À Glória do Grande Arquiteto do Universo
À GLORIA DO GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO
ARLS Expansão da Luz nº. 35
Fiat Lux
Benemérita da Biblioteca Edgard Buytendorp do
Grande Oriente de Mato Grosso do Sul – COMAB
Comissão de Estudos e Pesquisas Maçônicas
“Et Sapientia”
Por: Ir.·. Rodolfo Rup
rrupp@terra.com.br
Or.·.de Dourados
GOMS - COMAB
O presente trabalho visa trazer ao debate um tema sempre bastante controverso: Quem escreveu a letra e a música do HINO MAÇÔNICO - Maçons Alerta – tende firmeza ...?
Na pesquisa, incluindo livros, rituais, regulamentos e a internet, encontrei os seguintes autores:
Letra |
Música |
D. Pedro I |
D. Pedro I |
D. Pedro I |
Alberto Costet Maschuiavelle |
D. Pedro I |
Alberto Costet Mascheville |
Cônego Januário
da Cunha Barbosa |
D. Pedro I |
Otaviano Bastos |
D. Pedro I |
Otaviano Bastos |
Otaviano Bastos |
Desconhecido |
D. Pedro I |
Desconhecido |
Desconhecido |
Obviamente só uma das hipóteses pode estar correta. Vou tentar ajudar a esclarecer.
A primeira referência que encontrei sobre o nosso hino, foi numa publicação do GOB de 1892 com o título: “Instrução do Grão de Aprendiz do REAA” Typ. e Lith. Pereira Braga. O original está na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (em loc II - 261, 1, 1, 1), na qual aparece, nas páginas 15 e 16 a letra na íntegra, com o título: QUADRINHAS e sem menção de autor.
Datado de 1896 encontrei nova edição do “Instrução do Grau de Aprendiz do REAA”, também Typ. e Lith Pereira Braga, e o original está na biblioteca do Palácio do Lavradio – Rio de Janeiro, nas mesmas páginas 15 e 16, voltamos a encontrar o nosso hino com o título de QUADRINHAS e continua sem autor.
Dois anos após, em 1898, o GOB publicou “O Cayru” escrito por Henrique Valadares (1852-1903) Typ. d’ A Verdade. O original está na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (em II - 418, 3, 22 n. 7 - 366.1). Nele novamente encontramos, nas páginas 50 e 51, a íntegra da letra, mas agora chamado de Hymno Maçônico”. Não consta autor.
Iniciei por aqui para deixar claro que em 1892 a letra já estava escrita com a redação atual e, em 1898 já ostentava a condição de hino, sem menção à autoria.
Vamos analisar as possibilidades de cada um dos personagens ser o autor da letra ou o compositor da música.
Otaviano Bastos, que escreveu “Pequena Encyclopedia Maçônica” publicada em um volume em 1929, e na página 295, Vocabulo Hymno... “e o GOB possui o composto pelo Imperador Pedro I, quando seu Grão-Mestre, cuja letra escreveu um Ir. desconhecido”. Na edição de 1952, publicada em 2 volumes, mantém o texto. Esse Ir. escreveu com outros autores o livro Maçônico do Centenário (1922), o qual não apresenta nenhuma letra ou música de hino. Logo, este hino não foi escrito por ele e nem musicado. A título de observação, Otaviano Bastos escreveu vários hinos maçônicos, entre eles, o de entrada e saída do Rito Brasileiro (Rituais do GOB e GOMS-COMAB).
Alberto Costet de Maschuiavelle e.·. ou Alberto Costet de Mascheville, provavelmente se refere a um mesmo personagem, visto que não foi possível encontrar nenhuma referência palpável na literatura maçônica nacional, estrangeira ou enciclopédias; e só encontrei, na internet, em vários sítios. O nome mais próximo encontrado foi Alberto Raymond Costet, conde ou visconde, depende da fonte, de Mascheville, personagem nascido na França em 1872, iniciado maçom na Loja Hermanubis em 1893 e que militou na maçonaria até 1909. Tinha boa formação musical. Foi para Buenos Aires em 1910. Dedicou-se ao Martinismo e lá fundou uma Igreja em 1919. Veio para o Brasil em 1923 e juntou-se à causa Martinista. Foi do grupo de Dario Veloso. Não creio que possa ter sido o autor, pois quando veio ao Brasil seguramente o hino já estava musicado, como ficará conclusivo mais adiante.
Cônego Januário da Cunha Barbosa, maçom de elite, participou da fundação do Grande Oriente Brasiliano e da reorganização da Loja Comércio e Artes em 1831, onde foi seu Venerável. Foi autor de vários hinos e odes maçônicas, e felizmente nos legou duas importantes obras: a primeira intitulada Quadro Histórico da Maçonaria no Rio de Janeiro, original na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (Cat. Ant. de Obras Raras Pop 32894) de 1833, no qual, das páginas 99 a 115 traz vários hinos e odes maçônicos seus e de outros autores; mas nada parecido com o de nossa pesquisa. Também editou no mesmo ano o Ritual da Loja Brasileira Comércio e Artes (Typ. Seignot-Planchet) do Rito Moderno, que nas páginas 71 e 72 traz a letra de dois hinos maçônicos, diferentes do “nosso”, e que narra serem de autoria do orador da Loja Reunião Ir. J. M. Da Silva e Alvarenga.
