Maçons Famosos - França
por Jim Powell
16 de Janeiro de 2009
O marquês de Lafayette, guerreiro da liberdade, mudou a história. Ajudou a derrotar os britânicos em Yorktown, garantindo a independência americana, e, na França, ajudou a derrubar dois reis e um imperador. Jean-Antoine Houdon, o grande escultor do século XVIII, autor de bustos de muitos grandes heróis, chamou Lafayette “o apóstolo e defensor da liberdade nos dois mundos”.
Stanley Idzerda, historiador da Cornell University, observou: “Lafayette só teve uma causa durante sua longa vida: a liberdade humana. Jovem, arriscou sua vida na guerra e na revolução por ela. Na maturidade, vivendo sob a mal disfarçada ditadura de Napoleão, regime que detestava, recordo como tinha sido ferido, denunciado, condenado à morte, desprezado, preso, destituído e exilado - tudo a serviço da liberdade humana. Pobre, impotente, sem perspectivas à época, Lafayette perguntou:
‘Como amei a liberdade? Com o entusiasmo da religião, com o arrebatamento do amor, com a convicção da geometria - eis como eu sempre amei a liberdade’.”
Lafayette foi um campeão incansável dos direitos naturais e o principal autor da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. “Existem certos direitos naturais inerentes em toda sociedade dos quais nem uma, nem todas as nações poderiam com justiça privar um indivíduo”, insistia. Sustentava que esses direitos não estão “sujeitos à condição da nacionalidade”, e incluem “a liberdade de consciência e opinião, garantias judiciais, e o direito de ir e vir”. Promovia o livre comércio, além de lutar pela tolerância religiosa e pela liberdade de imprensa. Quando o governo francês atacou os imigrantes, ele abrigou vários deles em sua própria casa, e gastou muito de seu próprio dinheiro para ajudar a libertar escravos nas colônias francesas.
Ele fez mais do que qualquer pessoa para unir os amigos da liberdade por toda parte. Mantinha contato com Thomas Jefferson, Thomas Paine, George Washington, Benjamin Franklin, James Madison, James Monroe, John Quincy Adams, Daniel Webster, Andrew Jackson e James Fenimore Cooper, entre outros americanos. Era amigo de Pierre-Samuel du Pont de Nemours, Germaine de Staël, Benjamin Constant e Horace Say na França. Correspondia-se com Charles James Fox na Inglaterra e Simón Bolívar, que ajudou a garantir a independência de Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Lafayette incentivou os liberais italianos, os constitucionalistas espanhóis e os guerreiros da liberdade gregos e poloneses. Louis Gottschalk, repeitado estudioso de Lafayette, escreveu que “durante boa parte dos últimos 50 anos de sua longa vida, ele foi o maior defensor da liberdade na Europa - liberdade para todos os homens, por toda parte.”
Lafayette certamente destacava-se numa multidão. Era alto e ossudo, com olhos verdes. Disse o biógrafo Vincent Cronin: “Pálido, magro, ruivo, com nariz pontudo e testa recuada, parecia menos um oficial do que um flamingo. Também não era um grande cortesão, pois sua fala era vagarosa e esquisita.”
Washington saudava as capacidades de estrategista e comandante de Lafayette: “Ele possui talentos militares incomuns, tem o pensamento rápido e certo, é perseverante, empreendedor e cuidadoso; além disso, tem o temperamento conciliador e perfeitamente sóbrio, qualidades que raramente se encontram na mesma pessoa.” Jefferson disse a Lafayette: “Segundo as ideias do nosso país, não nos permitimos dizer justas verdades quando elas podem soar como bajulações. Contento-me portanto em dizer apenas que amo você, sua esposa e seus filhos.”
Marie Joseph Paul Yvres Roche Gilbert du Motier nasceu em 6 de setembro de 1757, no Château de Chavaniac, em Auvergne, no centro-sul da França, filho de Michel Louis Christophe Roche Gilbert du Motier, marquês de La Fayette, coronel dos Granadeiros franceses. Descendia de uma longa linhagem de aristocratas guerreiros, um dos quais lutou com Joana D’Arc contra os ingleses. A mãe de La Fayette era Marie-Louise-Julie de la Rivière, cuja família era rica.
