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AS RELIGIÕES
Cristianismo


 

 

 

 

Ercilia Simone Dalvio Magaldi

Remessa da parte do Irm
Joel Affonso

 

 


O cânon cristão levou cerca de 4 séculos para constituir-se, consiste nos 27 livros chamados Novo Testamento, em oposição ao Tanakh judaico, ou Antigo Testamento, e são objetos de grande pesquisa e discussão quanto sua autenticidade há mais de 500 anos.Os estratos mais antigos são as cartas de Paulo e datam de + ou – 60d.c., ao contrário, muitas das outras epístolas canônicas só foram escritas durante a primeira metade do século II, quando seus pretensos autores já não viviam mais.  Os Evangelhos também são tardios, os sinópticos, semelhantes (Mateus, Marcos e Lucas) podem ser situados em 3 colunas paralelas. O de Marcos é o mais antigo (+ ou – 70), e os outros 2 (+ ou – 80) seguem o de Marcos e uma outra fonte (Q). Um pouco antes do ano 100 chega-nos o Evangelho de João, mais esotérico, com elementos platônicos (assemelha Cristo ao Logos de Deus), contém também uma visão negativa do mundo com forte influência diabólica. Concepções essas comparadas a dos essênios de Qumran e a dos gnósticos, intelectuais desse período.

Jesus é uma figura singular na história, menos por sua biografia, que possui muitas semelhanças com a de outros iniciados, do que com a transformação que ele causou em toda Era subseqüente. Embora sua existência não possua comprovação histórica científica, uma vez que as fontes documentais de sua época não fornecem nenhuma informação sobre sua vida que só é conhecida através dos evangelhos, que, como vimos, não são contemporâneos, há breves comentários dos dois primeiros séculos como do historiador judeu Flávio Josefo e dos historiadores romanos Tácito e Suetônio, o que para alguns é suficiente para que Jesus não seja tido como simples personagem de ficção.

O mais curioso é que é inegável que Jesus se referia a Deus como ABBA (paizinho, pai querido), porém ele raramente fez menção, diretamente, quanto à filiação que lhe foi outorgada pelas gerações posteriores com forte influência platônica que viam nele a encarnação dos arquétipos. Fora chamado Filho do Homem, em aramaico significa, simplesmente, homem, enquanto que pelos discípulos fora chamado Messias (Masiah = messias = ungido = consagrado). Messias em grego é Cristos daí Jesus ter sido chamado Jesus Cristo, como reconhecimento de que ele era realmente o messias. Jesus também era chamado de rabi, que significa mestre ou professor.

Seus ensinamentos podem ser compreendidos em quatro grandes categorias:

- Pequenas máximas, por vezes paradoxais: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (Mateus16,25).
- Diálogos de Jesus.
- Discursos ou sermões.
- Parábolas.

A chave dos evangelhos (boa-nova) é a vida, morte e ressurreição de Jesus, e o ponto central dessa mensagem é fazer crer em Jesus como Senhor e salvador.

O dogma (doutrina) sobre Jesus afirma que era Deus e homem concomitantemente. Cristo, assim, não é apenas filho de Deus; ele é o próprio Deus. A teologia cristã chama a isso de encarnação: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (João1,14). Embora muitas passagens dos evangelhos mostrem Jesus orando ao Pai, e também temos em Paulo (final da epistola a Corinto): “A graça do Senhor Jesus, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós”, assim, no decorrer dos sécs. IV e V a Igreja desenvolveu a doutrina trinitária: Deus são três pessoas numa única divindade. Porém, nesta época o sentido do termo pessoa não era entendido como indivíduo, como  hoje o compreendemos. Pessoa era igual persona, a máscara, ou papel. Assim a divindade se apresentaria com uma persona para cada necessidade.

