|
Irm Marcos Coimbra
Todos os estados brasileiros
estão em ebulição com a eclosão
da campanha eleitoral para presidente, governadores, senadores
e deputados federais e estaduais. Está em plena vigência
a possibilidade de recandidatura dos atuais detentores do
poder estadual, sabiamente alcunhada de reeleição,
pelo povo, pois é muito difícil um governador
no exercício do cargo, sem necessidade de pedir licença
ou desincompatibilizar-se, com pleno domínio da máquina
administrativa, perder a eleição.
Recursos financeiros, escassos para os outros candidatos,
são abundantes para os que estão no poder.
As empreiteiras e fornecedoras dos órgãos
estaduais são pródigas em concessão
de doações aos atuais governadores, interessadas
em ganhar licitações e concorrências
milionárias, hoje e na expectativa do amanhã.
São ainda milhares de cargos em confiança,
ao dispor de S.EXA. Os comissionados sabem que perderão
seus cargos, caso não se engajem na sua postulação
a permanecer no cargo.
E a legislação eleitoral é tão
rígida que obriga qualquer servidor público
a afastar-se do cargo, noventa dias antes do pleito, para
evitar a possibilidade de utilização do cargo
para influenciar eleitores. Agora, com a aprovação
da emenda constitucional que permite a recandidatura, o
presidente da República, os governadores e os prefeitos
podem permanecer em seus cargos.
E o limite que separa a atuação lícita
do governador, por exemplo, e sua ação como
candidato é tênue. E a justiça eleitoral
fica em dúvida, pois ela aplica a lei formulada pelo
Congresso que é, propositadamente, omissa. Na dúvida,
quase tudo é permitido.
E a atuação da mídia também
é altamente preconceituosa. Há ligações
incestuosas entre proprietários de veículos
de comunicação, bem como de editores, jornalistas
e vários candidatos, em especial aqueles que estão
no poder, com o privilégio de destinar verbas vultosas
de propaganda e publicidade, da ordem de centenas de milhões
de reais para quem desejar. Desta forma, basta acompanhar
o noticiário diário das revistas, jornais
e TV, para verificar quem apóia quem. Há candidatos
que ocupam meia página, com direito a foto, todos
os dias, com destaque para as atuais autoridades no exercício
do cargo. Outros aparecem de vez em quando. Os demais são
candidatos secretos. Só aparecem quando é
obrigatório ou para serem atacados.
Assim, fecha-se um círculo vicioso. Os candidatos
detentores de maiores recursos aparecem mais nos meios de
comunicação e na propaganda eleitoral. Os
"outdoors" são democraticamente sorteados,
porém quem não tem recursos próprios
ou dos empresários, não consegue pagar seu
aluguel, sendo obrigado a abrir mão deles para os
abastados, que acabam ficando com todos. A seguir, os institutos
de pesquisa, realizando seu mister, apuram o óbvio,
isto é percentual maior para os "riquinhos"
e menor para os demais, às vezes nem citados, ou
mencionados com percentuais ínfimos. Como a maioria
das pesquisas é paga justamente pelos que possuem
recursos em abundância, as diferenças são
acentuadas. O povo, geralmente, não aprecia votar
em candidato que não tem condições
de vencer, votando nos que estão na frente nas pesquisas,
fechando-se o círculo vicioso, não virtuoso.
O horário gratuito eleitoral também não
é igualitário. O tempo destinado aos candidatos
a presidente e governador é calculado em função
da bancada federal de cada partido, não no dia da
promulgação do resultado, mas sim numa data
aleatoriamente escolhida pelos políticos, de acordo
com sua conveniência. E as alianças eleitorais,
por milhões de razões, nem sempre as mais
éticas, proporcionam a alguns candidatos mais de
sete minutos.
A outros, pouco mais de 30 segundos, por dia de apresentação.
Os debates são desprezados pelos candidatos que estão
na dianteira, com medo de mostrar sua fragilidade e cair
nas pesquisas. São as regras do jogo impostas pelos
oligarcas no poder. Em cada estado, não é
difícil prever o que vai acontecer. É a perpetuação
no poder, que se passa ao longo de gerações,
de pai para filho. E chamam a isto de democracia! Como sair
disto e conseguir obter uma verdadeira democracia? Surpresas
e acidentes de percurso acontecem, mas constituem exceções.
E o pior é a manutenção do famigerado
"voto eletrônico", onde o resultado das
eleições é apurado em curto espaço
de tempo, porém sem possibilidade de recontagem dos
votos, para comprovar sua validade. Apesar de todas as denúncias
procedentes e sérias formuladas, praticamente nada
foi mudado para estas eleições. Somente a
conferência em 5% das urnas, previamente escolhidas.
Desta forma, o sistema não é confiável
e coloca em dúvida a lisura de pleito tão
importante para o Brasil.
Urge a movimentação de todos os cidadãos,
em especial dos partidos políticos, no sentido de
alteração urgente das regras do jogo vigentes,
propiciando maior seriedade e transparência a todo
o processo eleitoral.
|