|
Irm.
Marcos Coimbra ( * )
Estamos
no limiar do terceiro milênio. O mundo passa por profundas
transformações. Da bipolaridade existente
entre a URSS e os EUA passamos à hegemonia de uma
nação única, os EUA, porém coexistindo
com uma multipolaridade econômica. O mundo dividiu-se
em grandes blocos, os BER (blocos econômicos regionais):
CEE, NAFTA, ÁSIA, o que restou do COMECON. A América
do Sul e, em particular o Brasil, procura inserir-se soberanamente
nesse contexto, com a criação do Mercosul,
de dimensões modestas, diante dos gigantes enunciados.
Mas o objetivo é atrair os demais países da
América do Sul, a fim de transformar o Mercado Comum
do Cone Sul no Mercado Comum da América do Sul.
No Brasil, vivenciamos a mais grave crise da história
pátria. Apesar de possuirmos inúmeras condições
para sermos uma das potências mundiais emergentes
do terceiro milênio, ao lado da China, falta principalmente
vontade política para concretizarmos tal objetivo.
Somos detentores de abundantes recursos naturais, de um
território continental, de um povo maravilhoso, porém
não temos sido felizes na escolha de nossas administrações.
Aliás, a rigor, elas têm sido impostas através
do uso intenso da mídia amestrada, que só
expõe positivamente os candidatos patrocinados pelo
sistema financeiro, da manipulação dos resultados
dos institutos de pesquisa de opinião pública
e de eleições sem a devida fiscalização.
Daí resulta que a atual administração
escolheu, de início, uma forma de inserção
dependente e não soberana no mercado internacional.
Não temos independência na condução
de nossos destinos, pois a atual administração
optou por enquadrar-se no rígido modelo determinado
pelo FMI, o qual não foi bem sucedido em nenhum país
do mundo que o tenha adotado. Pelo contrário, no
momento, a Malásia, que rompeu com este sistema,
é um dos países que tem obtido maiores índices
de crescimento do produto real.
Na expressão política, não encontramos
partidos que possuam as mínimas condições
para exercer o seu papel principal de intermediários
entre o povo e o governo, com raras exceções.
Não possuem ideário, tábua de valores,
doutrina, princípios programáticos bem definidos.
E quando os possuem, não os aplicam. Na realidade,
o seu verdadeiro objetivo é assumir o poder, não
como um meio para alcançar os objetivos nacionais
permanentes, mas sim como um fim para auferir benesses e
vantagens. A Nação foi dividida em "capitanias
hereditárias", onde cada região ou estado
é dominado por um "cacique" ou por uma
plutocracia, combinando não só o poder político,
como o econômico e o controle dos meios de comunicação
de massa. Desta forma, são imbatíveis eleitoralmente
falando, perpetuando-se no poder e transmitindo-o de pai
para filho(a), ao longo dos tempos. O Poder Executivo legisla
por intermédio de medidas provisórias, usurpando
a função do Poder Legislativo e procurando
controlar o Judiciário, configurando uma verdadeira
ditadura constitucional monolítica. E o sistema já
está preparando a figura do sucessor, através
da apresentação de dois ou três candidatos
que, apesar de aparentemente independentes e de oposição,
servem aos mesmos interesses, os da tri-lateral e de seu
representante nas Américas, o Diálogo Interamericano
e, em conseqüência, ao Consenso de Washington.
Na expressão econômica, as previsões
mais otimistas, de economistas ligados ao governo, apontam
um crescimento da economia em menos de 4% em 2000, após
um ano de estagnação econômica. É
bom lembrar que um resultado abaixo de 1%, positivo ou negativo,
possui, na prática, o mesmo significado. A atual
administração persiste na tresloucada idéia
de privatização selvagem, em atendimento aos
interesses externos. Nossas principais riquezas e empresas
continuam a ser "doadas" a preços aviltantes,
aos alienígenas. Nossa infra-estrutura econômico-social
continua sendo destruída. As comunicações
já foram entregues. Antes, havia a Embratel, estatal
que garantia a qualidade do setor, investindo em pesquisas
e cobrando preços razoáveis. Hoje, está
entregue a uma empresa estrangeira americana, a MCI. Os
preços sobem alucinadamente e os serviços
pioram. O transporte, em grande parte sob o regime de concessão
ou permissão, é um setor onde os empresários
privados atuam em cartéis, dominando o mercado e
livres de uma efetiva fiscalização. As principais
rodovias e estradas vão sendo privatizadas e seus
felizes concessionários cobram pedágios extorsivos,
como o caso da Via Lagos, que extorque inexplicáveis
R$ 13,40 (ida e volta) a cada fim de semana. Até
os aeroportos estão ameaçados de privatização.
