BBC Brasil
5.03.2003
O mundo
enfrenta uma crise sem precedentes no abastecimento de água.
Segundo documento da Organização das Nações
Unidas, o problema ocorre por causa da inoperância
dos líderes políticos para combatê-lo.
Segundo
a ONU, se as autoridades não tomarem providências
urgentemente cerca de sete bilhões de pessoas podem
conviver com deficiências no fornecimento de água
na metade deste século.
O relatório
das Nações Unidas é o maior já
produzido sobre a disponibilidade e a qualidade da água
no mundo.
Seis
mil crianças com menos de cinco anos morrem por dia
em todo o mundo em razão de doenças relacionadas
a impurezas da água consumida. O informe alerta que
a escassez nos reservatórios será resultado
do crescimento populacional, da poluição e
das mudanças climáticas. A previsão
é de que a disponibilidade de água por pessoa
vai cair um terço nos próximos 20 anos.
Tragédia
A ONU
divulga o documento às vésperas do 3º
Fórum Mundial sobre a Água que vai ocorrer
de 16 a 23 deste mês em Kioto, no Japão.
O diretor
do Programa Mundial de Água da Unesco, agência
da ONU responsável pelo relatório, Gordon
Young, afirmou à agência Reuters que não
existe água em condições higiênicas
e sanitárias adequadas para cerca de 40 % da população
mundial. "Este fato é uma tragédia absoluta",
disse ele.
O diretor
da Unesco ressaltou que os líderes mundiais não
demonstram disposição em resolver a queda
no abastecimento de água.
Para
Gordon Young, os políticos atuais gastam muitos recursos
na construção de armamentos e, por isso, não
sobra dinheiro para a implementação de projetos
para melhorar a qualidade e aumentar a quantidade de água
disponível.
Ranking
Mundial
De acordo
com o relatório da ONU, cerca de seis milhões
de toneladas de lixo são despejadas por dia em rios,
lagos e canais.
Grande
parte da água limpa no mundo é utilizada em
irrigação. Para a ONU, a economia seria maior
se a água suja fosse tratada e utilizada na colheita
de alimentos.
A ONU
incluiu no documento um ranking de países no que
se refere ao tratamento da água. Finlândia,
Canadá, Nova Zelândia e Grã-Bretanha
apresentaram os melhores desempenhos. A Bélgica ficou
atrás de países como Índia e Marrocos.
O relatório
das Nações Unidas alerta também para
o risco de conflitos por causa da escassez de água,
principalmente no Oriente Médio.
Exaustão do lençol freático:
ameaça oculta à segurança alimentar?
A alimentação
disponível em muitos países em vias de desenvolvimento
depende dos lençóis freáticos utilizados
para a irrigação. Se não for feita
uma gestão mais sustentável deste recurso,
algumas das regiões mais densamente povoadas do globo
podem sofrer uma crise grave num futuro próximo.
O primeiro estudo global do IWMI sobre a escassez de água,
publicado em 1998, identificou a exaustão incontrolada
dos lençóis freáticos como uma ameaça
séria à segurança alimentar em muitos
países em vias de desenvolvimento.
Nestes países, os lençóis freáticos
emergiram como o pilar da economia agrícola alimentar.
Mas este precioso recurso não está a ser utilizado
de modo sustentável. Nos países que dependem
dos lençóis freáticos para a irrigação,
o bombeamento excessivo está a provocar a queda das
superfícies de água doce para níveis
alarmantes. O futuro da segurança alimentar de muitos
dos países mais populosos do mundo - China, Índia,
Paquistão e quase todos os países do Médio
Oriente e da África do Norte – dependerá
amplamente da forma como os responsáveis gerem hoje
os seus recursos aqüíferos subterrâneos.
As conseqüências da não gestão
deste problema são potencialmente catastróficas,
especialmente para as populações mais pobres,
que são as mais afetadas pela escassez de água.
O objetivo do estudo sobre os lençóis freáticos
do IWMI é identificar e promover meios de gerir melhor
este recurso.
A utilização dos lençóis freáticos
põe três problemas:
a exaustão conseqüente à exploração
excessiva, a saturação do solo pela água e
a salinização, causadas por drenagem insuficiente
e a poluição, derivada da intensa atividade
agrícola, industrial e humana.
Há países que já estão a sofrer
as consequências da utilização excessiva
dos lençóis freáticos.
Em Henan, província de 2 milhões de hectares
no Norte da China, cerca de 52% das terras irrigadas são
servidas por poços tubulares. Os dados de controle
da superfície dos lençóis freáticos
relativos a 358 poços mostram que a superfície
dos lençóis freáticos diminuiu de 0,75
a 3,68 metros entre 1975 e 1987.
Na bacia do rio Fuyang do Norte da China, a superfície
dos lençóis freáticos caiu de 8 para
50 metros nos últimos 30 anos, à medida que
foi aumentando o número de agricultores que recorreram
à irrigação a partir de lençóis
freáticos para compensar o decréscimo das
águas de superfície disponíveis.
Em muitas zonas da Índia e do Paquistão, as
superfícies dos lençóis freáticos
estão a descer à taxa de 2 a 3 metros por
ano, devido ao número crescente de poços de
irrigação – cerca de um milhão
por ano.
Em dois Punjabs, Haryana e Rajasthan Ocidental, a salinidade
é a principal conseqüência da utilização
excessiva dos lençóis freáticos. No
Norte de Gujarat e no Rajasthan Meridional, o problema é
a contaminação pelo flúor.
Todos estes problemas enfraquecem a capacidade destes países
de fornecerem alimentos à sua população.
Alguns peritos prevêem que a exaustão dos lençóis
freáticos pode pôr em risco 25% das colheitas
da Índia.
Não há solução simples
O estudo sobre os lençóis freáticos
do IWMI incide na problemática da pobreza e tenta
compreender e resolver o leque de problemas resultantes
dos níveis dos lençóis freáticos.
Em zonas de lençóis freáticos abundantes,
os cientistas do IWMI estão a examinar em que medida
as aglomerações e as aldeias se podem organizar
para fazerem a gestão e a partilha ideais da água
de irrigação. Em zonas que sofrem da exploração
excessiva dos lençóis freáticos, o
trabalho do IWMI procura definir o alcance do problema utilizando
meios como a cartografia dos recursos dos lençóis
freáticos e o desenvolvimento de novas abordagens
para a gestão sustentável dos lençóis
freáticos. Estas incluem a utilização
combinada das águas subterrâneas e de superfície,
a recolha de águas pluviais, a recarga dos lençóis
freáticos, as instituições locais e
a irrigação de precisão para uma utilização
mais eficaz da água.
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