sama Samaúma
 

sama






sama




Mas, afinal, o que quer a imprensa?

 

 

 



por Felipe Atxa
17 de dezembro de 2010

 

 

A imprensa ama Lula, e ele retribui com desprezo e virulência. A imprensa é, predominantemente, petista, e o PT quer um conselho de jornalismo para fiscalizá-la. Mas nada disso parece importar: de alguma forma, Lula e o PT não sabem por que exatamente batem na imprensa, mas ela sabe por que apanha. Afinal, o que querem os jornalistas?

É interessante notarmos como a imprensa confunde a opinião pública quando provoca a sociedade com estímulos contraditórios. Vejamos alguns exemplos:

- Quando uma criança entra com um revólver numa escola...

No momento 1, a imprensa lança a questão: “Como uma escola permite que uma criança entre armada para ter aulas?”

No momento 2, a sociedade reage: “Talvez seja melhor revistarmos as crianças antes de elas entrarem nas escolas...”

No momento 3, a imprensa reage, indo buscar a opinião de um “especialista” (geralmente psicólogo ou sociólogo), que declara: “Não podemos admitir que as crianças sejam revistadas nas portas das escolas, como se fossem criminosos”

- Quando ocorre um desabamento trágico em alguma favela...

No momento 1, a imprensa lança a questão: “Como o poder público permite que essas pessoas morem num local tão perigoso e ameaçado por desabamentos?

No momento 2, a sociedade reage: “Talvez seja melhor retirar essas pessoas desses locais perigosos...”

No momento 3, a imprensa reage, novamente ouvindo a declaração de um especialista ou ativista: “É uma violência retirar essas pessoas à força de suas casas, elas não têm para onde ir”

- Quando ocorre uma depredação em uma escola pública...

No momento 1, a imprensa lança a questão: “Como a escola não tem segurança que impeça a escola de ser invadida e depredada?”

No momento 2, a sociedade reage: “Talvez seja melhor colocar a polícia dentro das escolas e fazer os alunos que depredam consertar os prejuízos...”

No momento 3, novamente: “É um absurdo colocar policiais dentro de uma instituição educacional, os alunos não podem ser obrigados a pintar paredes e recolher entulho, isso é uma violência”

- Quando menores de idade cometem crimes na madrugada...

No momento 1, a imprensa lança a questão: “Como o poder público não garante a segurança nas ruas durante a noite, permitindo arrastões, algazarra, consumo de drogas por jovens, etc.?”

No momento 2, a sociedade reage: “Talvez seja melhor impedir que menores desacompanhados circulem durante a noite...”

No momento 3, lá vêm eles de novo, os “especialistas”: “Não se pode restringir o direito dos jovens de circular, é uma violência contra seus direitos, o certo é dialogar e educar”

- Quando vemos centenas de casos de vidas destruídas pelo consumo de drogas...

No momento 1, a imprensa lança a questão: “Como o poder público não impede que drogas sejam vendidas e fartamente disponibilizadas no Brasil?”

No momento 2, a sociedade reage: “Talvez seja melhor um controle mais rigoroso da circulação de drogas e penas mais pesadas para traficantes...”

No momento 3, algum profissional de ONG declara, e a imprensa toma como verdade: “As drogas precisam é ser legalizadas, vendidas livremente, elas não fazem tão mal assim”

- Quando vemos milhares de casos de menores cometendo toda sorte de crimes e barbaridades...

No momento 1, a imprensa mostra-se horrorizada: “Como podemos aceitar que uma criança de 9 anos mate outra de 6 anos?”

No momento 2, a sociedade reage: “Talvez seja melhor abolir o conceito de maioridade penal nos casos de crimes violentos e julgar o crime cometido, independente da idade do suspeito...”

No momento 3, o veredito final dos especialistas: “Não se pode penalizar crianças por crimes, o certo é usar o diálogo e a educação”

Os exemplos não acabam. Mestre na arte de propor problemas insolúveis, de retroalimentar polêmicas vazias, de levar a razão coletiva a um bug intransponível, a um conflito insolúvel entre moralidade e ideologia, praticidade e retórica, é difícil saber exatamente o que quer a imprensa. Por isso, na dúvida, gente como Lula e o PT preferem tratá-la a chicotadas. De repente ela até está gostando de apanhar, como saber o que se passa na cabeça dessa dama misteriosa, afinal?