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Autor: Luís Antônio Giron
Gazeta Mercantil,
O
Brasil inteiro comemorou em 1994 os 40 anos do rock'n'roll.
O ritmo que alterou o comportamento mundial merece a homenagem.
Já o baião completou 50 anos em 1996 e ninguém
notou, exceto uma professora de língua e literatura francesas,
moradora de Poitiers, chamada Dominique Dreyfus. Ela viveu a
infância no nordeste do Brasil durante a eclosão
do baião e acaba de lançar, pela Editora 34, a
biografia do inventor do gênero, o cantor, sanfoneiro
e compositor pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989)
. "Vida de Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga'' é
o livro mais importante editado em 1996 sobre música
popular brasileira
Em 1987, Dominique entrevistou demoradamente
o músico, bem como parentes, amigos e colegas. O artista
abriu-lhe as casas e parte da alma. Para atender às perguntas
da ''biógrafa francesa'', como a chamava, Gonzaga hospedou-a
simultaneamente na residência senhorial de Exu onde vivia
com a esposa oficial, Helena, e no apartamento da amante, Edelzuita,
em Recife. A autora obteve informações inéditas
sobre o comportamento sexual do "Rei do Baião'',
sua coleção de amantes e atitude pública
hipócrita.
Era autoritário e farmacofrênico.
Despertou inveja dos conterrâneos e da família,
apesar de ter sempre auxiliado a ambos. Mas isso é o
que menos interessa na obra de Dominique. Ela atuou como pesquisadora
acadêmica e levantou documentação iconográfica
e jornalística e a discografia do músico, que
abrange 48 anos de produção ininterrupta. A leitura
da biografia é saborosa. O estilo irônico de Dominique
remete ao de Ruy Castro e Sérgio Cabral, sem abdicar
da precisão e de observações pertinentes.
Ela traça a gênese do baião e fornece a
dimensão correta de na MPB. Foi um gênio, cuja
contribuição deve ser analisada e discutida em
extensão. Mesmo que se concentre sobretudo na vida do
artista, a escritora dá pinceladas no tema da gênese
do baião e o desmistifica. Com o texto de Dominique já
é possível discorrer com mais segurança
sobre o estatuto metafísico do baião.
Ele pode não ter a importância
comportamental do rock, mas, na virada da décadas de
40 para a 50, desencadeou uma febre quase pop, além do
que produziu composições de alta informação
e beleza. A massa de fãs de rádio e freqüentadores
de dancings e boates da época sacudiu o corpo ao som
de "Juazeiro'' (1949), "Baião'' (1946), "Paraíba''
(1952) e até de "Asa Branca'', lançada como
toada em 1949, virando baião num "remake'' de 1952.
O samba, ritmo urbano até então dominante, teve
de se encolher para abrir alas ao remelexo e ao andamento dançante
e irresistível do baião. O roqueiro Raul Seixas
apontava semelhanças rítmicas entre rock e baião.
dizia: "O baião é o rock'n'roll brasileiro''.
Citava o compasso binário, o ritmo marcado
pela zabumba, lembrando o da bateria e do riff das guitarras.
Não é de todo errada a tese, já que, conforme
Dominique expõe, Gonzaga conhecia bem música americana
negra desde os anos 40, quando se mudou para o Rio. Dançava
até o boogie-woogie nos clubes do mangue carioca. O baião
serve como base rítmica para as primeiras obras de Gilberto
Gil e os manifestos debutantes da Tropicália.
A força
da influência do baião só se compara a da
Bossa Nova. Ao contrário do que parece, baião
não é um subproduto do folclore nordestino, mas
um gênero musical auto-suficiente -com programa estético,
ritmo, dança, moda, estilo de tocar e conteúdo
próprios- formulado na cidade do Rio de Janeiro pelas
lembranças de um único homem. Gonzaga inventou
outros ritmos, como o xamego (1941), o siridó (1948)
e o xaxado (1950). Apenas o baião se impôs, por
encerrar em si uma estética integral que lhe dá
universalidade. Pode até ser chamado de movimento, seguido
por gerações e gerações de músicos
do Nordeste, fiéis à inflexão gonzaguiana.