         Quanto as complicações relativas a compreensão acerca da TRINDADE,  Mircéa Eliade e Ioan Couliano escrevem: “Outra dimensão cristológica é formada pelas relações hierárquicas no interior da Trindade. A posição ortodoxa afirma que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três hipóstases (= substâncias, para os ocidentais, porém na filosofia religiosa em relação a Trindade significa Personas(1)) com a mesma substância (ousía) e a mesma energia (energeia). Entre as posições por ela excluídas estão o subordinacionismo, que pretende ser o Cristo inferior ao Pai; o pneumatomaquismo, corrente combatida por Basílio Magno no séc. IV, que pretende ser o Espírito Santo inferior ao Pai e ao Filho; o modalismo, segundo o qual o Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma única pessoa com três nomes diferentes, etc. A conseqüência do modalismo é o patripassionismo, que afirma que, uma vez que Cristo é Deus, o Pai sofreu e morreu na cruz com ele”. Fica evidente que tantas interpretações diferentes acabaram por fazer cindir várias igrejas.  

Mas o cerne no cristianismo é o fato de Jesus crucificado ser o redentor dos seres humanos. Ele sofre e morre no lugar dos homens, sofrimento vicário, assim Deus se reconcilia com o mundo e o pacto (testamento) é restabelecido. A expiação de Jesus, no entendimento de Paulo, é um presente à humanidade, que assim poderá ser salva = redimida, preservada, curada.

A salvação cristã não é apenas curadora, é  também libertadora e está além de um aspecto pessoal, ela abrange um sentido social e coletivo, é a salvação dos filhos de Deus para o Reino de Deus. Assim, Deus envia o homem à salvação eterna ou à danação eterna.  Essa é a  esperança e também o temor dos cristãos, não há meio termo. A aceitação ou rejeição, pelo homem, de Cristo e do oferecimento de salvação de Deus que irão determinar seu destino no Dia do Juízo.

No Novo Testamento a palavra para pecado é hamartia que significa “perder algo”, “trapacear com o próprio destino”, ou seja, permitir que o ego trapaceie o Self. A relação do ego com o Self é a relação do ego com a imago dei, O processo de individuação depende dessa relação, semelhante a comunhão do homem com Deus. O pecado, nessa compreensão, é o rompimento dessa comunhão, é a quebra da lei, quebra da santidade, da iniqüidade e apostasia, no sentido bíblico. Ou seja, pecado é o que separa o homem de Deus, o que separa o ego do Self.
Jerônimo (346-420) traduziu a Bíblia para o latim, a chamada Vulgata, que originalmente tivera seus textos escritos e soltos em idiomas diversos.

No começo os cristãos eram em grupo fechado e pequeno, passando com o tempo a uma grande expansão, principalmente, graças a Paulo. A personagem que mais marcou a história da Igreja em seus primórdios e influencia o mundo até hoje, sobretudo o mundo capitalista (se é que, infelizmente, exista algo, totalmente, fora dele) é Agostinho (354-430), que a princípio era maniqueu e vemos que essa influência continuou por toda a vida. A doutrina de Agostinho diz que todo homem é herdeiro do pecado original, cada um de nós, ao nascer,  só tem a liberdade de escolher o mal, mas com o auxílio da graça poderá optar pelo bem. Mas, a graça não é concedida a qualquer um, nem possui motivos conhecidos. É concedida por Deus, só a certos predestinados, e o número de predestinados é igual ao dos anjos decaídos. O restante pertence à massa dos rejeitados, ou massa perditionis, (desgraçados), e não participa da salvação. Diz ele que Deus decidiu, desde sempre, quem será salvo ou não, e envia a graça por decisão eterna. O Concílio de Orange (529) declara ortodoxa a concepção agostiniana, porém, o Concílio de Quiercy (853) rejeita a idéia de dupla predestinação (positiva e negativa), o que é determinado por Deus é a punição eterna, conseqüência da má escolha.
O cristianismo é a religião cuja filosofia de vida mais caracteriza a sociedade ocidental.

O Deus cristão é o senhor da história, criou o mundo e o conduz até sua redenção. Criou o homem para que este seja seu co-criador, criou-o a sua imagem e semelhança.
A Igreja se tornou mais ou menos única e indivisa até 1054, quando então se deu a divisão em Igreja Católica Romana e Igreja Ortodoxa. No séc. XVI ocorreu a Reforma protestante quando várias comunidades se levantaram em protesto contra o afastamento da igreja de Roma do que consideravam o verdadeiro cristianismo, surgiram as Igrejas Protestantes. O fundamento comum a todas elas á a Bíblia.

Existem cerca de 1 bilhão de cristãos no mundo, metade pertence ao catolicismo.

 

 

Continua