Maria
da Glória Sá Rosa
Minha mãezinha de seda, nesses armários
que cheiravam a madeira,sândalo,amêndoas, maçãs
antigas,seiva e vida dos bosques úmidas e seculares.Cecília
Meireles.
As lembranças de minha mãe
surgem envoltas nos perfumes de emanavam de sua figura sempre
elegante, nos longos vestidos de seda que costumava usar.
Tudo que ela tocava tinha cheiro especial, coisa de passadas
eras ligada a segredos que ela ocultava em gavetas que nenhum
de nós ousava abrir. Aqueles armários fechados
a chave, o diário pequenino, repleto de folhinhas cheirosas,
que ela fechava, mal nos via, matavam-me de curiosidade.
Todas as tardes, ela desaparecia por longas horas. Aonde ia,
nunca lhe perguntei. Suas ausências não me inquietavam,
porque sempre regressava à mesma hora com o perfume
de flores do bosque para impregnar cada pequeno recanto de
nossa casa de algo feito de sonho e sono, algo imaterial que
deslizava de seus dedos longos e macios e vinha tranquilizar
minhas dúvidas infantis.
-Mãezinha, você demorou tanto...Não agüentava
de saudade. Tenho prova amanhã e você não
estudou comigo.
-É cedo, temos muito tempo pela frente. Comecemos pelo
Português.Vamos ler juntos uma história. Não,
eu leio e você me conta, está bem ?
Sua voz tinha cheiro de maçã, voz de fada vinda
de bosques antigos, repletos de verde úmido, orvalho
deslizando na alma para o almejado sossego.
Na solidão da tarde, éramos dois seres que se
buscavam, na identidade do sangue, dos pensamentos, no desejo
de parar o tempo e eliminar a morte.
-Mãezinha, encontrei este envelope no chão de
seu quarto...
-Você não o abriu, não é? Quando
chegar qualquer coisa para mim não deixe ninguém
ver. Guarde com cuidado. Só tenho confiança
em você, minha filha.
-Você está com um perfume diferente..
-É sândalo, presente de uma amiga que esteve
na India. Você gostou? Quando crescer, compro um igual
para você.. Por enquanto é muito pequenina para
andar usando perfumes como esse.
Assim era nossa vida, assim foi minha infância de perfumes
e mistérios, com minha mãe e suas ausências
que se multiplicavam. Um dia quando voltei da escola, não
a encontrei mais.Minha avó veio morar conosco. Meu
pai não permitiu que tocassem nas coisas de minha mãe.
Os vestidos de seda ainda guardavam a marca das formas esguias,
o perfume contaminava gavetas, penetrava meus sentidos de
uma dor difícil de explicar e suportar.
Vi-a um dia numa rua estreita, de braço com um desconhecido.
Sabia que era ela pelo perfume que inundou a rua como brisa
vinda de país distante para machucar a alma. Acordei
de repente daquele sonho, que repassei na mente, como vídeo
tape obsessivo, na tentativa de imprimir as imagens da noite
na solidão do meu dia a dia. Inútil.
Nunca mais nem mesmo em sonhos voltei a rever minha mãe.
Só muitos anos o enigma se revelou na leitura do diário,
da carta do médico com recomendaçòes
especiais de não faltar ao tratamento..
"Não quero que minha filha partilhe
o sofrimento terrível que me queima a carne e o espírito.
Quero partir, deixando a lembrança dos dias felizes
em que estivemos juntas. Não quero que me veja no embarque
para última viagem..Não quero que sofra por
minha causa."
Fazia frio.Das páginas daquele pequeno
diário emanava um perfume de sândalo, como se
daqueles textos repletos de uma letra compostos de tinta úmida
e secular brotasse a explicacão que me faltava para
entender e aceitar o sacrifício de minha mãe.
Mãezinha de seda, de perfumes, que me envolvem para
sempre. |