Quando ele tinha dois anos, seu pai foi morto por uma bala de canhão britânica na batalha de Minden (a cerca de 40 milhas de Hanover, Alemanha) durante a Guerra dos Sete Anos, e ele se tornou marquês de La Fayette (essa era a grafia de antes da Revolução Francesa). Um de seus primeiros heróis foi Vercingetorix, que defendera a Gália contra Júlio César. Sua mãe morreu em abril de 1770 e seu avô, o marquês de la Rivière, morreu pouco depois, deixando La Fayette com uma renda anual digna de príncipes.
Aos 15 anos, ele conheceu Marie Adrienne Françoise de Noailles (conhecida como Adrienne), então com 14 anos e se apaixonou. Eles se casaram cerca de um ano depois, em 11 de abril de 1774. Segundo o biógrafo André Maurois, ela tinha “olhos grandes, pensativos, e um ar de inteligência alerta”.
La Fayette ouviu dizer que os insurgentes americanos procuravam recrutas franceses, e viajou para a América em 20 de abril de 1777. Em julho, conheceu o General George Washington em um jantar na Filadélfia. Washington tinha apenas cerca de 11 mil homens em seu exército, mal aparelhados e perseguidos pelos britânicos. La Fayette juntou-se às forças americanas quando elas evadiam um ataque do General Charles Cornwallis. Foram acuados em Brandywine, Pensilvânia, e La Fayette foi ferido na perna. La Fayette, que suportou as dificuldades em Valley Forge em 1777 e 1778, tornou-se oficial de informações de Washington.
Ele decidiu pedir ajuda francesa para os americanos, viajando de Boston em janeiro de 1779. O rei Luís XVI autorizou uma missão liderada por Jean Baptiste Donatien, conde de Rochambeay, veterano da Guerra dos Sete Anos. Em 11 de março do ano seguinte, La Fayette voltou à América a bordo do Hermione para dizer que seis navios de guerra e seis mil soldados vinham da França.
Washington pediu a La Fayette que levasse cerca de dois mil homens para a Virgínia, a fim de limitar os danos causados pelos britânicos e vigiá-los. La Fayette pegou dinheiro emprestado de mercadores de Baltimore para garantir sapatos e roupas para seus homens. La Fayette conseguiu incomodar os britânicos e escapar.
Em junho de 1781, o general britânico Charles Cornwallis recebeu ordens para estabelecer uma posição defensiva na Virgínia e mandar parte de suas forças para Nova York. La Fayette monitorou os movimentos de Cornwallis enquanto ocupava a península de Yorktown, em frente a Cheasapeake Bay, uma área de onde poderiam ser lançados ataques contra Filadélfia. Em 31 de julho, Washington, que acampava em West Point, Nova York, ordenou que La Fayette aumentasse suas forças tão rápido quanto possível, para que pudesse manter Cornwallis preso em Yorktown. O almirante François-Joseph-Paul, conde de Grasse, vinha das possessões francesas no Caribe de barco para Yorktown, e Washington e Rochambeau estavam a caminho.
Em 30 de agosto, a frota do almirante de Grasse - seis fragatas e vinte e oito navios de guerra, com quinze mil marinheiros e três mil e cem fuzileiros - chegou a Yorktown. Estes navios impediram Cornwallis de escapar pelo mar e ajudaram a trazer mais soldados americanos e franceses rapidamente. Logo La Fayette estava comandando cinco mil e quinhentos soldados e três mil milicianos. Os oito mil e oitocentos homens - provinciais, britânicos e mercenários de hesse - ficaram em menor número quando Washington e Rochambeau chegaram em 9 de setembro. “Se Cornwallis agora enfentava a possibilidade de render-se”, escreveu o historiador Louis Gottschalk, “foi em grande parte porque Lafayette persistiu, quando outros teriam desistido ou preferido a cautela, ou ainda, cedendo a uma forte tentação, preferido a ousadia excessiva”. O sítio de Yorktown começou em 6 de outubro, e La Fayette ajudou a conquistar as posições britânicas. Cornwallis rendeu-se em 19 de outubro de 1781. Gottschalk observa: “Ninguém (exceto talvez De Grasse) contribuiu mais ou mais diretamente para a derrota de um dos melhores exércitos ingleses quanto o jovem general da ‘sociedade’ parisiense.”
Washington instou La Fayette a “vir com Madame La Fayette e conhecer-me em minha vida doméstica... Ninguém o receberia com mais amizade e afeição do que eu”. La Fayette visitou Washington por 11 dias em agosto de 1784. Após despedir-se, nunca mais se viram novamente.
