Samaúma
 



 

 

 

 

 




 



 

Um movimento conservador no Brasil?



 

 

 

 

Heitor De Paola
21 Dezembro 2010

 

1ª e 2ª Parte


Os brasileiros não têm experiência, e conseqüentemente noção, do verdadeiro significado de liberdade individual.

 

"Um povo que aceita perder uma fatia de sua liberdade em troca de segurança, não merece ter nem liberdade, nem segurança". Benjamim Franklin

 

A imensa reação contra o aborto que certamente influenciou o resultado do primeiro turno das eleições brasileiras carreando votos de Dilma para Marina, somada à derrota acachapante de Obama nas eleições parlamentares americanas um mês depois, animaram setores conservadores em nosso País. A força imensa do Movimento Tea Party nos dois anos de desmandos de Obama contra a liberdade, as tradições e os princípios arraigados no American Way of Life despertou sonhos de que tal movimento pudesse se repetir no Brasil.

Mais animadora ainda foi a notícia da pesquisa realizada pelo Vox Populi em 05/12 mostrando que 82% da população é contra o aborto, 63% contra o casamento homossexual e 87% contra a legalização do consumo de drogas.

Certamente existem no Brasil vários movimentos conservadores, mas todos são de elite intelectual, os quais até o momento não conseguiram fazer contato político produtivo com esta imensa massa de cidadãos comuns apontada pelas pesquisas. Cabe então fazer uma comparação com o ocorrido recentemente nos EUA, bem assim como uma análise sucinta das diferenças históricas entre os dois povos. O movimento que virou a política americana do avesso em menos de dois anos tem raízes profundas no que há de mais expressivo historicamente naquele País, das raízes do movimento pela Independência, simbolizado pelo nome escolhido, Tea Party, em referência à reação revolucionária contra o aumento dos impostos cobrados pela Coroa Britânica após a aprovação do Stamp Act de 1765, que obrigava ao pagamento de um imposto mediante um selo aplicado a todos os documentos legais e jornais circulantes nas Colônias. Esta reação foi alimentada pelo brado de no taxation without representation (sem representação, nada de impostos) e ao boicote de mercadorias inglesas chegando à rebelião plena em 16 de dezembro de 1773 em Boston quando os carregamentos de chá foram jogados ao mar. A reação foi violenta, mas encontrou os colonos unidos em Comitês, seguindo o criado por Samuel Adams em Boston um ano antes. O parlamento inglês editou novas leis destinadas a punir os revoltosos, os Intolerable Acts, levando à convocação do Primeiro Congresso Continental em 1774. Em menos de dois anos e após uma guerra contra o domínio britânico, as Colônias se tornaram independentes.

No Brasil o único movimento de independência foi a Inconfidência Mineira, até mesmo inspirada nos acontecimentos nas Colônias do Norte. No entanto, o movimento não partiu do povo, mas sim de proprietários rurais, intelectuais, clérigos e militares, os mais prejudicados pela derrama, o imposto extra sobre os 'homens bons' para completar cem arrobas de ouro. Dois fatores estabelecem a diferença com os EUA: a falta total de apoio popular, tornando o movimento uma mera conspiração, enquanto lá os Comitês eram abertos. E a expressão meramente regional, pois ainda não havia uma consciência nacional. O País, ainda dividido em Capitanias não permitia que reverberasse uma identidade nacional. Assim, foi fácil a violenta repressão da Coroa Portuguesa.

Por outro lado, enquanto a Conquista do Oeste e a expansão da nacionalidade foi feita lá por homens livres em busca de território para se instalar e cuidar de suas vidas, quase sem atuação da União, aqui as Entradas era financiadas pela Metrópole e as Bandeiras eram expedições que, embora financiadas por particulares, tinham o único propósito de explorar e não colonizar permanentemente.

Finalmente, os brasileiros não têm experiência, e conseqüentemente noção, do verdadeiro significado de liberdade individual, vivendo desde sempre sob o tacão português e depois de governos autoritários, iludidos por uma falsa sensação de proteção.



2ª Parte

10 Janeiro 2011

"Um povo que pede à liberdade mais do que ela mesma, nasceu para ser escravo". Alexis de Tocqueville, na obra O Antigo Regime e a Revolução.

