Guy Sorman
20 de fevereiro de 2011
Forças Armadas mais modernas e bem preparadas do que as da China são um dos grandes trunfos do Japão. Como os olhos de todos estão focados na China, nos esquecemos de que o Japão ainda é a principal força da Ásia.
Pode ser que a economia chinesa tenha, em volume, ultrapassado a japonesa e se tornado a segunda maior do mundo. A China tem dez vezes mais pessoas do que o Japão, o que significa que cada japonês tem dez vezes mais riqueza do que um chinês. Além disso, não faz muito sentido comparar a produção pouco tecnológica da China com as sofisticadas indústrias do Japão. "Não estamos numa corrida", afirma Hideki Kato, um dos principais economistas japoneses e presidente da Fundação Tóquio.
Ao longo da história do Japão, as crises mostraram-se úteis: as duas anteriores causaram o que é conhecido como as "Duas Aberturas". A Primeira Abertura foi provocada pela incursão da Marinha dos EUA na Baía de Tóquio, exigindo o direito ao comércio em 1856. O governo japonês entendeu que uma nova era tinha começado, o que deixava o Japão com opção limitada: ser colonizado ou se tornar tão forte como o Ocidente.
Em 1945, a vitória norte-americana gerou uma segunda Abertura. Essa teve tanto sucesso que o Japão, nos anos 1980, se tornou modelo de administração econômica. "Como nossa única riqueza eram os recursos humanos, não tivemos escolha a não ser administrar esses recursos melhor do que qualquer outro país", lembra Kato. Os estilos japoneses de administração, como os métodos Zero Default e o de entrega Just in Time, se tornaram moda nos currículos das escolas de negócios –até 1991, quando os japoneses entraram nas chamadas "décadas perdidas".
Há 20 anos, o Japão não sabe o que é crescimento ou só conhece o crescimento lento. A melhor explicação para essa estagnação é de Fumyo Hayashi: "A economia do Japão parou de crescer porque os japoneses pararam de trabalhar”". Eles começaram a tirar férias longas e a se aposentar aos 57 anos no setor público e em grandes companhias. A produção caiu em proporção direta com a redução das horas de trabalho. Essa desaceleração foi agravada pelo envelhecimento: desde 2005 a população total japonesa começou a cair.
Diante da estagnação econômica, os governos japoneses pioraram as coisas. Não houve um ano desde 1991 sem que o governo tenha aumentado o gasto público para "revitalizar o crescimento". O Japão tem sufocado por conta de muitas pontes para lugar nenhum e aeroportos desnecessários, com benefícios para os partidos políticos que pegam sua parte nas obras públicas. As "décadas perdidas" mostraram que nem a política monetária (juros bancários de 0%) nem os gastos públicos reanimarão a economia se o incentivo para trabalhar desapareceu.
A dívida pública japonesa já chegou ao dobro do PIB anual. O Japão vai se tornar um país falido? Provavelmente não, porque a dívida é com os próprios japoneses, e paga a uma taxa de juro próxima de zero.
E como uma economia estagnada não rompeu a sociedade nem provocou desemprego significativo? As grandes empresas consideram obrigação oferecer tantos empregos quanto possível: para atingir esse objetivo, admite-se que os salários sejam flexíveis. Assim, as milhares de lojas varejistas menos favorecidas agem como um amortecedor social. O pleno emprego no Japão é menos uma consequência do crescimento econômico e mais uma obrigação moral para o patrão e empregado.
Esse status quo não provocou a queda nos juros por causa de características únicas da economia japonesa, a mais tecnologicamente avançada no mundo e a mais inovadora.
É verdade, as marcas japonesas não dominam mais o mercado de carros e eletrônicos como já dominaram. A Sony foi superada pelo Ipod. Os carros Hyundai são tão bons quantos os da Toyota. A Microsoft, o Google, a Amazon mostram que o Japão pode ter perdido a nova era dominada pelas plataformas multiusos.
A indústria do Japão passou do mercado dirigido para o consumidor final para o mercado business to business. Sem saber, o mundo se tornou mais dependente do que nunca da indústria japonesa. Quando usamos um telefone celular, voamos num avião ou andamos de bicicleta, consumimos um grande número de componentes invisíveis "made in Japan".
Num Iphone G3, um terço dos componentes – em valor – vem de empresas japonesas. Só 5% são "made in China", isto é, "montada" na China. No próximo Boeing Dreamliner, um terço dos componentes será de fibra de carvão fabricada por produtores japoneses. Praticamente todas as usinas nucleares civis do mundo foram construídas em volta de um reator moldado pela Japanese Steel Works. O filme invisível protegendo a tela de qualquer TV HD ou telefone celular é "made in Japan".