La Fayette trabalhou incansavelmente pela liberdade. Promoveu a maior liberdade de comércio entre a França e os EUA, tornou-se membro fundador da Sociedade de Amigos dos Negros, e foi membro da Sociedade de Manumissão de Nova York e do Comitê Britânico para a Abolição do Comércio de Escravos. Em 1785, ele e sua esposa compraram duas fazendas na Guiana Francesa e libertaram os quarenta e oito escravos que trabalhavam ali, dando-lhes terra com que começar a prover a própria subistência. O objetivo era mostrar como a emancipação poderia ser realizada com sucesso.
A questão da escravidão logo foi suplantada pela revolução. O governo francês assumiu dívidas enormes durante a Guerra dos Sete Anos com a Inglaterra (1756-1763), e o a situação piorou quando o governo ajudou consideravelmente a luta americana contra a Inglaterra. Para cobrar novos impostos, Luís XVI concordou em convocar os Estados Gerais, uma assembleia de clero, nobres e pagadores de impostos que não se reunia há um século e meio. Lafayette reclamou uma assembleia verdadeiramente nacional, e Luís XVI finalmente concordou. Os representantes foram eleitos, e os Estados Gerais se reuniram em Versalhes em maio de 1789.
Nessa época, para deixar claros os devidos objetivos das políticas públicas, La Fayette rascunhou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Fora inspirado pela Declaração dos Direitos da Virgínia, e seu rascunho refletia sua visão de que a maior ameaça à liberdade era o absolutismo real. Ele mostrou o rascunho a Jefferson, que o elogiou e enviou uma cópia a James Madison, que então pensava em uma Carta de Direitos para a América. A Assembleia Nacional começou a debater em 11 de julho. Três dias depois, a Bastilha, uma prisão medieval, foi tomada por cerca de oitocentas pessoas furiosas, e a Revolução Francesa estava a caminho. Os membros da Assembleia Nacional se convenceram de que a maior ameaça à liberdade era a violência das turbas, e insistiram em que a Declaração fosse modificada. A versão final trazia uma visão mais completamente desenvolvida da liberdade do que a Declaração de Independência americana. Quanto a arranjos constitucionais particulares, La Fayette acreditava que deveria haver separação de poderes, mas foi derrotado quando a Assembleia Nacional deu 490 votos contra 89 para uma legislatura com uma única câmara. Num gesto em prol de ideais republicanos, ele mudou a grafia de seu nome para Lafayette.
Milícias de cidadãos formadas por toda a França se uniram sob o nome de Guarda Nacional, que servia à Assembléia Nacional. Lafayette, comandante nomeado da Guarda Nacional de Paris, salvou pessoas de serem assassinadas pelas multidões. Ele resgatou o rei e a rainha da turba enfurecida em Versalhes e escoltou a família real até o palácio das Tulherias em Paris. Durante a noite de junho de 1791, Luís XVI secretamente fugiu para Varennes, próxima à fronteira belga, numa tentativa de convocar os monarquistas. Lafayette acordou seu hóspede, Thomas Paine, autor de Direitos do homem, e exclamou: “Os pássaros foram embora voando!” Indignado, já que ele havia garantido ao povo que o rei não iria a lugar nenhum, Lafayette assinou o primeiro mandado na história francesa de prisão do rei, e trouxe a família real de volta a Paris.
Os jacobinos queriam sangue, e ganhavam mais seguidores a cada dia. Esse grupo de admiradores igualitaristas de Jean-Jacques Rousseau tirava seu nome do salão onde se reuniram pela primeira vez. Entre eles, estavam Paul Marat, René Hebert, Pierre Brissot e Maximilien de Robespierre. Eles achavam que Lafayette deveria ser executado por traição. Para escapar, Lafayette partiu em direção à fronteira belga com o propósito de chegar até a Holanda. Foi detido em Rochefort, na Bélgica, lugar controlado pelo imperador austríaco François II.
Considerado um revolucionário perigoso, foi enviado de masmorra a masmorra e teve que aguentar enxames de mosquitos, o mau cheiro dos esgotos e o frio gelado do inverno. Tiraram-lhe todos os seus pertences, com exceção de uns poucos livros, incluindo uma cópia de Bom senso , de Thomas Paine. Lafayette escreveu a um amigo: “A liberdade é o assunto constante de minhas meditações solitárias… É o que um dos meus amigos certa vez chamou de “santa loucura”.
