|
Col
Anatoli
Oliynik
ROBERTO GAMA e SILVA *
Chegou-se
a imaginar que a passagem do bastão governamental fosse suficiente
para estancar a desnacionalização da economia brasileira,
quase consumada nos dois mandatos em que o sociólogo Fernando
Henrique Cardoso atuou como “Feitor” do Império.
Ledo engano!
O novo governo, contrariando a retórica do “Partido
dos Trabalhadores”, adotou rumo igual ao do anterior, uma
vez que até para decidir sobre a oportunidade de fazer o
país crescer implora a ajuda da chefia do “Império”.
E as coisas vão acontecendo...
Logo no primeiro semestre de 2003, por exemplo, os “oligarcas
de plantão” deixaram escapar oportunidade áurea
para fincar, com firmeza, a bandeira nacional no mastro da “Companhia
Vale do Rio Doce”, empresa vital para o Brasil, entre outras
razões por ser o “portal de acesso à Amazônia”.
Os governantes simplesmente assistiram, com indiferença,
a transferência das ações da “LILI RIVER”,
pertencentes ao “Bank of America”, para a japonesa “MITSUI”
que, desta forma, passou a deter 11,6% do controle da “VALEPAR”,
esta uma sociedade que possui 53,3% das ações com
direito a voto da “Jóia da Coroa”.
Note-se que, no conjunto das ações ordinárias
da “CVRD”, 26,5% aparecem sob a forma de “American
Depository Receipts”, sob a guarda do banco “Morgan
Trust”, e 2,5% pertencem a investidores institucionais estrangeiros.
Como a “Vale” ainda tem sócios estrangeiros em
suas filiais, a exemplo do que ocorre na “Mineração
Rio do Norte”, a incorporação da fatia da “LILI
RIVER” seria de grande valia para assegurar o comando nacional
em toda a linha da empresa.
Por que não agiram, mesmo sendo alertados?
Um pouco adiante, a “ELETROPAULO” foi mantida nas mãos
de uma empresa norte-americana, em estágio pré-falimentar,
pela absorção da metade do que devia ao “BNDES”,
todavia sob a forma de ações sem direito a voto. Indo
além, o credor da dívida, o próprio “BNDES”,
ainda parcelou generosamente a outra metade, quando poderia ter
absorvido a empresa de distribuição de energia, iniciando
a correção da entrega do patrimônio dos brasileiros
aos estrangeiros, crime de lesa pátria perpetrado pelos “neoliberais”.
Entrementes, o empobrecimento dos brasileiros, acentuado no ano
passsado, favoreceu a aquisição da indústria
de chocolates “GAROTO”, do Espírito Santo, pela
“NESTLÉ”, suíça de origem, com
o que foi extinta a presença nacional no setor.
Enquanto isso, o comércio varejista de alimentos foi sendo
absorvido, sutilmente, por empresas sediadas no exterior: o “GRUPO
CASINO”, francês, misturou-se com o “GRUPO PÃO
DE AÇUCAR”; o novo conglomerado, já despido
da camisa verde-amarela, avançou no “GRUPO SENDAS”
absorvendo-o e, ainda, a poderosa empresa “WALLMART”,
norte-americana, incorporou ao seu patrimônio o “GRUPO
BOMPREÇO”, de presença conspícua na região
nordeste.
Em futuro próximo, pois, o abastecimento de gêneros
alimentícios dos lares brasileiros ficará sob a responsabilidade
maior de três gigantes estrangeiros: “CARREFOUR”,
“CASINO” e “WALLMART”. Que bela dependência!
Como se não bastassem essas amarrações aos
de fora, eis que numa manobra cavilosa um grupo belga adquire, de
uma só tacada, duas marcas tradicionais do setor de refrigerantes
e cervejas, as afamadas “ANTÁRTICA” e “BRAHMA”.
