|
Irm. Marcos Coimbra ( * )
Artigo escrito em 21.08.2001 para o M Mercantil.
O presidente
do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Paulo Costa
Leite, respaldado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), Marco Aurélio Mello, declarou, em discurso
no encerramento do IV Congresso de magistrados estaduais,
em Bento Gonçalves (RS), que há Estados que
devem precatórios há mais de dez anos. Afirmou
ainda: "Litigar com o governo virou um jogo de faz-de-conta,
o sujeito ganha, mas não leva. E o pior, entra na
fila dos famigerados precatórios (dívidas
judiciais)". E, mais: "Isso não só
ofende o direito das pessoas, mas desgasta a imagem e a
credibilidade do Judiciário. Porque o cidadão
comum não sabe que a Justiça apenas determina
a inclusão do precatório no orçamento,
o seu pagamento nada tem a ver conosco. A persistir essa
situação, o melhor é dizer que o cidadão
não tem direito à ação contra
o Estado". Já o ministro Marco Aurélio
salientou que tramitam no Supremo mais de 3.000 processos
contra a União, Estados, Municípios, Autarquias
e Fundações Públicas pelo não
pagamento de precatórios. Afirmou ainda que: "O
argumento de que não existe dinheiro é improcedente".
São dois depoimentos da maior importância,
pois pronunciados pelos dois mais significativos representantes
do poder Judiciário, não só na qualidade
de presidentes dos dois principais órgãos
daquele poder, como também pelos exemplos dados,
através de suas sentenças independentes. São
duas personalidades que engrandecem o Judiciário,
colocando-se a altura dos seus inesquecíveis antecessores.
Homens incorruptíveis, capazes de enfrentar com coragem
o poder das armas e de toda espécie de pressões.
Pena que sejam exceções no atual contexto
brasileiro, em especial no Judiciário. Identificamos,
por exemplo, a sinistra tradição de ser a
Suprema Corte preenchida por pessoas indicadas pelo presidente
da República e aprovadas pelo Congresso, quando deveriam
ser eleitas pelos seus pares, dentre os desembargadores
e juízes mais competentes. Desta forma, temos até
a excrescência de a imprensa afirmar que existe até
a figura do líder da administração
FHC no Supremo, numa bancada de dois representantes, além
dos simpatizantes, ansiosos em aderir aos detentores do
poder político.
A recente votação da inconstitucional proposta
da administração FHC no relativo à
energia pelo STF, onde apenas dois ministros cumpriram seu
dever, mostra bem o fato de o julgamento ter sido político
e não técnico. É também sabida
a pressão exercida pela atual administração
junto às principais cortes no país, não
satisfeita em dominar o Legislativo. No Tribunal Superior
do Trabalho (TST), já existe um entendimento firmado
pela maioria dos integrantes daquele Egrégio Tribunal,
através de jurisprudência, a partir de 95/96,
no sentido de negar provimento às demandas judiciais
dos empregados do Banco do Brasil contra a Instituição,
convencidos pelo falacioso argumento de que os funcionários
do Banco do Brasil são "marajás",
ganhando já muito, privilegiados no universo de trabalhadores,
não merecendo obter os direitos a que fazem jus,
por exemplo, no relativo a horas extras e reajustes de comissões.
Assim, não ganham mais. Se ganharem, não levam.
Há uma ação antiga em curso contra
o Banco do Brasil, relativa à equiparação
salarial com o pessoal do Banco Central (40%), já
ganha, mas que só alguns bancários de pequenas
cidades, graças à atuação de
juízes de coragem, conseguiram receber. Só
no Rio de Janeiro existem cerca de 8.000 funcionários
esperando há anos o recebimento do que lhes é
devido.
Infelizmente, fica confirmada a tese de que vivemos numa
falsa democracia, pior do que numa ditadura declarada, pois
solerte, aparenta ser o que não é, apoiada
pela cumplicidade da mídia amestrada e pela ingenuidade
da massa. Um povo carente no referente ao atendimento de
suas necessidades básicas em saúde, educação,
segurança, energia, transportes, comunicações,
sobrevivendo em uma economia estagnada, onde o emprego é
escasso, os salários reais diminuem, a inflação
estoura as metas fixadas com o "patrão",
representado pelo FMI. Sem expectativa de melhora, observa
a destruição do Estado Nacional Soberano,
a desnacionalização da Economia, a venda/doação
do patrimônio nacional, o pagamento de R$ 120 bilhões
de juros da dívida interna e de US$ 28 bilhões
de déficit do balanço de pagamentos em transações
correntes. Um consumidor que só possui o direito
de não ter direito. Onde todo o poder está
na mão dos empresários, em especial dos estrangeiros
e onde o povo não tem a quem recorrer. Só
lhe resta sonhar que vive numa democracia, onde alguns são
mais iguais do que outros.
|