Enquanto isso, durante o Terror em 1793 e 1794, quando Robespierre ordenava sessenta execuções por dia, a mãe, a avó e a irmã de Adrienne Lafayette foram guilhotinadas, e Adrienne foi presa em Paris. Ela acabou sendo solta graças, em parte, aos esforços do diplomata americano James Monroe, que também havia ajudado a libertar Thomas Paine de uma prisão francesa. Ela conseguiu que George Washington Lafayette, na época um garoto de quatorze anos, encontrasse abrigo nos Estados Unidos. Ele levou a carta dela a George Washington, que dizia: “Eu lhe envio o meu filho”.
François II deixou que ela e as filhas Anastasie e Virgine ficassem com Lafayette na prisão. Como explica René de Chambrun, descendente e estudioso de Lafayette, “Lafayette já não falava com um único ser humano em seu completo isolamento do mundo externo há quase um ano quando, de repente, no dia 15 de outubro de 1795, a porta de sua cela se abre. Entram no quarto mal iluminado uma mulher e duas crianças. Esse foi o instante mais dramático de sua vida”.
Os amigos de Lafayette, incluindo George Washington, a influente francesa Germaine de Staël, e o inglês James Fox tentaram livrá-lo da prisão. Finalmente, depois que os exércitos de Napoleão começaram a varrer a Áustria em direção ao oriente em 1797, eles foram libertos e puderam viajar para Holstein, uma província da Dinamarca que provavelmente não se envolveria na guerra.
A maioria das propriedades de Lafayette foi confiscada e vendida durante a revolução francesa. A família foi deixada com La Grande, um castelo abandonado do século XV aproximadamente 55 quilômetros ao leste de Paris. Eles limparam alguns quartos onde poderiam morar. O presidente Thomas Jefferson fez com que o governo reembolsasse Lafayette por alguns dos suprimentos que ele havia comprado para seus soldados durante a revolução americana, e isso tornou possível o conserto do telhado. Jefferson insistiu que Lafayette estabelecesse residência nos Estados Unidos, oferecendo-lhe terra na recentemente comprada Louisiana.
Em outubro de 1807, Adrienne teve febre e começou a delirar. A família se reuniu à sua volta. Na noite de Natal, ela abraçou o pescoço de Lafayette e susurrou: “Je suis toute à vous” (“Sou toda sua”). Ela procurou seus dedos, apertou-os, e faleceu. Lafayette escreveu a Jefferson, “Quem poderia compreender melhor do que você a perda de uma esposa amada?”
René de Chambrun relatou que, em La Grange, todos os dias Lafayette acordava às cinco horas da manhã e “ficava na cama por duas horas, escrevendo para amigos da liberdade em todo o mundo: poloneses, húngaros, gregos, espanhóis e portugueses, americanos do norte e do sul… e, sozinho e ajoelhado, segurando um pequeno retrato de Adrienne e um cacho de seu cabelo, passava um quarto de hora em devoção meditativa”.
Embora derrotado em Waterloo em 1815, Napoleão ainda era o comandante militar mais temido da Europa, e tentou manter-se no poder. Lafayette, que havia sido eleito para a nova Câmara dos Deputados, mostrou-se indignado com as três milhões de vidas de franceses perdidas nas guerras de Napoleão, e exigiu que ele abdicasse. Napoleão foi logo exilado, mas realistas fanáticos tomaram o poder e assassinaram muitos de seus oponentes. Lafayette fundou um grupo, Amigos da Liberdade de Imprensa, e defendeu a tolerância.
Em 1823, Lafayette aceitou o convite do presidente (americano) James Monroe para uma viagem de despedida à América. Quando chegou a Nova York em 15 de agosto de 1824, foi recebido por aproximadamente trinta mil pessoas. Estima-se que cinquenta mil tenham aplaudido Lafayette e jogado flores durante seu trajeto em uma carruagem puxada por quatro cavalos brancos até a prefeitura de Nova York. Mães levaram seus filhos para pedir-lhe a bênção, e cerca de seis mil pessoas compareceram a um baile em sua homenagem. Ao começar uma viagem de treze meses através de todos os vinte e quatro estados, ele louvou os americanos pelo que haviam conquistado: “Nos Estados Unidos, a soberania popular, readquirida por uma Revolução gloriosa e imaculada, universalmente reconhecida, garantida não apenas por uma constituição … mas também por processos jurídicos que respeitam a vontade pública. Ela é exercida por eleições livres, gerais e frequentes … Dez milhões de pessoas, sem monarquia, sem corte, sem aristocracia, sem corporações de ofício, sem impostos desnecessários ou impopulares, sem polícia estatal e sem nenhuma desordem, alcançaram o mais alto grau de liberdade, segurança, prosperidade e felicidade que a civilização humana poderia imaginar … Na França, ao contrário, não há mais eleições municipais ou administrativas, nem eleição popular alguma, nem liberdade de imprensa, nem júri… nem representação alguma da vontade do povo.”
