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André Augusto Castro
UnB recebe Thomas Skidmore
Brasilianista norte-americano esteve na universidade para falar sobre cotas para negros e políticas afirmativas para a raça negra
A Universidade de Brasília (UnB) discute atualmente a implementação de cotas específicas para o ingresso de estudantes negros por meio do vestibular. A aprovação ou rejeição da proposta está sendo antecedida por debates sobre experiências de discriminação afirmativa, como é a de cotas Para falar sobre o assunto e fazer uma comparação entre Estados Unidos e Brasil, a UnB recebeu, no final da manhã de sexta-feira, 20 de setembro, Thomas Skidmore, que falou sobre A Viabilidade de Remédios Legais para Injustiças Raciais.
Skidmore, diretor do Centro de Estudos da América Latina da Brown University (EUA), começou sua fala lembrando-se da primeira visita que fez a Brasília, ainda nos idos de 1969 e, bem humorado, pediu desculpas pelo português meio embolado. Em seguida entrou no assunto. Ele considera a política de cotas para negros uma iniciativa interessante para ação afirmativa, mas acredita que essa também é uma idéia controversa.
Ele explica que ela dá margem à interpretação de que se está tirando a vaga de um branco para dá-la a um negro e que isso cria um sistema de preferências, mas que isso não deve ser interpretado dessa maneira. "Estou surpreso com os acontecimentos recentes. Até o Governo Federal já determinou que haja 20% de pessoas de cor nas empresas", explica.
Skidmore considera a situação do Rio de Janeiro peculiar: lá a cota é de 40%. "Isso é um pouco demais, mas o processo de adaptação a já começou. A situação no Brasil é curiosa porque durante muito tempo houve consenso sobre as relações raciais", diz. Segundo ele, a ausência de pessoas negras nas instituições era explicada pela falta de formação dos negros e que a elite branca acreditava que isso era problema do indivíduo e não social. "Era fácil: culpavam a vítima", afirma.
MUDANÇAS - De acordo com Skidmore, até a década de 70, o censo não fornecia dados que facilitassem a documentação do racismo porque os militares reprimiam as análises. "Durante mais de 20 anos a elite branca simplesmente ignorou esses fatos", afirmou ao dizer que Fernando Henrique Cardoso foi o primeiro presidente do país a reconhecer que aqui há racismo.
Para Skidmore, a imagem de que o Brasil é um país de aceitação racial caiu por terra se comparada à dos Estados Unidos, que sempre foram vistos como um país racista. Ele explica que os EUA sempre tiveram boas coisas, como as indústrias, mas tinha racistas que matavam negros. Isso mudou com o fim das Leis de segregação. "Preconceito racial é atitude, a pessoa fala, escreve no papel. Discriminação é o comportamento que causa problemas", define.
BRASIL X EUA - Skidmore aponta que a diferença que tornava o Brasil um país mais humanitário não existe mais e que os negros dos EUA estão em todas as camadas sociais e têm participação econômica. "É necessário intervir no sistema para criar ações afirmativas. Se isso não for feito, a situação será mantida", alerta.
Mas Skidmore mostra que não foi fácil fazer isso: "Teve intervenção do governo federal norte-americano em cidades como Little Rock, no estado do Arkansas, em que o exército foi acionado para garantir o bem estar dos estudantes negros".
Para o historiador, a política funciona bem nos Estados Unidos e ajuda ao menos no sentido de incluir a população negra qualificada na sociedade. "A questão não é fazer os brancos gostarem dos negros e sim permitir a entrada da comunidade negra na sociedade", explica.
Mas, ressalta Skidmore, falar sobre raça no Brasil é mexer com valores culturais profundamente arraigados na elite branca. "A idéia não é criar totalidade com a integração, mas sim o multiculturalismo onde um existe ao lado do outro. O Brasil precisa encontrar uma solução brasileira e ao menos esse processo já começou", comemora. |