Guy Sorman
Publicado pelo Diário do Comércio em 10/07/2011
O derretimento na usina nuclear de Fukushima provocou abalos em todo o mundo. Na maioria das vezes, contudo, os tremores têm sido ideológicos, sem nenhuma base científica.
Os administradores da Energia Elétrica de Tóquio (Tepco), que cuidam dos reatores de Fukushima, estão sendo criticados com justiça por utilizarem uma geração antiga de geradores mal conservados. Os japoneses, que se consideram os melhores engenheiros do mundo, agora se sentem humilhados.
Mas, apesar das reações nas ruas, a reação coletiva no Japão não foi repudiar a energia nuclear. Afinal, o acidente em Fukushima feriu com gravidade só poucas pessoas – provavelmente menos de uma dúzia foram contaminadas com seriedade. Quase todas as milhares de vítimas japonesas foram afogadas pelo tsunami, não aniquiladas por um derretimento nuclear.
O Japão não vai parar de usar a energia nuclear. Em vez disso, os engenheiros vão desenvolver usinas melhores e mais seguras, muito provavelmente baseadas nos reatores nucleares miniaturizados que foram concebidos para substituírem as usinas velhas de Fukushima. A maioria dos japoneses se manteve racional diante da tragédia do país, como a maior parte das pessoas nos países asiáticos vizinhos, como a China e Coreia do Sul que, da mesma forma, não abandonou seu compromisso com a energia nuclear.
Não é o caso na Europa e nos Estados Unidos, onde os abalos ideológicos de Fukushima têm sido mais destruidores. O governo da chanceler alemã Angela Merkel foi o primeiro a reagir decidindo fechar todos os reatores nucleares nos próximos anos – um movimento radical provocado por políticas domésticas. O governo de Merkel não inclui os verdes, mas a ideologia verde se tornou um credo nacional amplamente compartilhado na Alemanha. Aliás, pode-se relacionar a hostilidade popular contra a energia nuclear ao tradicional culto romântico alemão à natureza, não às ciências.
As usinas nucleares da Alemanha serão substituídas por mais usinas termoelétricas, implicando um grande aumento da emissão de carbono do país – é o final melancólico dos verdes preocupados com o aquecimento global! E é o final melancólico da honestidade intelectual, pois a Alemanha sem energia nuclear dela mesma será compelida a comprá-la da França, que não tem a intenção de fechar suas usinas nucleares.
Nos Estados Unidos, o abalo ideológico está mais perto do da Alemanha do que o da França: os EUA talvez não sejam muito propensos ao romantismo, mas o culto à natureza continua fazendo parte da alma norte-americana. Isso pode de alguma forma explicar por que os democratas, que controlam a Presidência e o Senado, são tão comprometidos com as chamadas energias alternativas.
O governo do presidente Barack Obama tem jogado bilhões de dólares em eólica, solar, etanol e outras fontes de energia alternativa. Agora, a tragédia de Fukushima está sendo usada para justificar a continuidade desses programas economicamente duvidosos. Podemos apostar que nenhuma dessas energias alternativas vai substituir com facilidade o petróleo, o gás e a usina nuclear no futuro previsível.
A preço de mercado, sem subsídios públicos, uma unidade de energia produzida pelo sol ou pelo vento nos EUA custa cinco vezes mais do que uma unidade produzida por petróleo, gás ou usinas nucleares. Além disso, os defensores das energias alternativas sistematicamente minimizam seu impacto ambiental negativo. Uma turbina a vento exige 50 toneladas de aço e 2,6 quilômetros quadrados de terreno. Se a Califórnia tivesse de contar com a energia solar para seu consumo elétrico, todo o Estado teria de ser coberto com células fotovoltaicas.
A grande ironia da situação atual é que a inovação e a atividade empreendedora verdadeiras, sem apoio governamental, estão ocorrendo no campo da geração de energia, como na criação de reatores nucleares miniaturizados. O avanço mais promissor bem podem ser as descobertas de enormes reservas de gás de xisto em todo o planeta.
Aliás, graças às novas técnicas em faturamento hidráulico e perfuração horizontal, o gás de xisto pode se tornar a fonte dominante de energia do futuro. O gás de xisto poderia assim reduzir a dependência do petróleo e do gás da Opep e ao mesmo tempo reduzir a emissão de carbono. O gás gera dez vezes menos carbono que a biomassa ou o etanol, que os ecologistas promovem tanto.
Além de Fukushima, os fornecimentos de energia no futuro serão cada vez mais baseados em usinas nucleares miniaturizadas e gás de xisto – uma combinação capaz de responder à crescente demanda por eletricidade da população mundial que se urbaniza rapidamente.
Esse equilíbrio energético renovado causaria um impacto no atual equilíbrio global de forças. O gás de xisto é abundante na Europa e na América do Norte, diferentemente do petróleo e do gás. Assim, a energia do amanhã poderá fortalecer as democracias do mundo e enfraquecer seus regimes mais repressivos, onde a maioria do petróleo pode ser encontrada atualmente. Dentro dessa nova estrutura geopolítica, a ideologia verde vai sobreviver como uma religião ou como uma receita para suicídio econômico. |