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Irm Luigi Comunello
Loja Amor e Caridade IV
Or .'. de Porto Alegre - RS
Ninguém ocupa de modo mais idôneo o seu lugar na grande sociedade do que aquele que pode estender o olhar para além do próprio posto, aquele que não vê apenas o seu lugar, mas também intui e contempla a linha sutil de separação que, ultrapassada,
o faz penetrar na grande sociedade" Fichte.
Quando, com indisfarçável ansiedade, nos deparamos com a face mais obtusa e irracional da natureza humana, vendo perpetuarem-se a injustiça e a desigualdade entre os homens, disseminar-se a descrença e a desesperança, a despeito de todo o desenvolvimento tecnológico e cultural da sociedade atual, somos tentados a fazer ilações entre os acontecimentos do cotidiano e a ação maçônica subjetiva. Somos mesmo levados, talvez pelo imediatismo de nossa indignação, a questionar os seus métodos, a desacreditar de seu discurso e a abandonar sua prática, deixando-nos cegar pela passionalidade das nossas posições e pela intransigência das convicções que momentaneamente permeiam nosso espírito, transformadas em verdades definitivas.
Perdemos, assim, a visão crítica da história maçônica e sua evolução constante, pois ao nos deixar abater pela superficialidade dos fatos, esquecemos de buscar, na meditação consciente da realidade, o seu sentido mais profundo,
No filósofo alemão Fichte, vamos encontrar uma afirmação desta situação peculiar. Na verdade, a Maçonaria não pode se propor a nenhuma das finalidades às quais já se dedica notória e abertamente algumas das classes; nem pode seguir a orientação e ordenamento existentes na sociedade humana, pois que em tal caso seria supérflua, desejando fazer aquilo que se verifica sem ela. E questão de mera usurpação pretender fazer melhor, como ocupação secundária, aquilo que outros não podem fazer melhor como ocupação principal.
Embora pareça contundente, a colocação do filósofo, uma vez meditada, nos permite compreender as inúmeras façanhas e realizações da ordem maçônica, ao longo da história, ainda hoje tão decantadas e tão pouco compreendidas.
Não existe um, sequer, destes acontecimentos, que não tenha resultado de um processo de renovação, da vitória do novo sobre o antigo, da audácia de, muitas vezes, antecipar-se aos anseios de seu tempo, propor e lutar por alternativas, opções e fórmulas absolutamente
progressistas e renovadoras. Quantas e quantas vezes os maçons transformaram-se em mártires de suas causas, pelas circunstâncias e pelo inusitado de suas idéias e ações? Nossa história maçônica não contempla lutas voltadas ao retrocesso, ao arbítrio ou à ambição, muito embora estas tenham ocorrido, remetidas que estão, pelo seu anacronismo, ao mais completo esquecimento.
A questão, pois, claramente insinuada pelo insigne mestre alemão, tem a ver com a eterna possibilidade mitológica da Phoenix, renascendo de suas próprias cinzas. Onde, então, buscar as forças vivificadoras, capazes de potencializar o espírito empreendedor, necessário à construção da realidade nova? Onde poder-se produzir urna verdadeira catarse da cultura de classes, parcial e destrutiva, transformando a numa cultura universal, igualitária, progressista e fraterna? Onde poder refugiar-se do massacrante martelar do sistema, ao qual, atrelados, nos aprisiona? Onde senão na boa interpretação do método, no aprofundamento do seu discurso e na serena condução de sua prática?
Quantas vezes, nestes séculos, terão muitos desacreditado desta realidade, terão todos voltado as costas para a aparente letargia da Ordem e dos trabalhos nos Templos? E, quantas vezes, terão depois retornado, convictos de seu temporário erro?
Temos também nós, que sacudir nossas convicções mais arraigadas, de forma a poder entender Fichte quando diz:- Ninguém ocupa de modo mais idôneo o seu lugar na grande sociedade do que aquele que pode estender o olhar para além do próprio posto, aquele que não vê apenas o seu lugar, mas também intui e contempla a linha sutil de separação que, ultrapassada, o faz penetrar na grande sociedade".
Ocupemo-nos, como os Obreiros do passado, desta maravilhosa construção, ocupemo-nos da construção da nova realidade. |