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l3 de dezembro de 1912

Nesse dia O Irm Luiz Gonzaga completaria 98 anos e essa data ficou sendo reconhecida como o dia do forró uma profusão de estilos registrados pela versatilidade desse cantador nordestino a principal é o consagrado Baião

 

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O eterno Cantador

 

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião




 

Autor: Luís Antônio Giron
Gazeta Mercantil,




O Brasil inteiro comemorou em 1994 os 40 anos do rock'n'roll.

O ritmo que alterou o comportamento mundial merece a homenagem. Já o baião completou 50 anos em 1996 e ninguém notou, exceto uma professora de língua e literatura francesas, moradora de Poitiers, chamada Dominique Dreyfus. Ela viveu a infância no nordeste do Brasil durante a eclosão do baião e acaba de lançar, pela Editora 34, a biografia do inventor do gênero, o cantor, sanfoneiro e compositor pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989) . "Vida de Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga'' é o livro mais importante editado em 1996 sobre música popular brasileira

Em 1987, Dominique entrevistou demoradamente o músico, bem como parentes, amigos e colegas. O artista abriu-lhe as casas e parte da alma. Para atender às perguntas da ''biógrafa francesa'', como a chamava, Gonzaga hospedou-a simultaneamente na residência senhorial de Exu onde vivia com a esposa oficial, Helena, e no apartamento da amante, Edelzuita, em Recife. A autora obteve informações inéditas sobre o comportamento sexual do "Rei do Baião'', sua coleção de amantes e atitude pública hipócrita.

Era autoritário e farmacofrênico. Despertou inveja dos conterrâneos e da família, apesar de ter sempre auxiliado a ambos. Mas isso é o que menos interessa na obra de Dominique. Ela atuou como pesquisadora acadêmica e levantou documentação iconográfica e jornalística e a discografia do músico, que abrange 48 anos de produção ininterrupta. A leitura da biografia é saborosa. O estilo irônico de Dominique remete ao de Ruy Castro e Sérgio Cabral, sem abdicar da precisão e de observações pertinentes. Ela traça a gênese do baião e fornece a dimensão correta de na MPB. Foi um gênio, cuja contribuição deve ser analisada e discutida em extensão. Mesmo que se concentre sobretudo na vida do artista, a escritora dá pinceladas no tema da gênese do baião e o desmistifica. Com o texto de Dominique já é possível discorrer com mais segurança sobre o estatuto metafísico do baião.

Ele pode não ter a importância comportamental do rock, mas, na virada da décadas de 40 para a 50, desencadeou uma febre quase pop, além do que produziu composições de alta informação e beleza. A massa de fãs de rádio e freqüentadores de dancings e boates da época sacudiu o corpo ao som de "Juazeiro'' (1949), "Baião'' (1946), "Paraíba'' (1952) e até de "Asa Branca'', lançada como toada em 1949, virando baião num "remake'' de 1952. O samba, ritmo urbano até então dominante, teve de se encolher para abrir alas ao remelexo e ao andamento dançante e irresistível do baião. O roqueiro Raul Seixas apontava semelhanças rítmicas entre rock e baião. dizia: "O baião é o rock'n'roll brasileiro''.

Citava o compasso binário, o ritmo marcado pela zabumba, lembrando o da bateria e do riff das guitarras. Não é de todo errada a tese, já que, conforme Dominique expõe, Gonzaga conhecia bem música americana negra desde os anos 40, quando se mudou para o Rio. Dançava até o boogie-woogie nos clubes do mangue carioca. O baião serve como base rítmica para as primeiras obras de Gilberto Gil e os manifestos debutantes da Tropicália.

A força da influência do baião só se compara a da Bossa Nova. Ao contrário do que parece, baião não é um subproduto do folclore nordestino, mas um gênero musical auto-suficiente -com programa estético, ritmo, dança, moda, estilo de tocar e conteúdo próprios- formulado na cidade do Rio de Janeiro pelas lembranças de um único homem. Gonzaga inventou outros ritmos, como o xamego (1941), o siridó (1948) e o xaxado (1950). Apenas o baião se impôs, por encerrar em si uma estética integral que lhe dá universalidade. Pode até ser chamado de movimento, seguido por gerações e gerações de músicos do Nordeste, fiéis à inflexão gonzaguiana.