 

"Os trabalhadores argentinos nasceram animais de rebanho, e morrerão como tais. Para governá-los basta dar-lhes comida, trabalho e leis para rebanhos que eles se manterão na fila para o abate". Juan Domingo Perón


Terminei o último artigo afirmando que "os brasileiros não têm experiência, e conseqüentemente noção, do verdadeiro significado de liberdade individual, vivendo desde sempre sob o tacão português e depois de governos autoritários, iludidos por uma falsa sensação de proteção".

Se o povo não tem experiência de liberdade, mas de viver como um rebanho acreditando que a limitada liberdade e autonomia de que goza são dádivas concedidas pelos governantes - os quais, se as dão, podem retirá-las a qualquer momento - um movimento conservador no Brasil conservará o quê? A noção de ser gado de rebanho troteando a chicotadas dos estancieiros (ontem de Lisboa, hoje de Brasília) que reconhecem como seus donos? Sempre gritando por liberdade, mas esperando realmente alguma migalha de forragem que lhes caiba como sobra da farra dos governantes? Que aceita o despautério de reajustes milionários mirabolantes auto-concedidos pela classe governante - dos três poderes - babando de prazer com as migalhas que lhes concedem em nome de um salário de fome chamado mínimo?

Mas aqui esta não é uma Nova Classe, é a velha classe dominante comemorada com júbilo por uma história contada pelos colonizadores.

Comemora-se com entusiasmo a vinda para cá de um reizinho fujão - o único rei europeu que não liderou seu povo contras as tropas napoleônicas - como se esta fuga fosse de uma inteligência enorme e não apenas covardia!

Comemora-se a "abertura dos portos às nações amigas", concedida por força da imposição britânica e não um direito natural de nosso país arrancado a ferro e fogo no campo de batalha, se necessário fosse.

Comemora-se a fundação de uma instituição que até hoje atazana nossa vida, um banco constituído de "príncipes da República", que controla os antigos cofres coloniais.

Comemora-se uma "independência" (sic) fajuta, pelas mãos de um príncipe da potência colonial cujos únicos interesses eram as amantes, os bordéis e a morte de seu pai para voltar para a Metrópole como rei. E mais uma vez isto é tido como uma enorme esperteza dos brasileiros que não verteram seu sangue pela liberdade, aceitando uma ignomínia sem par na história dos povos deste planeta!

Desde então continuamos governados pela mesma corja aproveitadora que de tão velha já fede de ranço, mas é aceita com um falso estoicismo, que na realidade não passa de regozijo sadomasoquista, onde todos esperam "chegar lá", isto é, fazer parte da mesma podridão.

Não estará nestes primórdios da nossa história a origem do famoso "jeitinho brasileiro", uma atitude hipócrita perante a vida que nos faz aceitar qualquer imundície como se fosse inteligência? Que nos permite desrespeitar qualquer lei porque "ninguém mais respeita, e eu não serei um babaca enquanto os espertos fazem o que bem entendem e se dão bem"? Que nos faz ter uma das mais corruptas e imundas classes políticas de toda a história, criticadas pelos que querem apenas lá chegar para "se dar bem"?

O que este povo tem a conservar? Mesmo sendo contra o aborto, as drogas e a farsa do "casamento" gay, aceitarão facilmente que sejam instituídos, desde que lhe caiam à boca faminta umas quantas migalhas de "dereitos omanos" e possam dizer: "sou contra, mas o que é que eu posso fazer, se "eles" querem assim? "Eles" sendo um eufemismo para "aqueles que gostaríamos de ser".

Perguntaram-me ironicamente quais são os princípios da República. Não sei de outros, mas bastam-me os seguintes: "Acreditamos serem verdades evidentes por si mesmas que todos os homens nascem iguais e são dotados pelo Criador com certos Direitos inalienáveis, entre os quais a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade".

Se estes são direitos naturais, concedidos por Deus a priori, não podem ser objeto de discussão entre os homens, mas, ao mesmo tempo, torna-os responsáveis únicos e exclusivos por defendê-los.