|
Henry Tomas
O que sua longa
vida exigia, era mais luz - mais beleza. Procurara beleza até
na feiúra e dignidade no seio da humildade. Como Walt Whitman,
amava apaixonadamente os seres humanos, por mais baixa que fosse
sua condição. Se se inclinava para os príncipes,
não evitava a sociedade dos pobres. Durante tôda sua
vida cultivou relações da mais íntima amizade
com "os açougueiros, padeiros e fabricantes de velas"
do mundo. "Como se tem fortalecido o meu amor pelas classes
mais baixas!" - escreveu depois de visitar um grupo de mineiros.
"As chamadas classes inferiores são, aos olhos de Deus,
as mais elevadas, com tôda certeza!"
Suas expressões
de simpatia pelos humildes não eram simples retórica.
Do magro salário de 1 000 dólares anuais que recebia
como conselheiro de Carlos Augusto, sustentava dois desconhecidos
que para ele tinham apelado.
Poupado pelo
sofrimento durante a maior parte de sua vida, podia, no entanto,
simpatizar com os sofrimentos alheios. Porque possuía a faculdade
poética de ver além do horizonte de sua própria
existência. Compreendia, como apenas um gênio universal
pode compreender, as lachrimae rerum do poeta latino - as lágrimas
dos deuses pela tristeza dos homens.
O seu foi talvez
o espírito mais versátil do século XVIII. Não
era apenas poeta, pintor e músico, como também cientista
de não poucos méritos. Como poeta reconheceu a unidade
absoluta sob a aparente diversidade das coisas. Fez um estudo completo
de botânica e anatomia e das teorias das cores. Escreveu um
livro a respeito das Metamorfoses das Plantas em que mostrava que
as flores não são senão folhas glorificadas
- folhas transformadas em poemas, por assim dizer. Examinou o crânio
humano e descobriu um osso - o intermaxilar - que estabeleceu a
relação entre o homem e os animais inferiores,
Como Terêncio,
interessou-se por tudo que pertencesse à raça humana
- em tudo, exceto a guerra. Porque foi essencialmente Homem de Paz.
Quando Carlos Augusto combatia contra os franceses, convidou Goethe
a ir ao acampamento e observar as manobras das tropas. Goethe foi;
mas ao invés de se interessar pelas batalhas, fêz um
estudo das pedras e flores das vizinhanças do acampamento.
Amava sua nação profunda e apaixonadamente, mas não
era patriota, no sentido estreito da palavra. Acusado de indiferentismo
por não escrever canções guerreiras patrioteiras,
respondeu: "Nunca exprimi nada que não tivesse experimentado...
só compus canções de amor porque e quando amava;
como posso, então compor cantos de guerra, sem nunca haver
odiado?"
O período
médio de sua vida recebeu três das maiores bênçãos
humanas: uma esposa amante, um filho e um amigo dedicado. Em 1788,
aos 39 anos, conheceu Christiane Vulpus. A principio, foi sua amante,
mas sete anos depois casaram-se legalmente. Em 1789 nasceu seu filho;
e em 1794 fêz íntima amizade com Schiller. Nessa época,
Goethe tinha 45 e Schiller 35 anos.
A amizade entre
Goethe e Schiller foi um poema mais lindo do que Goethe ou Schiller
jamais escreveram. Era a amizade entre um semideus e um moribundo
(porque Schiller já perdera um dos pulmões). Goethe
era pagão, reverente da natureza.
Schiller era
cristão, apaixonado pela justiça. Ambos começaram
como rebeldes mas acabaram se rendendo. Goethe foi domado pela boa
sorte e Schiller pela pobreza. Mas os dois acreditavam ainda na
rebeldia da arte. A poesia, para eles, era um meio sagrado de transformar
os homens em super-homens E assim trabalharam juntos, esses dois
apóstolos da salvação por meio da religião
da Beleza e cada um completou e encorajou o gênio do outro.
Quando Schiller morreu, depois da breve camaradagem de onze anos,
Goethe fechou-se em seu quarto e chorou como uma criança.
"Metade de minha existência", escreveu a um conhecido,
"fugiu de mim... Meu diário fica em branco neste período.
As páginas brancas dão intimidade ao vácuo
que me ficou na vida."
Goethe viveu
muito, mas teve de pagar o preço da solidão pelo dom
da vida longa. Um por um, perdeu todos que amava seus amigos mais
queridos, sua esposa, a irmã, e finalmente o filho único.
Mas continuou corajosamente, transformando suas penas, como suas
alegrias, em canções imortais. Escreveu seis livros
ao todo: poesias líricas, épicas, elegíacas
e satíricas, dramas, ensaios e novelas - histórias
fantásticas a respeito de mitos imortais, diabos e deuses.
Finalmente, reuniu todo esse gênio numa obra-prima e deu Fausto
ao mundo. Levou trinta anos para escrever a primeira metade e vinte
e cinco para completar a segunda.
|