|
Prof
Dr Luis Milman
Edição
271 de 6/4/2004
www.observatoriodaimprensa.com.br
Há três semanas, o ministro da Casa
Civil, José Dirceu, deixou sua encabulada reclusão
para tentar reassumir a posição de pró-homem
da República e saiu disparando farpas contra tudo e todos.
Não especificou alvos, mesmo que tenha recheado suas declarações
com ameaças indiretas aos adversários de sempre (a
oposição política e, ao que tudo indica, a
imprensa). Algumas preciosidades no nosso Armand-Jean du Plessis
(o conde e cardeal Richelieu), entre outras, merecem menção:
"Estão namorando com o perigo" e "querem desestabilizar
nosso governo".
Farpas e ameaças não são novidade na história
do PT. No Rio Grande do Sul, à época do governador
Olívio Dutra (1999-2002), a retórica diversionista
ameaçadora, além da perseguição a jornalistas,
era usual. O governo Dutra mereceu dois registros internacionais
por adotar tais expedientes: no Informe 2002/Reporteros sin Fronteras,
p. 25, e no Informe 2002/Ataques a La Prensa, de Periodistas - Associación
para la defensa del periodismo independente (Buenos Aires), nas
páginas 164-5, que relatam dois fatos destacados: os jornalistas
Nilson Mariano e Altair Nobre, de Zero Hora, foram pressionados
a revelar suas fontes por delegados do gabinete do chefe de polícia,
depois de publicarem matéria, em 10 de fevereiro de 2001,
sobre denúncia de corrupção envolvendo o então
corregedor da Polícia Civil. Na época, o chefe de
gabinete da chefia de polícia, delegado Carlos Santana, afirmou,
referindo-se aos jornalistas: "Ao ocultarem uma informação
que é juridicamente importante para nós pode ser que
tenham cometido falso testemunho. Nesse caso, calar a verdade, pois
sabem quem entregou o documento".
Nas páginas 185-6, o Informe 2002/Ataques a la Prensa trata
de matéria sobre as relações do governo Dutra
com operadores da jogatina, caso semelhante ao que waldomirizou
a política brasileira. Publicada na revista IstoÉ,
em 17 de maio de 2001, a matéria "Aposta dobrada"
foi alvo de tentativa de censura do governo Dutra, por meio da assessora
de imprensa do governador, Denise Mantovani. A tentativa fracassou
e a reportagem foi publicada quando a CPI da Assembléia Legislativa
revelou as hoje famosas conversas de Diógenes de Oliveira
- um dos homens-chave da arrecadação de recursos para
a campanha de Olívio - com o chefe de polícia, Luiz
Fernando Tubino. Depois de sua publicação, a reportagem
deu origem a uma sucessão de versões governistas aparvalhadas,
pseudodesmentidos e bravatas, comandados pelo chefe da assessoria
de imprensa do governo, Guaracy Cunha. Pelas violências que
cometeu, foi, assim como Denise Mantovani, condenado pela Comissão
de Ética do Sindicato dos Jornalistas do RS. A jornalista,
hoje, trabalha com Luiz Gushiken, na Secretaria de
Comunicação do Planalto.
Reação ao estilo "contra tudo e todos" (imprensa,
Congresso e Ministério Público) também ocorreu
quando os quadros hoje no poder em Brasília saíram
em defesa da intangibilidade do partido depois do assassinato do
prefeito Celso Daniel, de Santo André, em 2002. O assassinato
foi encomendado pelo principal assessor do prefeito e a ele se seguiram
mais sete mortes ainda não esclarecidas, de envolvidos com
o assessor. Lembro-me até de marcha petista organizada em
Santo André para fazer frente à sanha difamatória
que se lançava contra a incólume legenda. José
Dirceu participou. Pensou-se em marcha semelhante, no Waldomirogate,
de desagravo a José Dirceu, mas o PT recuou. Sinal dos tempos.