O problema é que, continuando o mesmo padrão
dos outros setores, vão ocorrer falhas graves. A
diferença é que, ao invés do estrago
de um eletrodoméstico, vão começar
a cair aviões, com centenas de vidas em jogo. Mas
as autoridades também viajam de avião. A energia
também está sendo entregue. A distribuição
já foi. Agora, querem "doar" a geração
e transmissão, esta última quando e se for
lucrativa. Até cometem a insanidade de tentar vender
Furnas, uma das jóias da coroa. E os estrangeiros
que, é lógico, serão os compradores,
não estão interessados em investir. Querem
comprar, com recursos do BNDES, o que está pronto
e lucrar, demitindo funcionários, aumentando preços
e deteriorando serviços. As conseqüências
são previsíveis. Falta de energia. "apagões",
enfim o inferno que está ocorrendo nos outros setores
privatizados. Os combustíveis vão subir de
novo e o BNDES vai preparando a Petrobras para ser privatizada.
O depósito compulsório atinge 55% dos depósitos
à vista, a taxa de juros arbitrada pelo Bacen continua
elevada, em 16,5% ao ano, os juros cobrados pelo sistema
financeiro aos cidadãos chegam a ultrapassar 200%
ao ano. A dívida interna ultrapassa R$ 500 bilhões
e a dívida externa chega a US$ 240 bilhões.
Só de juros da dívida o país deve pagar,
no presente ano, cerca de R$ 80 bilhões. Ao setor
externo deverá pagar, como em 1999, algo em torno
de US$ 25 bilhões de juros, lucros e dividendos,
montante equivalente ao ingresso total de capital externo,
a título de "investimentos diretos". É
o preço da desnacionalização de nossa
economia, antes brasileira. O déficit público
nominal ultrapassa 8% do PIB e o saldo do balanço
de pagamentos em transações correntes será
deficitário em torno de US$ 26 bilhões. Os
preços são brutalmente elevados. Os índices
oficiais de inflação não refletem a
realidade diária. O IPCA e o INPC ultrapassam, nos
doze últimos meses, a meta de 6% de taxa de inflação
ao ano fixada com o FMI. O IGP-M, no mesmo período
de tempo, supera 15% ao ano.
Na expressão psicossocial, o desemprego continua
elevado, em torno de 17,3% da população economicamente
ativa (PEA), com um total de mais de 75 milhões de
brasileiros, segundo o DIEESE. Não é exagerado
supor que o Brasil possui atualmente cerca de 12 milhões
de trabalhadores desempregados ou parcialmente desocupados.
A saúde pública é sucateada ao paroxismo.
Não há dúvida de que é a preparação
para a privatização. Atualmente, quem não
tem um plano particular de saúde está condenado
à indigência. Está fadado à morte,
sem assistência médica adequada, sem dignidade.
E quem tem, apenas passou a ter aquilo que todos nós
possuíamos anteriormente. Assistência pública
de razoável categoria. A educação pública
também está sendo sufocada, com verbas cada
vez menores, para permitir a expansão do ensino privado.
O ministério da Educação utiliza critérios
altamente questionáveis para avaliação
dos cursos e das entidades de ensino superior. Os avaliadores
de hoje serão os reitores de amanhã. São
as leis do mercado. A insegurança cresce avassaladoramente.
E os "policiológos" de plantão,
ligados a ONGs internacionais e nacionais, como o Viva Rio,
procuram soluções esdrúxulas, como
o desarmamento dos cidadãos dignos e de bons costumes
e criação de uma polícia "boa"
e outra "ruim", ao invés de cumprir seu
dever, realizando o que o povo deseja: reduzir a criminalidade.
Os bandidos vão bem, obrigado, e deliciam-se com
a incompetência das autoridades. A previdência
pública está sendo aniquilada, para permitir
o domínio do setor pela iniciativa privada.
Na expressão militar, o sucateamento imposto às
Forças Armadas, os baixos salários e a crescente
perda de sua capacidade operacional, em conjunto com a criação
do ministério da Defesa, impossibilita-as, na prática,
de cumprir suas missões constitucionais, como a manutenção
da integridade do patrimônio nacional. A Amazônia
corre sério risco de internacionalização
e nossas Forças Armadas não têm condições
de, numa guerra convencional, mantê-las, segundo declarações
de seu ex-comandante.
Infelizmente, esta é a análise possível
de ser feita, com um mínimo de critério, isenção
e imparcialidade, ao final deste ano. Contudo, nem tudo
está perdido. O bravo povo brasileiro cansou de dar
provas concretas, no passado, da sua capacidade de superar
condições adversas, ultrapassá-las
e retomar o caminho inexorável do desenvolvimento
e da segurança, capazes de levá-lo a atingir
a ordem e o progresso, a fim de ser a potência do
terceiro milênio.
|