Gilberto Gil, por exemplo, prefacia a biografia, apresentando-se como "discípulo e devoto apaixonado do grande mestre do Araripe''. Afirma que a invenção de Gonzaga se dá "graças a uma imaginativa e inteligente utilização de células rítmicas extraídas do pipocar dos fogos, de moléculas melódicas tiradas da cantoria lúdica ou religiosa do povo caatingueiro, de corpos narrativos, vislumbrados na paisagem natural, biológica e psicológica do seu meio, e, sobretudo, da alquímica associação com o talento poético e musical de alguns nativos nordestinos emigrantes como ele, veio a inventar um gênero musical''.

O programa do baião corresponde à quase toda vida artística de Gonzaga. A primeira gravação da música que lançou o gênero, "Baião'', em parceria co Humberto Teixeira, saiu em outubro de 1946 pela Victor num disco de 78 rotações. Os intérpretes eram o conjunto vocal-instrumental 4 Azes e 1 Coringa, com acompanhamento à sanfona do compositor. Um parêntese: este grupo foi um dos prediletos do jovem João Gilberto, também ele inventor individualista da Bossa Nova e autor de um baião, "Bim-bom''. A música figura no lado B do compacto 78 rpm inaugural da Bossa Nova, lançado em julho de 1958, cujo lado A era o samba "Chega de Saudade''. A letra diz: "É só isso o meu baião/ E não tem mais nada, não''. É um baião privado, descarnado e apátrida, mas resume a criatura de Gonzaga numa célula rítmica irredutível.

O mestre de Exu promoveu a migração para o sul do espírito musical nordestino. O baião é um retirante urbanizado, associado à norma culta. Os maiores parceiros de Gonzaga fora um advogado especializado em direitos autorais -o cearense Humberto Teixeira- e um poeta e obstetra relativamente rico -o pernambucano Zédantas. Desde criança Gonzaga se destacou da família, por se vestir bem, ser vaidoso e imitar a fala dos patrões. "Eu era metido a molequinho fino'', contou à biógrafa. "Ele sempre gostou de se salientar'', declara sua prima, Sofia. Fugiu de casa aos 16 anos por um motivo fútil (briga com os pais) e serviu no exército. Participou da Revolução de 30 e combateu o cangaceiro Lampião. Este mais tarde viria a lhe inspirar o traje que usaria no palco, com gibão e chapéu de vaqueiro de aba dobrada. O contra-exemplo foi o cantor gaúcho Pedro Raimundo. "Ele já tinha me influenciado porque sendo gaúcho ele fazia tudo de lá, então eu tinha que fazer tudo ao contrário dele. Mais uma vez ele me serviu, orque usava bombacha, botas, chapéu gaúcho, guaiaca e chicote. Então, eu achei que Pedro Raimundo era minha base, comecei a pensar que tipo eu podia fazer''. Gonzaga nunca ouviu falar em ansieade da influência... A sua foi a figura do gaúcho, justamente o inimigo mais ferrenho do cangaço de Virgulino.

O menino Lula (apelido na família) aprendeu sanfona como paí, Januário, consertador do instrumento e animador de forrós. Aliás, "sanfona'', como afirma Dominique, era um termo usado no Rio. Gonzaga a chamava de "fole'', concertina'', "pé-de-bode'' , "harmônica''. Ao chegar ao Rio veio a conhecer o nome "sanfona'' e o direito autoral. "Eu só vim a tomar conhecimento desta coisa, que quando você inventa uma música no fole ela é sua aqui no Rio de Janeiro'', depôs no Museu da Imagem e do Som.

