Irm JOSÉ MAURÍCIO GUIMARÃES*
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PUREZA COM SERIEDADE : é possível
Já sabemos que o voto democrático e universal pode ter, na prática, suas deficiências, pode não ser lá essas coisas... Mas, ainda não descobrimos forma melhor para conduzir a sociedade de maneira igualitária e participativa.
- Foi muito difícil chegarmos até o ponto em que estamos. Houve "sangue, suor e lágrimas"!
Primeiro, a humanidade teve que vencer o medo dos poderes sobrenaturais e abaixar a cabeça para o trovão e o raio. Um grupo de feiticeiros e magos assumia o poder sob a alegação que os deuses da natureza e os propiciadores da caça, do plantio e da colheita comunicavam-lhes seus augustos desejos. Os povos primitivos sacrificavam donzelas e derramavam seu sangue nos campos para que não sobreviesse a fome.
Depois, um pouco mais esclarecidos, nossos antepassados tiveram que engolir a farsa de que os deuses - agora mais condescendentes - escolhiam uma família para governar as demais. Surgiram, assim, a nobreza, o clero e as “grandes famílias” - tão hilárias e absurdas quanto aquela do programa da televisão.
O voto livre chegou aos poucos... e, não obstante os abusos do “coronelismo” (poder ou influência de alguém na vida social), brilharam timidamente os primeiros raios do governo participativo. Todavia, muita gente ainda ficava de fora: “Todos” votavam, desde que "tivessem alma", poder aquisitivo, mais de 25 anos, não fossem escravos, nem mulheres, nem índios, nem assalariados. Noutras palavras: só votavam os preguiçosos, os exploradores e desocupados; só podiam ser eleitos os madraços, os biltres e os pelintras. Para se ter uma ideia, o primeiro país a garantir o voto feminino foi a Nova Zelândia em 1893. E, em 1897, a educadora britânica Millicent Fawcett fundou a União Nacional pelo Sufrágio Feminino. No Brasil, a primeira mulher a depositar o voto nas urnas foi uma indígena do tronco linguístico tupi, Celina Guimarães Vianna, no ano de 1932 – ou seja, há 78 anos atrás. É que nós, brasileiros, achamos que a pressa é inimiga da perfeição; assim fazemos as coisas bem devagarinho para ficarem justas ...
Mas, ainda não estamos salvos. Apesar de a lei determinar que "toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil", o jeitinho brasileiro introduz categorias de pessoas com vantagens especiais. Ainda não visualizamos com clareza o que determina o ordenamento jurídico pátrio no sentido de que “o estatuto das associações conterá as fontes de recursos para sua manutenção, o modo de constituição e de funcionamento dos órgãos deliberativos, a forma de gestão administrativa e de aprovação das respectivas contas.”
A questão está na composição dos diversos escalões do poder. Passadas as eleições - todo mundo rindo até as orelhas por ter depositado seu voto na urna – vem a composição dos malditos gabinetes. O Dicionário Aurélio define gabinete como “aposento ou compartimento mais ou menos isolado do uso geral do resto da edificação, destinado a determinados trabalhos ou usos”. Isso mesmo: são compartimentos pouco frequentados pelos verdadeiros donos do poder – o povo. Gabinetes destinados aos maus usos e péssimos costumes. É nesses aposentos mal iluminados que funciona o poder, longe da vontade popular, onde maquinam-se coisas que visam o interesse sobrenatural do raio, do trovão, dos deuses e dos clãs privilegiados.
Os próximos passos para descobrimos a melhor forma de se conduzir a sociedade de maneira igualitária passarão em marcha por esses corredores e compartimentos mal iluminados. Primeiro, pelo voto livre (e isto requer educação e liberdade dos meios de comunicação); segundo: concursos para todos os cargos nas instituições – vence a competência; terceiro: nomeações fundamentadas no mérito e no notório saber mediante vasta e transparente documentação; quarto: prestação de contas – ampla e geral explicação e justificativas dos gastos financeiros perante os que contribuem para a manutenção do bem comum.
Esta é uma reflexão para os do futuro: nossos filhos e netos. Eles chegarão lá. Sei que vai demorar. Por enquanto, permaneçamos atentos e puros. Mas, questionemos sempre! - nunca aceitando explicações complicadas ou muito sobrenaturais. |