Tais reações ocorrem quando se denuncia a ligação
do PT com atividades clandestinas. Nos casos do governo Dutra no
RS e do super-ministro Dirceu - e de seu ex-assessor de ex-extrema
confiança -, elas têm origem nas relações
entre a jogatina e o financiamento de campanhas petistas. Dirceu
permanece no Ministério Lula, agora sem os poderes dos quais
dispunha antes do escândalo. Foi abafado. Segundo as reiteradas
declarações do economista César Benjamin, seu
ex-correligionário, Dirceu introduziu o pragmatismo de resultados
eleitorais no PT pelos idos de 1995. Já o estilo de contra-atacar
segue o manual do abafa, da bravata e da demagogia improvisada.
Corruptos, mal-intencionados, conspiradores. São estes que
denunciam, mesmo quando apresentam as vozes gravadas de um Diógenes
ou de um Waldomiro como prova.
No dia 30 de março passado, a base governista revelou que
a conspiração, que sempre ronda a catedral petista,
tinha um comandante: José Roberto Santoro, subprocurador
geral da República, que tentou obter as fitas originais das
conversas de Carlos Cachoeira com o corruptólogo Waldomiro.
Santoro estava convencendo Cachoeira, que domina a Loteria do RS
desde a época do governo Dutra, a entregar as fitas originais;
em troca, oferecia a "Waterfall" a condição
de réu-colaborador no processo, coisa que, aliás,
promotores fazem de hábito em suas investigações.
Isto não é crime. Pelo menos não era. No Rio
Grande, até 2002, era constante entre representantes do Ministério
Público Estadual, que formavam na Força-Tarefa contra
o Crime Organizado, criada por Olívio Dutra. Mas a ação
de Santoro tem fumaça de conspiração, sob a
ótica da catedral. O subprocurador está sob suspeita.
E o escândalo Waldomiro? Vai se abafando, colocado no rol
das manobras que visam desestabilizar o governo Lula.
A luz se esvai
No Rio Grande, denúncias contra o governo eram ligadas mecanicamente
a uma aliança da "mídia brittista com a banda
podre da polícia". Os sebastianistas instalados no Piratini
a faziam reverberar pelas ruas, e a força-tarefa investigava
as forças do mal, sem dar bola a horários de expediente.
A força-tarefa de Olívio parecia mais a turma do filme
Caça- fantasmas, e o resultado de seus apurados métodos
de investigação ninguém conhece até
agora.
Dutra, apesar da pose de maragato inconformado, quis mesmo legalizar
a jogatina proibida na base do decreto, esquecendo-se de que seu
governo deveria cumprir as leis da República. Tudo sob o
manto protetor da unidimensional ética petista. O tempo passou,
Dutra foi indiciado por prevaricação pelo MP Federal
e terminou ministro das Cidades. Lá, a pedido do então
engavetador-geral da República, Geraldo Brindeiro, seu processo
foi arquivado no STF. Depois Waldomiro apareceu, para não
falar do filho do governador Brizola, e alguns esqueletos mal-acomodados
saltaram de certos armários.
Fatos podem ser abafados, mas não podem ser desfeitos. E
são fatos que a Casa Civil tinha Waldomiro Diniz como assessor
no Congresso; que a especialidade de Waldomiro era conectar a administração
com a clandestinidade e que José Dirceu fora alertado de
suas transações no Rio de Janeiro, onde Waldomiro
presidira a Loterj. Como o Planalto atropelou, sob a batuta do presidente
do Senado, a CPI que poderia investigar os fatos, as relações
de Diniz com Dirceu e o nível de compromisso do próprio
Planalto com a antes prevista e anunciada legalização
da jogatina, o Compresso está impedido de agir. E, sem CPI,
o bravatismo e o conspiracionismo produzem suspeitos de sombrias
maquinações contra o governo Lula.
Maquinações que já justificaram, inclusive,
agendas positivas embaladas por propaganda orçada em R$ 8
milhões. A primeira peça de embalo produzida pela
agência de Duda Mendonça (o marqueteiro de Lula) foi
paga à Resolution, uma empresa subcontratada pelo mago do
transformismo político. Exibida no dia 29 de março,
foi retirada do ar por problemas de veracidade, depois de matéria
elucidativa publicada na Folha de S.Paulo no dia seguinte.