O número dos baixos dos fole em que tocou indica sua evolução musical. Abandonou em Exu um 8 baixos. Levou na memória os cantos folclóricos e a idéia básica do baião, nome usado pelos repentistas para designar o intermezzo instrumental que pontua e dá uma pausa de descanso entre as passagens cantadas. Gonzaga tomou a célula rítmica reiterativa do repente. No Rio, comprou de um marinheiro um acordeon de 60 baixos e tocou tangos, xotes, rancheiras, emboladas e polcas na zona do Mangue, além de inventar o xamego. No auge do sucesso do baião, quando voltou pela primeira vez para casa dos pais depois de quase 20 anos, já exibia um acordeon de 120 baixos.

O segredo do novo gênero está no grande número de acordes. O baião nada mais é do que a amplificação do volume e dos recursos harmônicos das músicas de bailado da caatinga. O vocabulário de oito baixos -oito acordes- progrediu até chegar à gama tonal completa. O baião é um xote cromático, executado com tempo forte marcante, mas, ainda assim, sincopado. A euforia e os temas característicos do foclore se transfiguram em matéria de nostalgia. O baião tem quase sempre um travo de melancolia, reforçado pela melodia abertamente modal.

Muitos acusaram Gonzaga de plagiário. Ele confessa à biógrafa que se apropriou do folclore nordestino para lhe dar "nova vestimenta''. "Asa Branca'' e "Juazeiro'' eram músicas que ele ouvia do pai. "Isso existia mesmo, mas, e o resto? A nova letra? Ao mesmo tempo, é necessário que se faça um trabalho sério em cima disto. A pessoa não deve matar o tema, deve melhorá-lo''. Contou à escritora que ele e Teixeira poderiam ter registrado as músicas como "tema popular'', recolhido por eles. "Aí tudo quanto é vagabundo vai ser dono também?'' A nova vestimenta do folclore resultou num gênero urbano híbrido, dança de salão da cidade mesclada ao imaginário sonoro do retirante.

Gonzaga realizou todo um programa de lançamento do baião, como mostra Dominique. "Houve um real planejamento, uma intenção de lançar no Sul, e, portanto, para todo o Brasil, de forma estilizada, ou melhor, amaciada, adaptada ao paladar urbano, a música nordestina, da qual o ritmo essencial escolhido para a estilização foi o do baião''. A letra de "Baião'' evidencia a intenção de manifesto: "Eu vou mostrar pra vocês/ Como se dança o baião''. O canto deriva de um "eu'' representante de uma coletividade, o Nordeste. O interlocutor é o público, não o "você'' da Bossa Nova. Gonzaga se propõe a ensinar os passos de uma dança, um estilo e um modo de vida estranhos, estrangeiros. Abole a caricatura do sertanejo, expondo seus dramas.

A "coqueluche do baião'', como se dizia na época, durou sete anos. Como paradigma musical, prolonga-se até os dias de hoje. Por meio dele, os brasileiros se divertiram ao reconhecer que eram pobres e exóticos para si mesmos. Dominique Dreyfus contribui para que o "Rei do Baião'' continue emprestando um modelo às novas gerações. E demonstra que um tema aparentemente desprezível pode resultar em visão renovadora. Baião é festa, não brincadeira. Nele se reflete o apego à ordem e à disciplina que Gonzaga nutriu até o fim da vida.


 

 

Acácia Amarela

Ela é tão linda é tão bela
Aquela acácia amarela
Que a minha casa tem
Aquela casa direita
Que é tão justa e perfeita
Onde eu me sinto tão bem

Sou um feliz operário
Onde aumento de salário
Não tem luta nem discórdia
Ali o mal é submerso
E o Grande Arquiteto do Universo
É harmonia, é concórdia
É harmonia, é concórdia.

Asa branca

(Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

Quando olhei a terra ardendo
qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu
por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornalha,
nenhum pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado,
morreu de sede meu alazão
Inté mesmo a Asa Branca
bateu asas do sertão
Entonce eu disse: adeus Rosinha,
guarda contigo meu coração
Hoje longe muitas léguas
nessa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
pra eu voltar pro meu sertão
Quando o verde dos teus olhos
se espaiá na plantação
Eu te asseguro, não chores não, viu
Que eu voltarei, viu, meu coração





 

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