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O Irm Frederico Guilherme Costa é autor da obra acadêmica "A Maçonaria e a Emancipação do Escravo", ed. Trolha, Londrina, 1999. O autor é um dos raros maçons brasileiros com titulação acadêmica na área historiográfica. Participou como palestrante na abertura do I Seminário de Estudos [MITOS E VERDADES: A MAÇONARIA NA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL] promovido pela Loja Universitária Dos Livres Pensadores, na UFMS, em abril de 2007.

 

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Maçonaria e Universidade I

 

 

 

 




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Imagem: Capa da obra, 
"A Maçonaria e a Emancipação do Escravo".

 

 

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Maçonaria e Universidade I

 

O Irm Frederico Guilherme Costa
04/09/2010

 

 

Damos por assentado que a maioria dos Maçons brasileiros está interessada pelo estudo sistemático e acadêmico da sua Ordem e atenta às idiossincrasias daqueles que se propõem a narrar os fatos nas diversas publicações hoje existentes. Entretanto, são muitas as controvérsias e raros aqueles que conseguem chegar à síntese. Deste modo, a Maçonaria brasileira corre o risco de permanecer distante das congêneres em boa parte do mundo, casa não se afaste definitivamente dos saudosistas da historiografia do início do século XX.

Temos procurado, notadamente a partir de 1992, levar a Maçonaria até a Universidade.

Estamos nos referindo ao primeiro curso de extensão sobre a História da Maçonaria, ministrado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, entre os meses de outubro e novembro de 1992. Além disso, temos esta coluna onde procuramos metodizar e teorizar os temas históricos, que de uma maneira ou de outra envolvem a Maçonaria.

Um dos principais obstáculos que encontramos na Universidade, quando tratamos da Maçonaria, é a enorme dificuldade de despertar o interesse dos acadêmicos por uma sociedade tão pouco conhecida, tão mal explicada, tão mal compreendida. Esta situação está diretamente ligada à pobre produção historiográfica. De um lado encontramos publicações uriferárias e do outro o antimaçonismo típico da década de 1920/30. São poucas as boas obras revestidas do esperado método, tão exigido no meio acadêmico.

Assim, neste artigo, pretendemos falar um pouco daquele curso de extensão que reuniu um número tão expressivo de interessados: – foram emitidos mais de 100 certificados de presença. O curso foi dividido em nove aulas teóricas, seguidas de debates. Para cada aula foi selecionada uma bibliografia básica seguida de cópias das transparências que foram utilizadas para melhor contextualizar a exposição. O objetivo principal era o estabelecimento de um método próprio para criar bases para uma pesquisa histórica crítica e sólida sobre a Instituição Maçônica.

Nas duas primeiras aulas discutimos as origens da Maçonaria. Tratamos das novas abordagens, das novas tendências e da própria gênese da Maçonaria brasileira. Nas aulas seguintes estudamos as influências doutrinárias, a questão da regularidade, as tensões e os conflitos com a Igreja Católica Romana e o antimaçonismo. Finalmente, fechamos o curso com a Maçonaria feminina, a literatura e a política maçônica.

Em agosto de 1994 a Editora Maçônica "A TROLHA" editou 5.000 exemplares do Livro "Maçonaria na Universidade", de nossa autoria, cujo conteúdo representa o conjunto destas aulas. A título de esclarecimento dizíamos que esperávamos que a obra permitisse vôo mais alto. Que os nossos pesquisadores deveriam propagar a nossa cultura, fosse nas Lojas, fosse nas Universidades brasileiras.

Os debates que se seguiram às aulas mostraram que a historiografia maçônica brasileira estava muito ligada àquela publicada no final do século XIX e inicio do XX, caracterizada por uma história cronológica e episódica; uma história linear que não tratava das durações múltiplas, nem fazia a necessária relação do evento com a estrutura e com a conjuntura; história dos grandes personagens, história elitista. Em síntese, uma história factual que precisava ser modificada. Na verdade, esbarramos na velha história política onde o fato político pretende explicar todo o processo histórico.

Essa historiografia, segundo José Honório Rodrigues, desconsidera questões essenciais para que se planeie um estudo fiel àquilo que efetivamente existiu, tais como as revoltas, os movimentos contestatórios, propondo muito mais a construção de uma filosofia da História do que a produção clara das hipóteses e da metodologia do trabalho.

O curso mostrou a urgência de um estudo de longa duração para romper com a história factual, episódica, como propôs René Rémond em seu livro clássico "A direita na França". No nosso caso, ficou patente a necessidade do estudo das diversas formas de sociabilidade, entre elas a Maçonaria, daí a conclusão de que resgatar a História da Instituição é uma tarefa árdua, pois trata-se de um mundo contingente e muito amplo.

Temos, ainda, o complicador das fontes desaparecidas ao lado do formalismo silencioso, próprio de uma sociedade, no mínimo, reservada.

O que mais surpreendeu quando acessamos as obras que se ocupam da Maçonaria, produzidas por historiadores Maçons ou não, foi a insuficiência de documentos primários e o uso quase constante de hipóteses como elemento de trabalho. Isto nos obrigou a trabalhar com determinadas fontes secundárias para tratar com esta insuficiência.

Assim, partimos de alguns importantes autores como Benimeli e Oliveira Marques para descobrir as características e importância das origens e do ideário da Maçonaria Moderna. Desta maneira, o estudo destas fontes permitiu responder aos questionamentos a respeito de determinado meio alternativo de sociabilidade preocupado com o humanismo e com o humanitarismo. Existe uma metodologia que se utiliza de fontes secundárias para reconstruir um tema. Seja ele uma Biblioteca, como demonstrou o livro do filólogo Luciano Canfora "Biblioteca Desaparecida" ou, no nosso caso, a especificidade de determinadas fontes secundárias da Maçonaria.

Permanece o sentimento na Universidade e nos nossos leitores de que estudar a Maçonaria apresenta diversas lacunas típicas de uma historiografia, na maioria das vezes, muito comprometida. Agora, se por um lado os documentos são garimpados como fósseis raríssimos, a originalidade da Sociedade aponta na direção de um estudo bastante interessante, que não deve ficar apenas naquele ministrado em 1992 na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Sem querer ser repetitivo, esperamos que outros alcem vôo mais alto e propaguem a nossa cultura, quer nas Lojas, quer nas Universidades brasileiras.

 

 

Irm Frederico Guilherme Costa
Or do Rio de Janeiro – RJ