| Destinado ao Consistório
P:.R:.S:. Paulo M. de Carvalho - Região de
Itapira - SP
Ir:. Antonio Carlos de Souza Godoi
Não
é objetivo deste trabalho dar uma lição a quem quer que seja e sim
o de trazer para uma reflexão mais profunda um dos mais sérios problemas
que afligem o ser humano: Saber ouvir!
A própria dimensão deste problema sequer é avaliada pois que gastamos
mais da metade de nosso tempo de vigília tentando nos comunicar
com as outras pessoas e metade dessa metade é gasta em ouvir; portanto,
a falha na compreensão desse processo causa enorme perda de tempo
e de oportunidade. Ouvir pela metade é como acelerar o motor do
carro com o câmbio em ponto morto; gasta-se combustível mas não
se vai a lugar nenhum. E causa também inúmeros conflitos tanto entre
os indivíduos como na sociedade e até mesmo entre nações. E, na
Maçonaria, dentro de Lojas também como se poderá concluir. No entanto,
esse problema sequer é novo; na verdade, é tão velho quanto o próprio
Homem pois até mesmo no Livro da Lei Moral encontramos citações
a respeito, feitas pelo Mestre dos Mestres, Jesus Cristo: "Quem
tem ouvidos para ouvir, ouça!" Antes de mais nada, é preciso definir
claramente um aspecto, qual seja o de que ouvir é diferente de escutar.
Este seria o uso puro e simples do sentido da audição e só não escuta
quem padece de alguma deficiência auditiva. Ouvir é mais profundo
que isso pois envolve a pessoa por inteiro e é um processo eminentemente
ativo, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa ser, isto
é, um processo passivo. Esse equívoco de compreensão tem sido a
causa de muita incompreensão, no ambiente maçônico, nos trabalhos
em Loja provocando problemas que poderiam ser facilmente contornados
se dominássemos melhor a arte do saber ouvir.
Acontece que todos nós, de modo geral, nos consideramos bons ouvintes
e essa presunção faz do ouvir a habilidade humana fundamental mais
negligenciada no campo da comunicação humana. O problema, portanto,
não é conseguir que as pessoas falem; o problema é conseguir que
ouçam! É inquestionável que a arte do ouvir lubrifica as engrenagens
da sociedade dos Homens, além de enriquecer a vida pessoal de cada
um. Ouvir bem apura nossa sensibilidade, permitindo-nos romper a
concha de isolamento criada pelo Individualismo - outra das características
negativas da nossa personalidade - e participar das experiências
e emoções alheias. Uma das maiores autoridades em Comunicação de
nossos tempos, Wendell Johnson, escreveu certa vez: Nossa vida seria
mais longa e rica se despendêssemos a maior parte dela na tranqüilidade
silenciosa do ouvir pensativamente. Somos um bando turbulento e
daquilo que chega a ser dito entre nós, muito mais passa desapercebido
e não ouvido do que se poderia imaginar. Temos, ainda, que aprender
e em grande escala a usar as maravilhas do Falar e do Ouvir em nosso
próprio e melhor interesse e para o bem de nossos semelhantes. Essa
é, ainda, a mais extraordinária das artes a ser dominada pelo Homem.
Ouvir é renunciar! É a mais alta forma de Altruísmo em tudo quanto
essa palavra signifique de amor e atenção ao próximo. Talvez por
essa razão a maioria das pessoas ouve tão mal, ou simplesmente não
ouve. Vivemos imersos em cogitações pessoais e é raro conseguirmos
passar algum tempo sem pensar em nós, pois quase tudo o que pensamos
é em termos de nós. Já ensinava Aristóteles, há dois mil anos: "Ninguém
é mais importante para Filon do que Filon", e esse ensinamento continua
válido até hoje porque o mundo gira em torno de cada um de nós.
O mundo individual de cada criatura é formado de palavras coletadas
desde a infância e tem as dimensões da própria criatura, deixando
de existir quando ela morrer. Nesse extraordinário mundo das palavras,
edificado dentro de nossas cabeças, agimos como formigas operosas
saindo incansavelmente de nossos labirintos rumo ao exterior para
trazer alimento. Trazemos palavras para os nossos depósitos.
E esse aprendizado incessante é feito, em grande parte, através
do ouvido. Ouvindo, aprendemos e assim tem sido através da História
onde, inúmeras vezes, ouvir tem sido a única maneira de aprender!
O bom ouvinte é raro, porque para ouvir outra pessoa temos que admitir
que aquilo que ela tem a nos dizer é mais importante que aquilo
que temos para dizer a ela. Para o ser humano, falar é ato positivo,
afirmativo; ouvir é ato negativo e consequentemente, obstinamo-nos
em não ouvir. Toda nossa formação, desde a infância, se estribou
e continua se estribando na falácia de que uma pessoa calada é problemática.
Insistimos com as crianças pequenas para que aprendam a falar logo
e nos esquecemos que para aprenderem a falar antes elas têm, necessariamente,
que ouvir! Foi por ouvirem a Cristóvão Colombo que Fernando de Castela
e a Espanha beneficiaram-se com a conquista e as riquezas do Novo
Mundo. Parte do sucesso da Igreja Católica, inclusive, deve-se à
Confissão pois grande parte das pessoas considera melhor Padre não
aquele que prega bem, mas o que sabe ouvir atentamente. Isso nada
mais é do que a colocação em prática do que ensinou São João (Capítulo
1, Versículo 19)
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