Gilberto Gil, por exemplo, prefacia a biografia, apresentando-se
como "discípulo e devoto apaixonado do grande mestre
do Araripe''. Afirma que a invenção de Gonzaga
se dá "graças a uma imaginativa e inteligente
utilização de células rítmicas extraídas
do pipocar dos fogos, de moléculas melódicas tiradas
da cantoria lúdica ou religiosa do povo caatingueiro,
de corpos narrativos, vislumbrados na paisagem natural, biológica
e psicológica do seu meio, e, sobretudo, da alquímica
associação com o talento poético e musical
de alguns nativos nordestinos emigrantes como ele, veio a inventar
um gênero musical''.
O programa do baião corresponde à
quase toda vida artística de Gonzaga. A primeira gravação
da música que lançou o gênero, "Baião'',
em parceria co Humberto Teixeira, saiu em outubro de 1946 pela
Victor num disco de 78 rotações. Os intérpretes
eram o conjunto vocal-instrumental 4 Azes e 1 Coringa, com acompanhamento
à sanfona do compositor. Um parêntese: este grupo
foi um dos prediletos do jovem João Gilberto, também
ele inventor individualista da Bossa Nova e autor de um baião,
"Bim-bom''. A música figura no lado B do compacto
78 rpm inaugural da Bossa Nova, lançado em julho de 1958,
cujo lado A era o samba "Chega de Saudade''. A letra diz:
"É só isso o meu baião/ E não
tem mais nada, não''. É um baião privado,
descarnado e apátrida, mas resume a criatura de Gonzaga
numa célula rítmica irredutível.
O mestre de Exu promoveu a migração
para o sul do espírito musical nordestino. O baião
é um retirante urbanizado, associado à norma culta.
Os maiores parceiros de Gonzaga fora um advogado especializado
em direitos autorais -o cearense Humberto Teixeira- e um poeta
e obstetra relativamente rico -o pernambucano Zédantas.
Desde criança Gonzaga se destacou da família,
por se vestir bem, ser vaidoso e imitar a fala dos patrões.
"Eu era metido a molequinho fino'', contou à biógrafa.
"Ele sempre gostou de se salientar'', declara sua prima,
Sofia. Fugiu de casa aos 16 anos por um motivo fútil
(briga com os pais) e serviu no exército. Participou
da Revolução de 30 e combateu o cangaceiro Lampião.
Este mais tarde viria a lhe inspirar o traje que usaria no palco,
com gibão e chapéu de vaqueiro de aba dobrada.
O contra-exemplo foi o cantor gaúcho Pedro Raimundo.
"Ele já tinha me influenciado porque sendo gaúcho
ele fazia tudo de lá, então eu tinha que fazer
tudo ao contrário dele. Mais uma vez ele me serviu, orque
usava bombacha, botas, chapéu gaúcho, guaiaca
e chicote. Então, eu achei que Pedro Raimundo era minha
base, comecei a pensar que tipo eu podia fazer''. Gonzaga nunca
ouviu falar em ansieade da influência... A sua foi a figura
do gaúcho, justamente o inimigo mais ferrenho do cangaço
de Virgulino.
O menino Lula (apelido na família) aprendeu
sanfona como paí, Januário, consertador do instrumento
e animador de forrós. Aliás, "sanfona'',
como afirma Dominique, era um termo usado no Rio. Gonzaga a
chamava de "fole'', concertina'', "pé-de-bode''
, "harmônica''. Ao chegar ao Rio veio a conhecer
o nome "sanfona'' e o direito autoral. "Eu só
vim a tomar conhecimento desta coisa, que quando você
inventa uma música no fole ela é sua aqui no Rio
de Janeiro'', depôs no Museu da Imagem e do Som.
O número dos baixos dos fole em que tocou
indica sua evolução musical. Abandonou em Exu
um 8 baixos. Levou na memória os cantos folclóricos
e a idéia básica do baião, nome usado pelos
repentistas para designar o intermezzo instrumental que pontua
e dá uma pausa de descanso entre as passagens cantadas.
