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Nailor
Marques Júnior
Diz
uma história que, numa cidade apareceu um circo, e que entre
seus artistas havia um palhaço com o poder de divertir, sem
medida, todas as pessoas da platéia e o riso era tão
bom, tão profundo e natural que se tornou terapêutico.
Todos os que padeciam de tristezas agudas ou crônicas eram
indicados pelo médico do lugar para que assistissem ao tal
artista que possuía o dom de eliminar angústia.
Um
dia, porém um morador desconhecido, tomado de profunda depressão,
procurou o doutor. O médico então, sem relutar, indicou
o circo como o lugar de cura de todos os males daquela natureza,
de abrandamento de todas as dores da alma, de iluminação
de todos os cantos escuros do nosso jeito perdido de ser. O homem
nada disse, levantou-se, caminhou em direção à
porta e quando já estava saindo, virou-se, olhou o médico
nos olhos e sentenciou: "não posso procurar o circo...
aí está o meu problema: eu sou o palhaço".
Como
professor vejo que, às vezes, sou esse palhaço, alguém
que trabalhou para construir os outros e não vê resultado
muito claro daquilo que faz.
Tenho
a impressão que ensino no vazio (e sei que não estou
só nesse sentimento) porque depois de formados meus ex-alunos
parecem que se acostumam rapidamente com aquele mundo de iniqüidades
que combatíamos juntos. Parece que quando meus meninos(as)
caem no mercado de trabalho a única coisa que passa a ter
valor é quanto cada um vai lucrar, não importando
quem vai pagar essa conta e nem se alguém vai ser lesado
nesse processo. Aprenderam rindo, mas não querem passar o
riso à frente e nem se comovem com o choro alheio.
Digo
isso, até em tom de desabafo, porque vejo que cada dia mais
meus alunos se gabam de desonestidades. Os que passam os outros
para trás são heróis e os que protestam são
otários, idiotas ou excluídos, é uma total
inversão dos valores. Vejo que, alguns professores partilham
das mesmas idéias, as defendem, em sala de aula, na sala
de professores e se vangloriam disso.
Essa idéia vem me assustando cada vez mais, desde que repreendi,
numa conversa com alunos, o comportamento do cantor Zeca Pagodinho,
no episódio da guerra das cervejas e quase todos disseram
que o cantor estava certo, "tontos foram os que confiaram nele".
"O importante, professor, é que o cara embolsou milhões",
disse-me um; outro: "daqui a pouco ninguém lembra mais,
no Brasil, é assim, e ele vai continuar sendo o Zeca, só
que um pouco mais rico", todos se entreolharam e riram, só
eu, bobo que sou, fiquei sem graça.
O pior é quando a gente se dá conta que no Brasil
é assim mesmo, o que vale é a lei de Gérson:
"o importante é levar vantagem em tudo". (Lei de
Gérson...dá para rir...)
A pergunta é: É possível, pela lógica,
que todo mundo ganhe? Para alguém ganhar é óbvio
que alguém tem de perder.
A lógica é guardar o troco a mais, recebido, no caixa
do supermercado; é enrolar a aula fingindo que a matéria
está sendo dada; é fingir que a apostila está
aberta, na matéria dada, mas usá-la como apoio, enquanto
se joga forca, batalha naval ou jogo da velha; é cortar a
fila do cinema ou da entrada do show; é dizer que leu o livro,
quando ficou só, no resumo ou, na conversa, com quem leu;
é marcar só o gabarito, na prova, em branco, copiado
do vizinho, alegando que, fez as contas de cabeça; é
comprar na feira, uma dúzia de quinze laranjas; é
bater num carro parado e sair rápido, antes que alguém
perceba; é brigar, para baixar o preço mínimo
das refeições, nos restaurantes universitários,
para sobrar mais dinheiro, para a cerveja da tarde; é arrancar
as páginas ou escrever nos livros das bibliotecas públicas;
é arrancar placas de trânsito e colocá-las de
enfeite, no quarto; é trocar o voto por empregos, pares de
sapato ou cestas básicas; é fraudar propaganda política
mostrando realizações que nunca foram feitas.
É
a lógica da perpetuação da burrice. Quando
um país perde, todo mundo perde. E não adianta pensar
que logo bateremos no fundo do poço, porque o poço
não tem fundo.
Parafraseando
Schopenhauer: "Não há nada tão desgraçado,
na vida da gente que ainda não possa ficar pior". Se
os desonestos brasileiros voassem, nós nunca veríamos
o sol.
Felizmente,
há os descontentes, os lutadores, os sonhadores, os que querem
manter o sol aceso, brilhando e no alto.
A luz é e, sempre foi, a metáfora da inteligência.
No entanto, de nada adianta o conhecimento sem o caráter.
Que, nas escolas seja tão importante ensinar Literatura,
Matemática ou História, quanto decência, senso
de coletividade, coleguismo e respeito, por si e pelos outros.
Acho
que o mundo (e, sobretudo, o Brasil) precisa mais de gente honesta
do que de literatos, historiadores ou matemáticos. Ou o Brasil
encontra e defende esses valores e abomina Zecas, Gérsons,
Dirceus, Dudas e todos os marketeiros que chamam desonestidades
flagrantes, de espertezas técnicas, ou o Brasil passa de
país do futuro para país do só furo.
De
um Presidente da República espera-se mais do que choro e
condecoração a garis honestos, espera-se honestidade,
em forma de trabalho e transparência.
De
professores, espera-se mais que discurso de bons modos, espera-se
que mereçam o salário que ganham (pouco ou muito)
agindo como quem é honesto.
A honestidade não precisa de propaganda, nem de homenagens,
precisa de exemplos.
Quem plantar joio, jamais colherá trigo.
Quando
reflexões assim, são feitas cada um de nós
se sente o palhaço perdido, no palco das ilusões.
A gente se sente vendendo o que não pode viver, não
porque não mereça, mas porque não há
ambiente para isso.
Quando
seria de se esperar uma vaia coletiva pelo tombo, pelo golpe dado
na decência, na coerência, na credibilidade, no senso
de respeito, vemos a população em coro delirante gritando
"bis" e, como todos sabemos, um bis não se despreza.
Então, uma pirueta, duas piruetas, bravo ! bravo ! E vamos
todos rindo e afinando o coro do "se eu livrar a minha cara
o resto que se dane".
Enquanto
isso o Brasil de irmã Dulce, de Manuel Bandeira, do Betinho,
de Clarice Lispector, de Chiquinha Gonzaga e de muitos outros heróis
anônimos que diminuíram a dor desse país com
a sua obra, levanta-se, caminha em silêncio até a porta,
vira-se e diz:- "Esse é o problema... eu sou o palhaço".
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