A imprensa é importante, não há dúvida.
Mas é o Supremo que vai esclarecer se a Constituição
prevê CPI só de brincadeirinha, como o ilustre e imortal
Sarney pensa. Se decidir que o instituto da CPI existe para ser
instalado, atendidas as exigências de lei, há uma luz
democrática no fim do túnel das agendas positivas
encomendadas ao mago Duda. Entretanto, se o STF extinguir, como
quer o PT, o instrumento de investigação parlamentar
criado pela primeira vez na República de Weimar e consagrado,
entre outras, na nossa Constituição, a luz se esvai
e a democracia brasileira, que já não é lá
essa transparência, vira, no máximo, enredo para comercial
de cerveja. Um caso para o Zeca Pagodinho.
Mais dúvidas
Sem CPI, lemos os jornais e esperamos. Os eleitores de Lula, em
especial, querem saber detalhes de algumas coisas que a imprensa
noticiou e que, até agora, só quem sabe são
alguns seletos freqüentadores da catedral, ou melhor, do Palácio
do Planalto.
Algumas delas:
1) Como e por que, depois de trabalhar como alto executivo da Gtech
(entre 2000 e novembro de 2002), o senhor Graciano dos Santos Neto
terminou nomeado presidente da Cobra Tecnologia (controlada pelo
Banco do Brasil;
2) Qual a razão para o senhor Antônio Carlos Lino Rocha,
outro ex-alto executivo da Gtech, que negociou com Waldomiro Diniz
em 2003, ter sido demitido pela mesma Gtech e nomeado representante
de uma tal Polcard no Brasil, uma operadora de cartões de
crédito sediada na Polônia, que pertence (surpresa)
à Gtech;
3) A Caixa Econômica Federal sabia, desde setembro de 2002
que, ao fim do contrato da Gtech, outra gigante do mercado de jogos,
a Lotex, com sede na Espanha e nos EUA, associada da Motorolla (EUA)
e da Lotomatica (Itália), entraria na licitação
para operar, gerenciar e explorar os jogos da CEF? A propósito:
a Lotex e sua proposta, apresentada à CEF, em setembro de
2002, nada têm a ver com a BET Company, associada de "Charles
Waterfall".
Como não houve licitação, a Lotex está
esperando, como se diz, a banda do Waldomiro passar. Motivos técnicos
fizeram com que o contrato com a Gtech fosse prorrogado no governo
Lula por 25 meses. Motivos nada convincentes para o Ministério
Público Federal, que denunciou a cúpula da CEF por
gestão fraudulenta e temerária, concussão,
corrupção ativa e passiva.
Os executivos denunciados não gostaram. Terão oportunidade
de se defender no processo, mas não perderam o hábito
da catedral. Em nota oficial, espernearam e lançaram suspeitas
sobre a ação do MP Federal. Dizem os executivos da
CEF que, de lá, ninguém os tira. Leitura complementar:
de lá não serão tirados. Afinal, o que representa
uma estranha (segundo a nota) denúncia do MP Federal sobre
corrupção e outros crimezinhos? Da mesma forma, o
que representa a ação de um mero corruptólogo
que trabalhava no Planalto, para a imagem da catedral? Waldomiro
nem filiado ao partido era.
Mais dúvidas: o ministro da Fazenda, Palocci Filho, sustentáculo
do gradualismo monetarista, teve lá seu assessor incapaz
de distinguir entre coisas públicas e privadas. Era o ex-seminarista
Rogério Tadeu Buratti, que reapareceu agora, denunciado pelo
"suspeito" MP Federal, juntamente com a cúpula
da CEF. O ex-executivo da Gtech Antônio Lino Rocha disse que
Buratti tentou propino-intermediar a renovação do
contrato da multinacional com a CEF, por indicação
de Waldomiro. Ele deixou a função de secretário
de Governo do então prefeito de Ribeirão Preto devido
a denúncias de favorecimento de empreiteiras. Grave? Nem
tanto. Depois de afastado de Ribeirão, fez carreira e muito
dinheiro, como sócio de empreiteiras e consultorias, contratadas
por outras prefeituras petistas. E reaparece nessa confusão
da jogatina com a CEF.
