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Ricardo
Bergamini
O espírito científico manifesta-se ainda,
na atividade científica, pela vontade de romper com
as perspectivas puramente subjetivas do conhecimento vulgar.
O conhecimento científico implica numa verdadeira
ascese. Para conquistar a objetividade científica
é necessário libertarmo-nos da visão
subjetiva, imposta espontaneamente por nossa organização
biológica, por nosso corpo (passagem do conhecimento
sensível, qualitativo, ao conhecimento racional,
quantitativo; substituição do sol visto pelos
olhos do corpo pelo sol concebido pelo astrônomo,
por exemplo), e também da subjetividade ligada às
tendências psicológicas, às paixões
(recordemos a necessária “psicanálise”
do antropomorfismo espontâneo) e, ainda, da subjetividade
de origem social (o peso da tradição, do conformismo;
falamos da longa resistência dos partidários
do flogístico à química de Lavoisier
e da necessidade de vencer o poder psicológico e
sociológico do hábito pela força racional
das provas).
O espírito científico é racionalista.
Ele exige, diz muito bem Goblot, um esforço para
“subtrair o pensamento à influência do
sentimento e à arbitrariedade da vontade”.
Isso não quer dizer – muito ao contrário
– que a ciência diminua a importância
dos fatores irracionais na conduta humana. Quando um historiador,
um sociólogo, um economista, um psicólogo
se dizem racionalistas, não querem expressar com
isso que a conduta humana seja sempre, nem mesmo freqüentemente,
racional. Eles não se deixam enganar pelas “racionalizações”,
pelas justificações que o homem, comumente,
dão de suas crenças e de seus atos, “como
se ficasse entendido que eles devem estar penetrados de
lógica”. Nas ciências humanas, o racionalismo
consiste em dizer, não que a conduta humana seja
racional, mas que ela é suscetível de ser
racionalmente explicada, que é possível determinar
suas causas (mesmo que a causalidade psicológica,
ou sociológica, escape ao próprio sujeito
que a sofre).
O historiador e o sociólogo sabem que, em seu trabalho,
podem ser vítimas de ilusões, e de influências
irracionais como os primeiros físicos ou químicos
o foram. Mas o racionalismo consiste em ressaltar, simultaneamente,
a importância e o perigo dessas influências
irracionais. Ele somente reconhece sua presença –
e seu poder – a fim de empregar o que de melhor possui
para delas escapar.
Não censuramos o espírito crítico por
seu caráter negativo, dissolvente. Pois o espírito
crítico não é o espírito de
crítica. O espírito crítico não
é senão o reverso de uma exigência muito
construtiva, a exigência de verdade de objetividade.
Bem compreendido, o espírito crítico é,
como muito se repetiu e com justa razão, “o
sentido da prova”. É nessa vontade de não
afirmar coisa alguma, que não possa ser provada,
que reside à vocação essencial do espírito
científico. O matemático somente desenvolve
o que é rigorosamente deduzido do sistema de axiomas
previamente adotado (e reduzido à sua base “mínima”,
segundo o incomparável rigor do método axiomático).
O físico, o químico, o biólogo, por
outro lado, submetem suas hipóteses à verificação
experimental, multiplicando experiências a fim de
construir um feixe de provas e rejeitando as hipóteses
desmentidas pela experiência.
Para finalizar cabe apenas acrescentar que, com a globalização
e a democratização do saber e do conhecimento
através da internet, não haverá mais
espaços para ideologias e formas de governos antigas
e ultrapassadas. É óbvio que a passagem, do
atual momento de irracionalidade generalizada da humanidade,
para a racionalidade, será um processo longo e duradouro
- com muita dor, sofrimento e sangue - será inevitável!
Faz parte do processo de purificação e evolução
espiritual da humanidade.
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