Gonzaga tomou a célula rítmica reiterativa do
repente. No Rio, comprou de um marinheiro um acordeon de 60
baixos e tocou tangos, xotes, rancheiras, emboladas e polcas
na zona do Mangue, além de inventar o xamego. No auge
do sucesso do baião, quando voltou pela primeira vez
para casa dos pais depois de quase 20 anos, já exibia
um acordeon de 120 baixos.
O segredo do novo gênero está no
grande número de acordes. O baião nada mais é
do que a amplificação do volume e dos recursos
harmônicos das músicas de bailado da caatinga.
O vocabulário de oito baixos -oito acordes- progrediu
até chegar à gama tonal completa. O baião
é um xote cromático, executado com tempo forte
marcante, mas, ainda assim, sincopado. A euforia e os temas
característicos do foclore se transfiguram em matéria
de nostalgia. O baião tem quase sempre um travo de melancolia,
reforçado pela melodia abertamente modal.
Muitos acusaram Gonzaga de plagiário.
Ele confessa à biógrafa que se apropriou do folclore
nordestino para lhe dar "nova vestimenta''. "Asa Branca''
e "Juazeiro'' eram músicas que ele ouvia do pai.
"Isso existia mesmo, mas, e o resto? A nova letra? Ao mesmo
tempo, é necessário que se faça um trabalho
sério em cima disto. A pessoa não deve matar o
tema, deve melhorá-lo''. Contou à escritora que
ele e Teixeira poderiam ter registrado as músicas como
"tema popular'', recolhido por eles. "Aí tudo
quanto é vagabundo vai ser dono também?'' A nova
vestimenta do folclore resultou num gênero urbano híbrido,
dança de salão da cidade mesclada ao imaginário
sonoro do retirante.
Gonzaga realizou todo um programa de lançamento
do baião, como mostra Dominique. "Houve um real
planejamento, uma intenção de lançar no
Sul, e, portanto, para todo o Brasil, de forma estilizada, ou
melhor, amaciada, adaptada ao paladar urbano, a música
nordestina, da qual o ritmo essencial escolhido para a estilização
foi o do baião''. A letra de "Baião'' evidencia
a intenção de manifesto: "Eu vou mostrar
pra vocês/ Como se dança o baião''. O canto
deriva de um "eu'' representante de uma coletividade, o
Nordeste. O interlocutor é o público, não
o "você'' da Bossa Nova. Gonzaga se propõe
a ensinar os passos de uma dança, um estilo e um modo
de vida estranhos, estrangeiros. Abole a caricatura do sertanejo,
expondo seus dramas.
A "coqueluche
do baião'', como se dizia na época, durou sete
anos. Como paradigma musical, prolonga-se até os dias
de hoje. Por meio dele, os brasileiros se divertiram ao reconhecer
que eram pobres e exóticos para si mesmos. Dominique
Dreyfus contribui para que o "Rei do Baião'' continue
emprestando um modelo às novas gerações.
E demonstra que um tema aparentemente desprezível pode
resultar em visão renovadora. Baião é festa,
não brincadeira. Nele se reflete o apego à ordem
e à disciplina que Gonzaga nutriu até o fim da
vida.
Acácia Amarela
Ela é tão linda é tão bela
Aquela acácia amarela
Que a minha casa tem
Aquela casa direita
Que é tão justa e perfeita
Onde eu me sinto tão bem
Sou um feliz
operário
Onde aumento de salário
Não tem luta nem discórdia
Ali o mal é submerso
E o Grande Arquiteto do Universo
É harmonia, é concórdia
É harmonia, é concórdia.
Asa branca
(Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
Quando olhei a terra ardendo
qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu
por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornalha,
nenhum pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado,
morreu de sede meu alazão
Inté mesmo a Asa Branca
bateu asas do sertão
Entonce eu disse: adeus Rosinha,
guarda contigo meu coração
Hoje longe muitas léguas
nessa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
pra eu voltar pro meu sertão
Quando o verde dos teus olhos
se espaiá na plantação
Eu te asseguro, não chores não, viu
Que eu voltarei, viu, meu coração
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