Como vemos, também não é do Cônego Januário a letra, pois se fosse, ela estaria entre as publicadas. E se fosse de D. Pedro I, eis que ambos foram contemporâneos do Grande Oriente, com certeza também estaria aí.
Vamos analisar as implicações com D. Pedro I.
O CAYRU - por Henrique Valadares:
É a mais importante publicação de instrução do GOB, quer por sua longevidade, quer por suas edições. Como já disse, é na edição de 1898 que pela primeira vez encontrei a letra do hino como tal e sem autor. Foram feitas outras edições; conheço a de 1936, e nesta aparece o mesmo hino sem autor da letra, mas sendo acrescentada uma partitura atribuída a D. Pedro I. Em 1953, temos uma nova edição com a mesma redação de 1936. Em 1966, outra edição, e nesta retiraram a partitura; já a letra é apresentada sem menção de autor como em 1898; logo, voltou a ser anônima.
BOLETIM DO GOB 1903:
No boletim do GOB, nº 02 de Abril de 1903 págs 139 e 140, encontrei pela primeira vez a música como sendo de autoria de Dom Pedro I, quanto à letra não há qualquer referência ao autor.
É interessante notar que o redator do Boletim na época era o Irmão Mario Behring e o Grão-Mestre Quintino Bocayuva.
DECRETO 603 DO GOB:
Muito interessante o decreto número 603 de 14 de Outubro de 1918 que no seu artigo primeiro diz: “Fica o Sob. Gr. Mest. autorizado a mandar abrir concurso para composição e escolha da nova letra para o Hino Maçônico Oficial, com música do Hino de Guatimozim”. Assinam: Nilo Peçanha, Gr. Mest.; Ticiano Corregio, Gr. Sec.; Mario Behring, Gr. Chan. O resultado do presumido concurso, se é que houve, não consegui encontrar. Algum irmão poderá ter melhores notícias.
DOM PEDRO I, MAÇOM:
Foi iniciado em 02 de Agosto de 1822, quando tomou o nome histórico de Guatimozim e fechou o GOB em 21 de Outubro do mesmo ano.
Como fonte, usei as atas do GOB e para não criar confusão, uso as datas em “Era Vulgar”, com correção pelo então calendário Adonhiramita: 01 de Janeiro correspondendo a 21 de Março; como era usado pelo Grande Oriente. Para evitar confusões como a que causou o Barão de Rio Branco, em suas Efemérides Brasileiras, em que usou a correspondência de 01 de Janeiro para 01 de Março, no que foi seguido por inúmeros autores a posteriori.
Nona Sessão - 02 de Agosto: Por proposta de José Bonifácio foi aprovado e iniciado na forma ritualística (D. Pedro I) ... Dentre os oradores, chamo a atenção para o seguinte trecho: “O Ir. Demócrito, Gr. Mest. de Cerimônias pedindo assim a palavra e transportado de jubilo que transluzia em toda Assembléia consagrou ao Gr. Arch. do Univ. um hymno que foi igualmente aplaudido...”.
O texto é claro. Quem recitou um hino ao G.·. A.·. D.·. U.·.foi o Ir.·.Demócrito, e não há nenhuma alusão de que o hino possa ser de D. Pedro I. Em todas as atas é a única vez que encontrei o termo “hino” ou qualquer referência a música ou ode de qualquer espécie. Será que se o imperador e Gr.·.M.·.houvesse composto ou escrito um hino, não constaria em ata?
Para melhor avaliar a participação de D. Pedro I na maçonaria, listo a sua participação, sessão por sessão, do Grande Oriente em 1822:
Nona sessão - 02 de Agosto – Iniciação
Décima sessão - 05 de Agosto – Foi conferido o Grau de Mestre
Décima primeira sessão - 13 de Agosto - não compareceu
De 14 de Agosto a 14 de Setembro - Viagem a São Paulo
Décima segunda sessão - 17 de Agosto - viajando
Décima terceira sessão - 04 de Setembro - viajando
Décima quarta sessão - 09 de Setembro - viajando
Décima quinta sessão - 15 de Setembro - não compareceu
Décima sexta sessão - 28 de setembro - não compareceu
Décima setima sessão - 04 de Outubro - foi investido como Grão-Mestre
Décima oitava sessão - 05 de Outubro - presidiu os trabalhos
Décima nona sessão - 11 de Outubro - presidiu os trabalhos
21 de Outubro - Suspendeu os trabalhos do GOB, por bilhete enviado a Gonçalves Lêdo.
Compareceu no total a cinco reuniões.
