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Henry Tomas
O propósito
de Goethe ao escrever o Fausto era compreender a Humanidade - medir
seus poderes a definir seus deveres. A nota principal do poema soa
no prólogo. Deus e o Diabo fazem uma aposta sobre a alma
do Homem. O Diabo não respeita os mortais. É o céptico
eterno, o espírito da negação.
Crê que
não ser é melhor que ser. Não vê senso
no "jogo incessante do destino" que cria os homens apenas
para destruí-los. Preferiria o "vácuo eterno"
ao mundo feito para uma desnecessária viagem através
do tempo e do espaço. Sua ocupação, portanto.
é opor-se à criação e negar a bondade
dos homens e dos deuses. Até o velho Dr. Fausto, o mais ilustre
e mais reto dos mortais, afirma o Diabo, pode cair às palavras
manhosas, bastando que o espírito mau se dê ao trabalho
de tentá-lo.
Mas Deus é
mais sabido. É verdade, admite, que a vista do Homem é
imperfeita e que ele sempre luta em meio a uma neblina de semi-escuridão.
"Luta e peca durante toda a sua existência." No
entanto, embora pecando, "caminha instintivamente para a luz".
E assim concordam
que o Diabo deve tentar Fausto e ver se pode destruir a parte imortal
de sua alma. De acordo com a aposta, o Diabo será declarado
vencedor se Fausto achar o momento que passa tão belo que
não queira passar para o momento seguinte.
Na primeira
metade da história, que é familiar a todos, Goethe
relata como o Diabo restaura a juventude de Fausto e tenta-o com
muitas das egoísticas alegrias da vida: a beleza, a riqueza.
a sensualidade, o desleixo e os prazeres sem responsabilidade do
amor. Guiado pelo Diabo, Fausto seduz Margarida e, depois, abandona-a
aos seus pecados e penas. Durante essa primeira parte da história
tem "paixão pelo erro". Mas em todas as suas peregrinações
não encontra um único momento de felicidade, nem um
único momento ao qual possa dizer: "Verweile dock, du
bist so schõn" (Fica mais um pouco, és tão
belo).
Depois da morte
de Margarida, o Diabo tenta vencê-lo com tentações
de diferente gênero. Fausto, que é o símbolo
do Homem Universal, anseia por sentir toda experiência da
vida, "desnudar o peito a todas as emoções, para
conhecer - toda a alegria e toda a tristeza humana", viver
e trabalhar com os homens e "partilhar com eles do naufrágio
do gênero humano -
De acordo com isso o Diabo capacita Fausto a se tornar (como Goethe)
conselheiro da corte real. Aí, pelos seus bons serviços,
obtém gratidão e honras - mas não felicidade.
Insatisfeito com a vida presente, conjura a volta à vida
do passado. Tira da antiguidade o espírito de Helena, devolve-lhe
a vida e procura casar-se com ela (exatamente como Goethe procurara
casar-se com a idéia clássica dos poetas gregos).
Mas quando Fausto abraça Helena, ela desaparece, deixando
apenas a capa atrás de si. É inútil mesmo para
Fausto, ou Goethe, tentar compreender a vida da Grécia antiga
- A despeito de todos os seus esforços, a bela alma da antiguidade
lhes escapa e não lhes deixa mais que o agasalho nas mãos.
E assim Fausto
vai de experiência em experiência, sem encontrar satisfação
em nenhuma. "Seu andar é uma série de quedas.
"Tudo que ele empreende acaba fracassando, ou dá num
triunfo vazio que é pior que o fracasso. Ganha uma importante
batalha para seu imperador e descobre que a vitória não
é menos amarga que a derrota. Porque a vitória na
guerra significa morte e devastação para os dois lados.
O Diabo oferece-lhe cidades, reinados, castelos, belas mulheres,
gloriosas realizações e fama eterna. Mas ele não
se satisfaz. O arco de sua vida começa a voltar-se para baixo.
Os prazeres da juventude e as realizações da maturidade
não lhe trouxeram senão desilusão. A ansiedade
tomou conta de sua casa e os fogos e desejos da juventude transformaram
tudo em cinzas. Atingido pela cegueira, está finalmente disposto
a desistir da sua busca crônica da felicidade.
Mas o que é
estranho é que no mesmo momento em que renuncia à
felicidade, encontra-a. Começa um projeto de drenagem dos
pântanos próximos ao mar e de adaptação
para que possam ser habitados. Ai construirá novos lares,
sobre solo livre, para milhões de pessoas que gozarão
melhor de sua liberdade, conquistando-a de novo pelo labor cotidiano.
Esta idéia enche-o de grande alegria. É a meta semi-olvidada
para a qual caminhou inconscientemente através da vida. É,
por fim, o momento dourado ao qual pode dizer: "Fica mais um
pouco, és tão belo."
E agora que
chegara ao momento supremo da vida, a vida chegava ao fim. O Diabo
ganhara, aparentemente. Reclama a alma de Fausto como preço
de sua vitória. Mas os anjos descem entre uma chuva de rosas
e levam sua alma para o céu. Fausto errara gravemente, era
certo, mas no meio de todos os seus erros lutara instintivamente
pela luz.
A primeira a
se encontrar com ele no céu foi Margarida. Pecara e morrera
pelos pecados de Fausto. Mas tudo fora perdoado e esquecido. Sua
missão agora era mostrar-lhe o caminho.
Porque a Mulher é a eterna Salvadora do Homem.
E assim, tendo
completado a obra suprema de sua vida, Goethe, como Fausto, estava
preparado para dormir. Seus numerosos admiradores preparavam uma
celebração real em honra do seu octogésimo-segundo
aniversário. Para escapar às festividades, foi para
as montanhas de Ilmenau. Aí, na cabana em que ele e Carlos
Augusto tinham estado juntos tantas vezes, viu as linhas que escrevera
a lápis na parede, muitos anos antes:
"sobre o topo de todas as colinas, reina paz tranqüila;
na copa das árvores dificilmente percebes a mais leve respiração;
os passarinhos. Tem paciência agora, logo descansarás".
Limpando as
lágrimas dos olhos, repetiu as últimas palavras:
''Sim, logo descansaras".
Voltou para casa. Durante algum tempo mais, cantou as suas canções
mágicas, em que, como diz Heine, "a Palavra nos abraça
enquanto a Idéia nos beija". Por fim, a 16 de março
de 1832, não podia mais levantar-se do leito. Seis dias depois,
em meio ao sussurro abafado de seus familiares, fechou os olhos
e a Canção de sua vida se desvaneceu no silêncio
eterno.
Suas últimas
palavras audíveis foram... "Mais Luz" |