É preciso orar
Buratti tem relações com Ralf Barquete Santos, assessor
especial da CEF (de novo!) para recursos humanos desde fevereiro
de 2003 (início do governo Lula). Ambos, segundo a Folha
de S.Paulo (21/3/2004), trabalharam juntos na Prefeitura de Matão,
entre 1996 e 2000; ambos foram secretários de Palocci na
prefeitura de Ribeirão. Barquete, entre 2001 e 2002, foi
secretário da Fazenda de Palocci; e ambos são ligados
ao grupo Leão Leão, maior doador de dinheiro para
a reeleição de Palocci, em 2002.
Seria suficiente parar por aqui, mas não dá. O governo
Lula está precisado com urgência de um descarrego.
Seus descuidos são muitos. A imprensa ainda não se
deu conta de que o atual ministro da Educação, Tarso
Genro, por exemplo, não fez sua brilhante carreira apenas
na política. Tarso é um excelente advogado e era sócio
de um grande escritório de advocacia no RS, especializado
em direito trabalhista e administrativo. O escritório patrocina
dezenas de causas contra universidades federais, inclusive para
associações de docentes. É claro que o ministro
está licenciado da OAB e certamente desligou-se da sociedade
no escritório. Mas o escritório do qual se afastou
continua atuando fortemente e há muitos precatórios
de ações de docentes já transitadas em julgado,
favoráveis aos seus ex-clientes, atendidos atualmente pelos
seus ex-sócios, a serem pagos pelo governo do qual Tarso
Genro é ministro da Educação.
Circunstância política imprevista e o destino, talvez,
fizeram com que Lula nomeasse o competente e habilidoso cardeal
do PT gaúcho para o MEC, em substituição ao
dispensado by celular Cristovam Buarque, de quem, aliás,
Waldomiro também foi assessor. Mas o ministro Tarso poderia
relatar ao presidente sobre o seu ex-escritório, os ex-sócios
e as ações contra as instituições que
ainda apresentam seu nome como patrocinador. Para conferir basta
entrar no site do TRF da 4ª Região e, no espaço
de busca, digitar o número da inscrição da
OAB do ministro: RS005627. Talvez o ministro o tenha feito e o presidente,
por sua vez, tenha entendido o relato sobre os ex-negócios
de seu auxiliar sob uma perspectiva natural.
Problemas não faltam e nem sempre dá para colocar
a culpa na mídia. Nós, jornalistas, sabemos que fato
não se inventa. Com CPI, haveria condições
para conhecermos as razões de o presidente, antes do escândalo
Waldomiro, querer incluir no Orçamento da República
receita advinda da "regulamentação" dos
mesmos bingos que, depois do terremoto Waterfall, ele não
só proibiu por medida provisória, como chegou a comparar
à exploração da prostituição
infantil. Descontado o exagero, é certo que Lula mudou de
opinião em prazo recorde, pois fez constar suas intenções
de legalizar bingos na mensagem que enviou ao Congresso, no início
deste ano legislativo.
Que o PT nunca foi mesmo aquele que dizia ser não é
difícil concluir. Simples exercício de raciocínio
político escancara seu defeito ideológico principal:
o moralismo retórico, que é sempre autofágico.
A prova está aí, agora grudada na imperspicuidade
ideológica e administrativa. Sabemos hoje, mais do que em
qualquer outro tempo, que o PT não era bem o PT. Mas era
de se esperar que fosse menos descuidado no item "princípios",
porque assumiu o comando do país com uma grande esperança.
Como só se preocupou com o superávit primário,
relaxou de coisas importantes a um governo. Agora, não basta
mais só torcer para que Lula dê certo. Nem fazer passeata
de desagravo ou culpar a mídia. Como dizia Roberto Jeferson,
ex-líder da tropa de choque de Collor no Congresso e hoje
companheiro na catedral petista, é preciso orar.
|