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Irm Reinaldo Aparecido Rozzatti.
Era uma vez um contemplativo. Não participava,
não se metia, não fazia, só contemplava. Na
infância, ficava sentado vendo os outros correrem e jogarem
bola. Na adolescência, ficava de pé vendo as meninas
passarem e nunca se aproximava. Nos bailes, ficava encostado na
parede.
- Você não dança?
- Eu? Não. Estou só olhando.
Ia ao cinema, ia ao futebol, era um espectador. Passeava. Olhava
as vitrines. Entrava nas livrarias e ficava folheando os livros.
Nunca comprava nenhum.
- O senhor?
- Obrigado. Só estou olhando.
Divertia-se com tudo que via.. Que mundo! Olhava um mendigo.
- Uma esmolinha!
- Eu? Não, só estou olhando.
Estudava uma mulher.
- Alô, bonitão. Vamos?
- Obrigado. Só estou olhando.
Tinha uma razoável fonte de renda não muito conhecida
por todos, talvez uma boa aposentadoria, que lhe permitia estar
em dia com seus credores, inclusive a Loj. Maç. Sempre contribuía
generosamente com a B. de Benf. Quando circulava a B. de Prop. era
sempre inquirido pelo Ir.
- Nada para depositar?
- Eu? Não, só estou olhando.
Ouvia atentamente a leitura dos trabalhos na Loj., examinava com
atenção a cópia que lhe era entregue. Na hora
da palavra, quando lhe perguntavam se tinha algum comentário
a fazer, limitava-se a dizer:
- Eu? Não, só estou olhando.
Quando era convidado a participar de grupos de trabalho, nunca aceitava.
- Eu? Não, só estou olhando.
Nos trabalhos de instrução, após a leitura,
quando lhe perguntavam sobre algo relativo ao assunto, respondia.
- Não sei. Só estou olhando.
A muito custo conseguiu ser elevado, mais por piedade dos IIr.,
que o admiravam pela sua assiduidade.
Via muito televisão. Da janela de seu apartamento via a rua,
as outras janelas, a lua. Uma vez viu alguém ser assaltado
na sua frente.
- Me ajude! Faça alguma coisa!
- Eu? Não, só estou olhando....
Às vezes se contemplava no espelho. Notava que estava envelhecendo.
Aquilo também o divertia. Não tinha nada a ver com
aquele corpo que se transformava por conta própria, sem a
sua interferência. Um dia, num dos livros que folheava e nunca
comprava, lera esta frase : "Nós não temos um
corpo, nós somos um corpo". Achou aquilo ridículo.
Ele não era o seu corpo. Apenas o habitava. Não era
nem o dono. Era inquilino. Não se importava com a sua deterioração.
Ele lá e eu aqui.
Quando perguntavam por que ele nunca tinha feito nada, por que ele
nunca participava ativamente dos trabalhos, nem nunca tinha aceitado
ocupar um cargo em Loj., limitando-se a assinar o L. de Presença
e a sentar quieto no lugar que lhe indicavam, respondia sorrindo
que era um assistente do drama humano e que não ficaria bem
subir no palco.
E então, certa noite, quando ele contemplava uma parede do
seu apartamento, bateram na porta. Era uma mulher toda de preto,
com uma prancheta na mão e uma lista de nomes que consultou
antes de dizer o nome dele. Era ele?
- Sou eu mesmo. Quem é a senhora?
- Eu sou a Morte.
- O quê?!
- A Morte. Vim buscá-lo.
- Deve haver um engano.
A Morte consultou a sua lista outra vez.
- Não. Não há nenhum engano. Está aqui
o seu nome, endereço, e a hora para vir pegar. Até
me atrasei um pouco, desculpe.
Como convencê-la que não era, que não podia
ser, com ele? O nome era de seu corpo, ela queria seu corpo. Não
ele. A Morte impacientou-se
- Vamos, vamos. Ainda tenho várias visitas para fazer nesta
zona.
- Mas não sou eu que a senhora quer, é o meu corpo!
Só estou olhando!
- Mas como? Levar o seu corpo sem levar você? Essa eu queria
ver...
E o contemplativo, já resignado, respondeu apenas:
- Eu também...
Suspirou, e caiu.
No dia seguinte a faxineira encontrou o seu corpo, mas não
ele.
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