Cerca de 300 empresas médias japonesas, em geral familiares, detêm o monopólio mundial de componentes indispensáveis, incluindo o câmbio da sua bicicleta. Companhias sul-coreanas, taiwanesas, alemãs e algumas norte-americanas tentam alcançá-las, mas o Japão mantém a dianteira.
Essa vantagem japonesa é o resultado de uma enorme quantidade de dinheiro (4% do PIB) investida em pesquisa pelo setor privado e pelo Ministério da Indústria. Ela também é o resultado de uma longa tradição secular de know-how e de um senso de perfeição tipicamente japonês. "Somos um país de engenheiros", diz Kato. "Terceirizamos as atividades de baixa tecnologia para a China, mas o Japão nunca se desindustrializou.
Mas a fase calma pode ter acabado, diz Shinzo Abe, ex-primeiro-ministro: "Os chineses nos acordaram!" Em outubro de 2010, uma traineira chinesa atingiu com arpão um barco da Guarda-Costeira japonesa numa região em volta da Ilha Senkaku, reivindicada pela China e pelo Japão. Na mesma época, a Coreia do Norte atacou um navio militar sul-coreano. Claramente, o status quo da Ásia mudou e a China está testando a resistência dos vizinhos.
"A ameaça da China é uma bênção disfarçada", diz Akima Kojima. Hoje na chefia do centro de estudos Nikkei, ele defende uma Terceira Abertura. "Com a China nos nossos calcanhares, sabemos que estamos numa crise, como em 1857 ou 1945."
Os estudantes japoneses deveriam ser mais globalizados, afirma Kojima. No Japão, ninguém fala inglês fluente, diferentemente dos países vizinhos. Duas empresas importantes de logística, Rakuten e Fast Retailing, agora escolheram o inglês como língua de trabalho. O Japão, após um período de "desglobalização", está se globalizando novamente. O governo ampliou seus esforços para promover o país no exterior. "Made in Japan" é uma marca conhecida, com mais apelo de consumo do que "made in South Korea" ou "made in China". Esse soft power, avalia Shingo Ogawa, presidente da Fundação Japão, um braço do Ministério das Relações Exteriores, deveria ser constantemente reforçado.
Não é bem conhecido o fato de que o Japão é o segundo maior exportador de conteúdo, depois dos Estados Unidos. Filmes, mangás, desenhos animados, moda e design japoneses são reconhecidos em todo o mundo. Só os filmes de animação da Walt Disney superam as produções Myazaki. Em jogos de computador, o Japão é de longe o número 1 para crianças de todo o mundo.
Com a população diminuindo – 100 milhões de habitantes previstos para 2046, diante dos 127 milhões atuais – o Japão será capaz de rejuvenescer sua indústria e arcar com o aumento do número de aposentados? A solução evidente seria a imigração, à qual a maioria dos japoneses se opõe.
Kato não está preocupado. "Uma opção é considerar nossa população envelhecida como outra bênção disfarçada. Todos os países terão de se confrontar com um grande número de pessoas dependentes. No Japão, como já chegamos a esse estágio, temos sistemas desenvolvidos para permitir que os idosos fiquem em casa". Para ele, apoio médico a distância, casas inteligentes e aparelhos sensoriais serão uma grande fonte de renda. Soluções técnicas vão substituir a imigração de enfermeiras, resolver o enigma da aposentadoria e se gerar exportação de conhecimento.
Nem todos compartilham do otimismo de Kato. Para Yoichi Funabashi, o colunista mais influente do Asahi, é preciso mais liderança política para salvar a Ásia do imperialismo da China. Segundo ele, a Parceria Transpacífica, uma iniciativa de Singapura e da Nova Zelândia, é a solução: criaria uma zona de livre comércio no Oceano Pacífico. Seus membros se comprometeriam com o livre mercado e com a democracia.
A China, até o momento, se recusou a aderir. Esse acordo conteria os truques econômicos da China (como falta de respeito pela propriedade intelectual) e ambições imperialistas, até o dia em que o regime chinês se torne transparente e confiável. Qualquer outra agressão contra o Japão ou a Coreia do Sul também ativaria a defesa militar da Ásia em torno do bloco norte-americano: as Forças Armadas japonesas, outro segredo escondido, são mais sofisticadas e mais bem equipadas do que as chinesas.
"Ninguém realmente sabe como lidar com a China", admite Funabashi. Para ele, os japoneses não devem esperar até que o governo dê o primeiro passo. Empresas e organizações de cidadãos no Japão deveriam começar a engajar suas contrapartes. A Ásia, conclui, só se tornará uma área de livre comércio e de paz comparável à União Europeia quando os cidadãos se engajarem em contatos diretos.
Uma utopia asiática? Nem tanto, replica Funabashi: As sociedades chinesa e sul-coreana ficaram mais complexas do que há uma década – seus governos não são mais a única força a controlar tudo. |