Em Bunker Hill, Massachusetts, o orador Daniel Webster declarou: “Os Céus designaram que a centelha da liberdade deve ser conduzida através de você, do Novo Mundo para o Velho.” Lafayette chegou à Filadélfia acompanhado por quatro carruagens, que levavam cerca de 160 veteranos da Revolução Americana. Ele parou no campo de batalha de Brandywine, onde havia sido ferido, e voltou a Yorktown, que ainda estava em ruínas. Foi recebido por grandes multidões em todos os lugares: dez mil pessoas em Newburgh (Nova York), cinquenta mil em Baltimore, e setenta mil em Boston. Foi aclamado em Richmond, Columbia, Charleston, Savannah, Augusta, Montgomery, Mobile, New Orleans, Natchez, St. Louis, Nashville, Lexington, Cincinnati, Pittsburgh, Buffalo e Albany. Apareceu em igrejas católicas, igrejas protestantes, e reuniões em lojas maçônicas. Foi a recepções abertas a todos, e publicamente dava as boas-vindas a todos os negros e índios que compareciam. Lafayette desceu à cripta da tumba de George Washington em Mount Vernon. Houve uma recepção na universidade de Virginia. Viu John Adams em Quincy, Massachusetts, e James Madison em Montpelier, Virginia.
Então Lafayette chegou a Monticello. “O marquês saiu de sua carruagem e, mancando, caminhou o mais rápido que pôde em direção à casa,” explicou o biógrafo Brand Whitlock. “Entre as colunas brancas da entrada surgiu a magra figura de um homem curvado pela idade, vestindo a casaca, o longo colete e as meias altas de outra época. Ele havia cortado o cabelo longo, finos cachos brancos emolduravam suas têmporas fundas e bochechas encovadas. Cambaleando escada abaixo, veio em sua direção.
“‘Ah, Jefferson!’, exclamou Lafayette.
“Os dois velhos homens aceleraram os passos.
“‘Ah, Lafayette!’, exclamou Jefferson.
“Não houve necessidade de eloquência! Eles caíram no choro e se abraçaram.”
Algum tempo depois, o secretário de Lafayette, Auguste Levasseur, descreveu uma cena admirável em Charlottesville: “O Convidado da Nação, em um banquete patriótico, sentado entre Jefferson e Madison”.
Em 7 de setembro, Lafayette desceu o rio Potomac no barco a vapor Mount Vernon, e voltou à França a bordo da fragata Brandywine.
Lafayette começou a passar os invernos em Paris. Nas noites de terça-feira, oferecia recepções que atraíam liberais da América e da Europa. O autor americano James Fenimore Cooper relatou que as reuniões eram “excepcionalmente bem frequentadas.” Benjamin Constant e Alexandre von Humboldt compareciam, assim como membros da Câmara dos Deputados. O historiador Lloyd Kramer escreveu que “as recepções de Lafayette em Paris, assim como suas longas conversas com convidados em La Grange, facilitaram o contato entre diferentes gerações tanto quanto contribuíram para forjar ligações entre políticos e escritores ou entre seus amigos franceses e estrangeiros.”
Enquanto isso, em 1824, Carlos X havia se tornado rei da França e restabelecido o poder da Igreja e do trono. A Igreja Católica retomou o controle das escolas francesas, e qualquer pessoa condenada por cometer sacrilégio dentro de uma igreja poderia ser executada. Em 26 de julho de 1830, o rei assinou decretos dissolvendo a Câmara dos Deputados, suprimindo a liberdade de imprensa e restringindo o direito ao voto. Paris se revoltou. “Façam uma revolução”, insistia Lafayette, aos setenta e três anos. “Sem ela, não teremos feito nada além de um tumulto”. Ele teve um papel-chave na deposição de Carlos X e na escolha de seu successor, Louis-Philippe, um monarca limitado por uma constituição que dava alguma proteção à liberdade individual.
