Guy Sorman
4 de outubro de 2011
Tradução: Maria Júlia Ferraz
Será que a novo ciclo de crise econômica irá provar que Friedrich Hayek estava certo?
Não existe economia sem crise, mas a crise presente nas economias ocidentais, que entra em seu quarto ano, é sem precedentes recentes. Ela deixa os comentaristas sem voz, os economistas perplexos e os governos à beira da histeria. Nas situações complexas, explica o lógico Ockham[1], as hipóteses mais simples são as mais prováveis. Aplique-se a “navalha d’Occam”[2] à crise e veremos que ela funciona.
Lembrando em primeiro lugar que uma crise econômica não é anormal, nem excepcional: depois que o Ocidente inventou o crescimento, a riqueza produzida individualmente aumenta de forma irregular. Esses acidentes de percurso são a causa que esclarece e explica as crises, seja a causa econômica um choque exterior, como o brutal aumento do preço da energia em 1973, ou o fechamento das fronteiras em 1930; seja ela vítima de um trauma interno, como excesso de criação de moeda ou hiperinflação; ou ainda uma inovação que virou um mal.
Desse modo, a crise financeira de 2008 foi claramente provocada por uma inovação útil no início: os derivativos financeiros que aumentaram os investimentos produtivos e que se tornaram catastróficos pela simples razão de serem usados excessivamente.
Geralmente, o crescimento é retomado instantaneamente quando as condições melhoram: abrem-se as fronteiras depois que elas estiveram, infelizmente, fechadas; expurga-se o circuito financeiro de suas produções tóxicas, substitui-se a moeda desvalorizada por uma moeda confiável. Essa limpeza da economia é geralmente dolorosa: as empresas que viviam de monopólios desaparecem, os poupadores vão à ruína, os desempregados devem se readaptar. Em tempos de saída da crise, o papel do Estado é acompanhar o expurgo de maneira a reduzir os sofrimentos humanos; essa é a função dos seguros sociais.
Feita a faxina, a economia volta a crescer de maneira espontânea. Vamos nos deter um pouco nessa espontaneidade.
As economias crescem por uma única razão que é a inovação; sem inovações, nada de crescimento. Mas, somente a inovação não é suficiente, é preciso também que uma descoberta tecnológica seja lançada por um empresário. Essa dupla inovação/empresário (que pode estar na mesma pessoa, como Steve Jobs, ou, mais remotamente, Thomas Edison ou Louis Renault) é a base de toda a prosperidade moderna.
Evidentemente, no Ocidente essa dupla está avariada, o que não deixa de ser espantoso porque nos laboratórios ocidentais nunca houve tantas inovações. O número de patentes triádicas (Estados Unidos, Europa, Japão) nunca foi tão elevado na história da humanidade, já que a inovação científica é um fenômeno cumulativo.
Fora desses três polos citados, a inovação fica à margem: a Coreia do Sul emerge sozinha, enquanto a China, a Índia e o Brasil ainda não.
Tudo se passa como se o Ocidente estivesse sobre um tesouro, mas nenhum empresário se decide a abrir o cofre. E, no entanto, os governos multiplicam seus estímulos fúteis, em particular, créditos com taxas quase nulas. Isso virou norma no Japão, seguido pelos Estados Unidos e a Europa, sem suscitar a mínima reação.
Continuemos a dissecar a crise com a Navalha de Ockhan. Uma evidência nos salta aos olhos: os governos ocidentais se recusam, depois de 2008, a aplicar a si próprios as receitas de boa governança que são amplamente divulgadas entre os países pobres.
Após ter passado muito tempo tergiversando sobre os fundamentos da pobreza e a origem da riqueza, os economistas quase chegaram a um consenso: o desenvolvimento está ligado à qualidade e à estabilidade das instituições públicas. Essa aproximação simples, à la Ockhan, revoluciona o destino dos países pobres, já que, desde o instante em que eles criam instituições confiáveis como uma moeda estável, impostos modestos, fronteiras abertas, o legítimo direito à propriedade, foi possível observá-los decolar e se tornarem emergentes.
A teoria institucional do desenvolvimento foi corroborada nos últimos 30 anos pela experiência, menos no Ocidente onde se exclui a aplicação dessa mesma teoria. Depois de 2008, todos os governos competem em intervenções monetárias, fiscais e sociais. Como o crescimento não retornou, os governantes acrescentam uma colher de poção ou preparam uma novidade. Dessa forma, nós entramos em uma era de instabilidade institucional permanente, uma constante terapia que impede o paciente de recuperar a saúde.
Confrontado diante de tanta agitação, o empresário perplexo espera. Como um investimento não pode dar lucro em um ano, toda política econômica de curto prazo gera uma passividade racional. A recessão sem fim, de acordo com nossa hipótese do mais simples ser o mais verdadeiro, vem dessa contradição entre o longo prazo necessário à economia e o curto prazo que é o horizonte da política.
A recessão presente obriga a uma reflexão essencial sobre a saída da crise em um regime democrático: como restaurar o longo prazo necessário ao empresário quando os prazos eleitorais são breves? Barack Obama, por exemplo, aposta sua reeleição em cima de uma criação maciça de empregos públicos.
Se o seu projeto for aplicado, um ou dois milhões de empregos podem ser criados em um ano ou dois, gerando a ilusão de uma vitória contra o desemprego. Passada a euforia, a dívida pública obrigaria a demitir todo mundo e, de passagem, sufocaria, pelo imposto ou inflação, o número de empregos privados.
Não vamos concluir, portanto, que há um dilema entre democracia e economia, porque a solução existe: convém fazer sair dos campos eleitorais as instituições necessárias ao crescimento. Antigamente, os governantes manipulavam a moeda, agora eles não podem mais fazer isso; eles abriam e fechavam as fronteiras à sua vontade, agora elas são regidas por tratados. O que, de hoje em diante, deveria ser tirado da polêmica eleitoral é o gasto público. Em todas as democracias ocidentais, a Constituição poderia não impedir o déficit orçamentário, mas instauraria um teto do gasto público em função da riqueza nacional. A segurança do euro seria automaticamente garantida porque somente a dívida pública mina o euro.
A não saída da recessão parece ter uma única razão, e não é a dívida pública, mas a recusa dos governos em não se comprometer a acabar com a dívida a longo prazo.
Pode-se refutar que os eleitos do povo não aceitariam jamais se privarem do direito aos gastos, mas se ouvia o mesmo argumento contra a independência dos bancos centrais ou dos mercados livres. Se o teto constitucional do gasto público não foi aceito é porque a crise ainda não foi compreendida. As pessoas, escreveu Hayek, só aprendem com seus erros. Mas, aprendem! |