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Irm Marcos Coimbra*
Foi
aberta a temporada de caça ao contribuinte. De início,
a intensificação do processo de privatização
provocou a venda, a preços vis, de estatais brasileiras,
inclusive, estratégicas, a empresas estrangeiras,
algumas até estatais, com a promessa de que os usuários
passariam a ter acesso ao paraíso. Os preços
cobrados pelos serviços seriam baixos, haveria uma
concorrência acirrada, os serviços com padrão
de primeiro mundo, os alienígenas trariam investimentos
e o setor público arrecadaria mais, deixando de cobrir
prejuízos eventuais. Numa análise isenta do
realmente havido, nos últimos tempos, na economia
brasileira, diagnosticamos justamente o contrário.
Os recursos do exterior não vieram, os estrangeiros
utilizaram fundos do BNDES, houve a formação
de cartéis e até de duopólios e monopólios,
os preços subiram bem acima dos índices oficiais
de inflação e a qualidade do serviço
se deteriora a cada dia.
No setor
de comunicações, a MCI World, dona da Embratel,
passou a dominar as comunicações a longa distância.
Volta a ser o tormento de anos atrás comunicar-se
via telefone. E os descalabros agravam-se em nível
regional. O Brasil chegou até, há tempos,
a ficar isolado do mundo por várias horas. No setor
de gás, no Rio de Janeiro, a espanhola CEG impõe
à população a conversão de gás
manufaturado para gás natural, em função
de seus interesses comerciais, fruto da conveniência
de outras multinacionais, ocasionando danos consideráveis
aos consumidores. Um reparo de um mais simples vazamento
pequeno ocorrido na tubulação que abastece
a um apartamento no 10º andar não fica por menos
de R$ 750,00, além dos riscos de ficarem sem abastecimento,
de explosão e de acidentes até fatais, por
intoxicação. O consumidor fica indefeso e
precisa do socorro da ASEP (Agência Reguladora de
Serviços Públicos Concedidos).
No trânsito,
a indústria de multas progride a pleno vapor. Não
há interesse em educar e sim em arrecadar. No Estado
do Rio de Janeiro, em curto espaço de tempo, para
uma frota de 1.671.000 veículos, a secretaria municipal
de trânsito aplica 1.006.255 multas, faturando cerca
de R$ 30 milhões, o departamento de estradas de rodagem
(DER), 408.551 multas, correspondentes a mais de R$ 20 milhões
e a polícia rodoviária federal, 144.613 multas,
arrecadando quase R$ 9 milhões. São quase
R$ 60 milhões no total. Os "pardais" são
escondidos criminosamente, as placas, quando existem, são
camufladas, pois o objetivo é extorquir o contribuinte
e não prevenir. O governador do Estado aumentou o
valor do IPVA, que já é, inúmeras vezes,
maior do que o valor do IPTU, já muito elevado, em
1/3. E qual a função dos recursos oriundos
do pagamento do IPVA? Justamente a conservação
das ruas, estradas, rodovias. Basta olhar em torno para
verificar que isto não ocorre. Pelo contrário,
estão abandonadas, em péssimas condições,
provocando, inclusive, acidentes. E, ao mesmo tempo, vão
privatizando as rodovias no país inteiro, obrigando
os proprietários dos veículos a pagar pedágios
extorsivos que, por exemplo, no caso da via Lagos, chega
a R$ 11,40 (ida e volta), numa estrada de menos de 60 km.,
bem vulnerável. Imaginando o custo da conservação
da viatura, taxas de vistoria e outras, seguro (um dos mais
caros do país, em função da falta de
segurança), combustível (cada vez mais caro),
chega-se à conclusão de que um cidadão
comum não possui condições mais de
ter um veículo, mesmo modesto. Só os milionários
e políticos poderão usufruir deste privilégio.
E na
mesma onda, os prefeitos modificaram as regras de cobrança
do IPTU, decisão que provocou aumento real de cobrança
para alguns, diminuição para outros, mas na
média, é óbvio, resultou num aumento
da arrecadação. O interessante é que
sempre acontece isto. O inverso, a diminuição
da arrecadação, nunca acontece. E isto é
a imitação do que a administração
FHC realiza, com um desembaraço invulgar. Acabaram
de manter a alíquota maior do imposto de renda de
25% para 27,5%. E querem transformar o P de CPMF, de provisória
para permanente. Só em um ano, a administração
federal pretende arrecadar R$ 17 bilhões, apenas
de CPMF. E estas administrações, acostumadas
a caçar os contribuintes, são implacáveis
na perseguição à classe média,
principal pagadora dos tributos e contribuições,
enquanto são muito flexíveis em relação
aos poderosos. Cooptam os seus respectivos legislativos,
conseguindo aprovar o que querem. Estão acuando de
tal maneira o contribuinte que este será obrigado
a recorrer à justiça e, até mesmo,
à desobediência civil.
De fato,
a solução principia pela diminuição
das alíquotas tributárias, pois a carga tributária
bruta no Brasil é insuportável, atingindo
cerca de 32% do Produto Interno Bruto, de modo a aumentar
o universo de contribuintes e aumentar a arrecadação,
combatendo duramente a sonegação. Segundo
o Dr. Oziris Lopes Filho, ex-secretário da Receita
Federal, a cada real arrecadado corresponde, em média,
um real sonegado. Assim, o volume de recursos sonegado anualmente
ultrapassa a ordem de R$ 100 bilhões. Diminuindo-se
a sonegação pela metade, o Setor Público
teria cerca de R$ 50 bilhões para investir na infra-estrutura
social. E não é necessário "doar"
nenhuma estatal.
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