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Or de São Paulo ARLS"Manoel Tarnovschi" Nº 3322 - GOSP

Adaptado de crônica de "Luis Fernando Veríssimo"

O presente Artigo Foi publicado na Revista "O CALHAU"

A PARÁBOLA DO CONTEMPLATIVO


Irm Reinaldo Aparecido Rozzatti.



Era uma vez um contemplativo. Não participava, não se metia, não fazia, só contemplava. Na infância, ficava sentado vendo os outros correrem e jogarem bola. Na adolescência, ficava de pé vendo as meninas passarem e nunca se aproximava. Nos bailes, ficava encostado na parede.

- Você não dança?

- Eu? Não. Estou só olhando.

Ia ao cinema, ia ao futebol, era um espectador. Passeava. Olhava as vitrines. Entrava nas livrarias e ficava folheando os livros. Nunca comprava nenhum.

- O senhor?

- Obrigado. Só estou olhando.

Divertia-se com tudo que via.. Que mundo! Olhava um mendigo.

- Uma esmolinha!

- Eu? Não, só estou olhando.

Estudava uma mulher.

- Alô, bonitão. Vamos?

- Obrigado. Só estou olhando.

Tinha uma razoável fonte de renda não muito conhecida por todos, talvez uma boa aposentadoria, que lhe permitia estar em dia com seus credores, inclusive a Loj. Maç. Sempre contribuía generosamente com a B. de Benf. Quando circulava a B. de Prop. era sempre inquirido pelo Ir.

- Nada para depositar?

- Eu? Não, só estou olhando.

Ouvia atentamente a leitura dos trabalhos na Loj., examinava com atenção a cópia que lhe era entregue. Na hora da palavra, quando lhe perguntavam se tinha algum comentário a fazer, limitava-se a dizer:

- Eu? Não, só estou olhando.

Quando era convidado a participar de grupos de trabalho, nunca aceitava.

- Eu? Não, só estou olhando.

Nos trabalhos de instrução, após a leitura, quando lhe perguntavam sobre algo relativo ao assunto, respondia.

- Não sei. Só estou olhando.

A muito custo conseguiu ser elevado, mais por piedade dos IIr., que o admiravam pela sua assiduidade.

Via muito televisão. Da janela de seu apartamento via a rua, as outras janelas, a lua. Uma vez viu alguém ser assaltado na sua frente.

- Me ajude! Faça alguma coisa!

- Eu? Não, só estou olhando....

Às vezes se contemplava no espelho. Notava que estava envelhecendo. Aquilo também o divertia. Não tinha nada a ver com aquele corpo que se transformava por conta própria, sem a sua interferência. Um dia, num dos livros que folheava e nunca comprava, lera esta frase : "Nós não temos um corpo, nós somos um corpo". Achou aquilo ridículo. Ele não era o seu corpo. Apenas o habitava. Não era nem o dono. Era inquilino. Não se importava com a sua deterioração. Ele lá e eu aqui.

Quando perguntavam por que ele nunca tinha feito nada, por que ele nunca participava ativamente dos trabalhos, nem nunca tinha aceitado ocupar um cargo em Loj., limitando-se a assinar o L. de Presença e a sentar quieto no lugar que lhe indicavam, respondia sorrindo que era um assistente do drama humano e que não ficaria bem subir no palco.

E então, certa noite, quando ele contemplava uma parede do seu apartamento, bateram na porta. Era uma mulher toda de preto, com uma prancheta na mão e uma lista de nomes que consultou antes de dizer o nome dele. Era ele?

- Sou eu mesmo. Quem é a senhora?

- Eu sou a Morte.

- O quê?!

- A Morte. Vim buscá-lo.

- Deve haver um engano.

A Morte consultou a sua lista outra vez.

- Não. Não há nenhum engano. Está aqui o seu nome, endereço, e a hora para vir pegar. Até me atrasei um pouco, desculpe.

Como convencê-la que não era, que não podia ser, com ele? O nome era de seu corpo, ela queria seu corpo. Não ele. A Morte impacientou-se

- Vamos, vamos. Ainda tenho várias visitas para fazer nesta zona.

- Mas não sou eu que a senhora quer, é o meu corpo! Só estou olhando!

- Mas como? Levar o seu corpo sem levar você? Essa eu queria ver...

E o contemplativo, já resignado, respondeu apenas:

- Eu também...

Suspirou, e caiu.

No dia seguinte a faxineira encontrou o seu corpo, mas não ele.