Lafayette continuou a ser um defensor da liberdade. Defendeu indivíduos presos por crimes políticos, opôs-se à pena de morte e à escravidão e apoiou insurgentes na Bélgica. Também apoiou a liberdade da Polônia, e – contrariando as leis francesas sobre refugiados – escondeu patriotas poloneses como Antoine Ostrowski e Joachim Lelewell em sua propriedade.
No começo de fevereiro de 1834, Lafayette reclamou de dor e fadiga, talvez causadas por excesso de exposição ao ar frio. Estava com pneumonia. Em 20 de maio de 1834, em companhia dos filhos, Lafayette levou aos lábios uma medalha com um retrato de Adrienne e deu seu ultimo suspiro. Tinha setenta e sete anos. O funeral aconteceu na igreja da Assunção, em Paris. Dezenas de milhares de pessoas foram assistir a três mil soldados da Guarda Nacional acompanharem o caixão de Lafayette ao humilde cemitério de Picpus, onde ele se juntaria a Adrienne e a tantas vítimas guilhotinadas da Revolução Francesa. Lafayette foi enterrado na terra americana que havia trazido no Brandywine.
Lafayette foi um ídolo durante o século XIX, especialmente nos Estados Unidos.. Seu retrato estava em todos os lugares. Os Amigos Americanos de Lafayette têm mais de mil retratos históricos do marquês. Dezenas de cidades, condados e escolas receberam seu nome. “Proclamem-no um dos maiores homens de sua época”, disse John Quincy Adams em uma homenagem, “e ainda não terão feito justiça”.
O neto de Lafayette herdou La Grange, e casou-se com uma inglesa (uma Tory) que depositou os livros, papéis e outros objetos pessoais de Lafayette no sótão da torre noroeste, um espaço que ele chamara de couloir des polonais (“esconderijo dos poloneses livres”). A maioria dos historiadores do século XX tratou Lafayette como apenas um simplório vaidoso e doutrinário.
Felizmente, surgiu um interesse renovado por Lafayette. René de Chambrun, descendente de Virginie, filha de Lafayette, comprou La Grange em 1955 e explorou o sótão da torre noroeste. Ele e sua esposa encontraram verdadeiros tesouros, que sobreviveram graças à ausência de umidade e vermes. A biblioteca de três mil volumes de Lafayette estava lá, assim como vinte e cinco mil cartas para pessoas como Jefferson, Washington e Madison. O único livro derivado deste material é uma biografia de Adrienne de 1961, escrita por André Maurois, amigo de de Chambrun. Os papéis foram microfilmados em sessenta e quatro rolos e estão na biblioteca do Congresso americano.
O historiador Lloyd Kramer relembra a revelação pela qual passou quando ajudava a editar a vasta coleção de cartas de Lafayette da Universidade de Cornell, recolhida em seu local de nascimento no Château de Chavaniac: “Logo percebi o valor histórico da leitura de ‘fontes primárias’, e passei a acreditar que a vida de Lafayette havia sido muito mais variada e complexa do que as irônicas narrativas históricas sugeriam. Ler e discutir a correspondência de Lafayette com meus colegas editores fez com que eu me perguntasse como a figura medíocre que aparecia nos livros de história modernos poderia ser o mesmo homem a quem seus contemporâneos recorreram em tantas crises políticas, pessoais e revolucionárias desde os anos 1770 até os de 1830.”
Mesmo um biógrafo ácido como Oliver Bernier reconheceu que “quaisquer que tenham sido suas limitações, é mérito de Lafayette ter-se agarrado à ideia da liberdade. Nada pode substituir o direito de falar, pensar, organizar e governar livremente: daí derivam todos os benefícios. Mesmo com sua vaidade, sua obstinação, sua auto-satisfação, sua sede por popularidade, Lafayette nunca perdeu de vista esse princípio inteiramente desejável. Por isso ele mereceu a gratidão de seus contemporâneos e a estima das gerações posteriores. Em um mundo onde a liberdade é extremamente escassa, existem heróis piores do que um homem que nunca deixou de idolatrá-la.” Aquilo que os críticos de Lafayette concedem é o mais importante: ele ainda é o grande herói de dois mundos |