenda tanto! Ela é o símbolo da vaidade neste lugar. Além de permanecer produzida o tempo todo, ou seja, de segunda a segunda, dizem por aí que ela já se submeteu a várias cirurgias corretivas. Mexeu no rosto, na barriga, no bumbum etc.. Agora, se você me perguntar se é verdade o que estou lhe dizendo, eu responderei: não tenho provas, por isso não sou testemunha de nada. Certo?
Ruth trajava um vestido novinho, estampado, com um enorme decote, mandado confeccionar com todo capricho exclusivamente para aquele momento. Não era por assim dizer uma mulher culta, mas vaidosa além da conta, talvez por já não compreender que ainda era dona de razoável beleza. O que mais satisfazia o seu ego era produzir-se para ser observada e, por isso mesmo, usava dos recursos da vaidade para ser alvo de “admiração” das pessoas à sua volta, especialmente dos homens, pois mesmo depois de tantos anos vivendo só, ainda alimentava esperanças de, mais cedo ou mais tarde, encontrar o seu príncipe encantado.
Naquele dia talvez sem querer, mas por conta de excessiva vaidade, Ruth foi ao ridículo. O enorme e escandaloso decote do seu vestido deixara exposta a metade de dois grandes seios que há anos atrás foram durinhos e empinados (agora flácidos, murchos e decaídos) para os quais olhavam os presentes, com ares de censura. Ruth teria sido insensata e despudorada ao se apresentar trajada da forma como se encontrava ou, simplesmente, estaria com vis propósitos naquela hora, contrariando os costumes, não sei. Nos lábios, um batom bem vermelho em harmonia com o esmalte das unhas. Os cabelos, tingidos de preto, lisos e longos espalhavam-se sobre seus ombros. Naquele momento, era ela quem mais se esbaldava. Com tantos olhares em sua direção, tinha o fundo dos seus mais nobres sentimentos alimentado pela falsa ilusão de que se encontrava ainda mais fascinante do que se estivesse se apresentando ao seu natural. Na verdade, o que nela estava a chamar a atenção era aquela parte dos seios que o desalinhado decote de suas vestes não conseguia encobrir.
Quando a cerimônia terminou todos se dispersaram. Ruth também seguiu seu rumo e eu nunca mais a vi.
Depois de vários anos, voltei àquele lugar para rever o meu amigo e saber como ele e a sua esposa se encontravam. Perguntei por Ruth, a mulher que era tida como símbolo da vaidade e fiquei sabendo que há tempos ela havia falecido desamparada e em completa solidão. Sua saúde fora afetada por uma moléstia que, aos poucos, tirou-lhe a vida, tendo findado seus dias depois de muita angústia e sofrimento. Lamentei por ela, por nunca ter aceitado a decadência de sua beleza e ainda ter que chegar ao final da vida, com metade do seu lindo rosto destruído por um agressivo câncer de pele, que surgiu supostamente em razão dos constantes e demorados banhos de sol a que ela se submeteu ininterruptamente, durante vários anos.
Como Ruth, sei que existe, mundo a fora, uma leva de incontáveis seres humanos que vagam por esta vida, carregados de vaidade. Por onde passam, mesmo que encontrem tudo em ordem e funcionando a contento, querem criar, modificar, ampliar, extinguir, substituir, alterar, enfim, usar de oportunidades, do posto ou do cargo em que se encontram, para deixarem a chancela de seus nomes como idealizadores ou autores de algum feito, unicamente para satisfação do incontrolável desejo de estarem sempre merecendo a atenção dos outros.
Não raramente esse tipo de pessoa é visto também dentro da Ordem a que pertenço, a maçonaria. Uns, com inegável e até invejável capacidade de trabalho. Outros, nem tanto assim. Porém, em qualquer das situações, quem age impulsionado pela vaidade nunca aceita dividir a autoria, nem o mérito daquilo que faz e, por isso mesmo, é também um egoísta por natureza. Toda pessoa vaidosa quando age rumo às criações e às mudanças, o faz não só com o desejo de realizar alguma coisa, mas essencialmente para, afinal de contas, ufanar-se em chamar a atenção dos outros, pouco importando se o que fez teria que ser realmente feito, se havia necessidade ou não, daí depreender-se que, o que leva uma pessoa vaidosa a agir não é o império da força de uma circunstância, mas a satisfação do seu próprio ego. Quem não sofre desse mal, cria, recria, modifica, altera, amplia, muda alguma coisa somente quando a necessidade for um imperativo. O vaidoso, ao contrário, age por vontade e, na maioria das vezes, sem que haja necessidade.
No seio da Ordem Maçônica, à qual pertenço há mais de vinte e cinco anos, frequentemente, são presenciados atos de certos irmãos, que agem movidos por aflorada vaidade e quando assim procedem não aceitam palpites nem sugestões de outros obreiros porque se julgam os únicos competentes. Só sentem satisfação pelo que fazem se ninguém mais puder aparecer como partícipe em suas realizações.
No âmbito do GOB, muitos dos atos que são baixados, especialmente, aqueles que alteram ou modificam aquilo que já existe, entram em vigor, desacompanhados de justificativas plausíveis, que deveriam ser dadas àqueles aos quais tais atos mais interessam e eles são os maçons que, agrupados em Lojas, constituem a base estrutural de sustentação da Instituição. Mas isso não ocorre.
Então, fica uma indagação: se os princípios e fundamentos da Ordem Maçônica são sempre os mesmos e nunca mudam, também as leis, regulamentos e rituais, obviamente, não deveriam mudar, mas mudam e com acentuada freqüência. Nesse caso, o que estaria levando nossos novos dirigentes, toda vez que são empossados, a acharem que o que encontram pela frente não está perfeito e precisa ser constantemente modificado? Esta pergunta está a merecer uma resposta esclarecedora.
Com a palavra, aqueles que dirigem a maçonaria. |