Apesar das notícias divulgadas pelos “marqueteiros”,
de que o comando das duas empresas não seria alterado, a
verdade é que o capital da nova empresa controladora ficará
sob a tutela da “INTERBREW”, sediada na Bélgica,
que manterá em seu poder 75% das ações com
direito a voto.
Nesse caso específico, os atuais dirigentes do país
não devem ter sido surpreendidos, na medida em que um dos
responsáveis pela operação, o banqueiro Jorge
Paulo Lemann, é “companheiro” do atual Presidente
da República, tanto no “Partido dos Trabalhadores”
quanto na organização “globalizante” denominada
“INTERAMERICAN DIALOGUE”.
Daí a razão pela qual os chefes do novo conglomerado
foram recebidos, de pronto, no Palácio do Planalto, merecendo
até uma solicitação do próprio Presidente:
“levem o guaraná para a Europa”.
Como a produção e comercialização das
águas minerais já haviam sido “capturadas”
por grupos estrangeiros, pode-se afirmar agora que até ao
beber os brasileiros pagam “royalties” aos alienígenas!
Como atestado definitivo do descaso dos oligarcas em relação
ao domínio do compartimento econômico por estrangeiros,
pode-se apontar a decisão de manter a 6ª licitação
para registro de blocos potencialmente produtores de petróleo,
já anunciada pela “AGÊNCIA NACIONAL DE PETRÓLEO”.
A justificativa original para a “entrega” de áreas
de prospecção às empresas privadas, inclusive
grupos transnacionais, foi a de abreviar a conquista da auto-suficiência
na produção dos hidrocarbonetos.
Agora, quando já é sabido que as reservas comprovadas,
em poder da “PETROBRÁS”, são capazes de
assegurar a auto-suficiência a curto prazo, altera-se a justificativa
para anunciar que a nova rodada de licitações tem
como escopo aumentar as reservas, de modo a garantir que a exaustão
demore uns 18 anos, ao invés dos 10 anos já confirmados.
Ora, no horizonte de uma década a “PETROBRÁS”,
com certeza, disporá de tempo suficiente para ampliar as
reservas nacionais, caso a natureza o permita.
Enquanto isso, a entrada de empresas estrangeiras na pesquisa e
prospecção não renderá dividendos ao
país.
Caso tenham elas o mesmo nível de sucesso da PETROBRÁS,
três cenários poderão ser delineados:
1. autorizar a exportação do excedente produzido por
tais empresas;
2. remunerar, a título de lucros cessantes, as empresas estrangeiras
e manter os campos petrolíferos, por elas descobertos, na
situação de “reserva estratégica nacional”,
e
3. bloquear campos petrolíferos da “PETROBRÁS”
como “reserva estratégica nacional”, permitindo
que as empresas estrangeiras comercializem a sua produção
no mercado interno.
Qualquer um dos cenários apresenta-se inadequado para atingir
os objetivos propostos.
No primeiro, as reservas, obviamente, não seriam aumentadas,
já que o excedente destinar-se-ia à exportação.
No segundo, garantir-se-ia o aumento das reservas, todavia a custos
inaceitáveis, pois parte da remuneração seria
desviada para as matrizes das empresas, como “remessa de lucros”.
No terceiro cenário, quebrar-se-ia a PETROBRÁS, caso
não fosse ela remunerada pelos lucros cessantes, impedindo
a empresa de cumprir a sua tarefa que é a de ”abastecer
o Brasil com hidrocarbonetos extraídos do próprio
subsolo pátrio”.
Então, governantes do Brasil, os senhores que já estão
patrocinando o melancólico “espetáculo do empobrecimento”
da nossa população, tratem de abrir os olhos para
poupar os compatriotas da desgraça que seria a perda total
do domínio da economia nacional, ocorrência até
mesmo pior do que uma ocupação do território
brasileiro por tropas estrangeiras.
Rio de Janeiro, em 20 de abril de 2004.
Aniversário do falecimento do Almirante Joaquim Marques Lisboa,
Marquês de Tamandaré e Patrono da Marinha (1897)
|