O APOSTOLADO - NOBRE ORDEM DOS CAVALEIROS DE SANTA CRUZ:
Foi fundada em 02 de Junho de 1822 por José Bonifácio, com a presença de D. Pedro I, o qual foi eleito Arconte-rei (equivale a Grão Mestre).
A organização era semelhante à maçonaria, possuía três Palestras (Lojas) que chamavam-se: “Independência ou Morte”, “União e Tranquilidade” e “Firmeza e Lealdade”. Seu quadro inicial era composto por 100 membros, divididos em: “camaradas”, “recrutas”, “escudeiros”, “cavaleiros” e “apóstolos”.
A finalidade, era primordialmente realizar a independência do Brasil, “mas ao invés de orientar e criar diretrizes aos que se achavam nos postos de comando, como pretendiam as Lojas Maçônicas, recebia deles a convocação e as normas de conduta”.
Segundo Teixeira Pinto “poucos sabem o que a nebulosa Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz, que mais tarde, a 02 de Fevereiro de 1823 passou a se chamar Apostolado, tinha por única função congregar elementos do partido Andradista e impedir o desenvolvimento do Grande Oriente.”
Interessante notar o que diz Kurt Prober sobre oito atas iniciais da Loja Esperança de Nicteroi-RJ e sobre doze ofícios do então GOB à referida Loja em 1822. Transcrevendo palavras do Kurt, do livro “Verdadeira História do Palácio Maçônico do Lavradio” página 87. “...pelo menos estão bem guardadas e trancadas na, URNA DO APOSTOLADO onde foram encontradas; o que significa que estas preciosidades estavam nas mãos de José Bonifácio, ao ser a papelada do Apostolado recolhida pelo Imperador D. Pedro I em 1823...”
Pergunto: Por que a papelada do Apostolado foi conservada e a do Grande Oriente, igualmente apreendida, anteriormente, em 1822, sumiu? Coincidência?
Qual seria a verdadeira entidade do Imperador?
Quero mostrar também uma assinatura de D. Pedro I em carta para D. Domitila de Castro (sua amante histórica à qual concedeu o título de Marquesa de Santos), escrita em 1827, e com a identificação do Apostolado (cinco pontos: quatro com um central). Ou seja, cinco anos após o fechamento do GOB, por sua ação, o seu coração continuava “Apostolado”(em A Vida de D. Pedro I – Octávio Tarquínio).
Hão que me perguntar o que isso tem a ver com o hino. Alguém só faz ou deixa de fazer alguma coisa se houver motivação, e na minha modesta opinião, D. Pedro I não teve nenhuma motivação e nem tempo para fazer o hino; além disso, naquela época, só se pensava e trabalhava na consolidação da Independência.
Aonde teria estado o nosso hino de 1822 a 1892? Temos que nos lembrar que possivelmente a primeira Loja ou Templo Maçônico a ter iluminação elétrica em nosso país foi o Palácio do Lavradio, em 1910. O som eletro-mecânico só tomou corpo na década de 30, e ainda assim precário. Então, do século XIX até quase meados do século XX, só havia coluna da harmonia ao vivo, e na época, com frequência, o titular era chamado de organista. Será que se houvesse um hino, tão importante, não existiriam centenas de cópias espalhadas pelo Brasil para uso das Lojas, ou mesmo cópias manuais das partituras? Será que nenhuma chegaria até nós?
Henrique Valadares foi Grande Secretário Geral do GOB por nove anos, a partir de 1890; sendo tão eficiente que em 1897 foi homenageado com os títulos de Benemérito da Ordem e de Grão-Mestre honorário. Em 1901 foi eleito Grão-Mestre Adjunto. Portanto, foi pessoa de enorme eficiência e bom senso e, sob suas mãos, saíram as três primeiras impressões do hino. As duas primeiras intituladas QUADRINHAS, como já mostramos; e a terceira em 1898, também já mostrada, e com “status” de hino. Em nenhuma consta o autor. Será que ele não publicaria, se soubesse? Ou se na fonte constasse? Outro fato curioso, também segundo Kurt Prober (pg. 75 do livro “Verd. Hist. do Pal. Maç. do Lav.”), informando que por ocasião das comemorações do Sesquicentenário da Independência, houve farta venda de souvenir “também havia um disco compacto 33 r.p.m. de um lado do disco há o hino da Independência, música D. Pedro I e letra Ir. Evaristo da Veiga... do outro lado encontramos a marcha-hino do sesquicentenário com letra e música de Luiz Gonzaga Bittencourt”.
Nada do nosso hino!!! Por quê???
Em momento algum da pesquisa encontrei qualquer indício, mesmo tênue, que possa favorecer a este ou aquele autor. Pareceu-me que todos surgiram do nada, nem sequer uma menção a documento ou outra coisa que possa sugerir um deles ter sido efetivamente o autor.
Assim sendo, na minha opinião, somente se aparecer algum documento nós teremos um hino que tenha autor. |