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Irm João Pedro Lagoa Baptista Ferro*
Nasceu
em Lisboa em 11.5.1744 e ali faleceu em 1.1.1787. Foi um brilhante
matemático e poeta da segunda metade do século XVIII.
Desde
logo a sua educação seguiu a linha do humanismo e
da liberdade possível na época.
Sendo
ainda neste século o ensino totalmente dominado pela Igreja,
Anastácio da Cunha ingressou, ao que se julga, aos dezesseis
anos, na Congregação do Oratório de Lisboa,
onde adquiriu vastos conhecimentos.
Os
Oratorianos possuíam, contudo, uma particularidade deveras
importante: opondo-se ao paradigma educacional da época (escolástica,
preconizada pelos jesuítas), propunham e utilizavam um novo
sistema de ensino, humanista, aberto, baseado num experimentalismo
humano, que fez com que fossem os precursores em Portugal dum ensino
moderno. Foi junto destes padres, tão liberais e abertos,
para a época e para religiosos do século XVIII, que
José Anastácio da Cunha adquiriu os estudos necessários
que lhe permitiam assentar praça, no Regimento de Artilharia
do Porto, sediado em Valença do Minho, para o qual foi nomeado
como 1º tenente da Companhia de Bombeiros, por Decreto do Conselho
de Guerra de 25 de Junho de 1764. O quadro de oficiais deste Regimento
era essencialmente constituído por estrangeiros, contratados
pelo maçom conde de Schaumburg Lippe, quando este fora encarregado
pelo marquês de Pombal de organizar o exército português.
Foi
em Valença do Minho que José Anastácio da Cunha
teve os primeiros contactos com a Maçonaria: o comandante
do Regimento era o escocês James Ferrier, provavelmente maçom,
assim como maçom era Miguel Kinselac, que foi condenado pela
Inquisição (1778) como pedreiro-livre. Tendo sido
obrigado a abandonar Portugal, James Ferrier foi o autor, sob o
pseudônimo de Arthur William Costigan, duns importantes Sketches
of Society and Manners in Portugal (2 vols., London, T. Vernor,
1788), onde criticou causticamente a situação portuguesa
e onde advogou os princípios racionalistas e maçônicos.
Ferrier exerceu grande influência sobre os seus subordinados.
também no quartel de Valença do Minho os oficiais
liam e recitavam escritores como Pope, Voltaire e Holbach, cujas
obras estavam classificadas pela Santa Sé como heréticas
e subversivas.
Ao estudar no Regimento de Artilharia do Porto, e constatando o
obsoleto ensino que se fazia da matemática através
das obras de Beliodoro e da mecânica pelos trabalhos de Dulac,
José Anastácio da Cunha elaborou (1769) uma Carta
Physico-Mathematica sobre a Theoria da Pólvora, em Geral,
e a Determinação do Melhor Comprimento das Peças
em Particular (editada no Porto, em 1838, por José Vitorino
Damásio e Diogo Kopke), em que sobre estes assuntos apresentava
idéias novas. Esta sua obra terá sido a responsável
direta pela sua nomeação (1773), por parte do marquês
de Pombal, para reger a cadeira de Geometria, na recentemente reformulada
Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra. Porém,
apenas cinco anos após ser empossado como lente naquela Faculdade,
foi denunciado ao Santo Ofício como herege.
A denúncia era essencialmente baseada nas "imoralidades"
por ele cometidas, juntamente com os seus colegas, no Regimento
em Valença, e no ensino de teorias de autores proibidos pela
Igreja. Pelo período que passou em Valença do Minho,
acusaram-no de "[...] se persuadir dos erros do deísmo,
tolerantismo e indiferentismo, tendo para si, e crendo que se salvaria
na observância da lei natural (...)" e ainda por ter
por "[...] injustas e tiranas as leis com que a Igreja obrigava
os fiéis a captar os seus entendimentos [...] persuadindo-se
igualmente que qualquer pessoa se salvaria em toda e qualquer religião
que seguisse, e fielmente observasse, capacitado que obrava bem,
ainda que errasse, não sendo por malícia, mas por
falta de conhecimentos". Quanto ao ensinamento de doutrinas
hereges, foi acusado de ensinar pelo Sistema da Natureza de Holbach,
tendo-se até provado que emprestara um exemplar a D. Rodrigo
de Sousa Coutinho (conde de Linhares).
Assim, José Anastácio da Cunha foi preso, condenado
e internado na casa da Nossa Senhora das Necessidades da Congregação
do Oratório de Lisboa (local por ele escolhido para cumprir
as suas penas); e afastado para sempre do ensino universitário.
De toda a sua obra, dedicada à matemática, física
e filosofia, o mais importante trabalho foi, sem dúvida,
os Princípios Mathematicos [...] (Lisboa, 1790), que o eminente
geômetra inglês Playfair considerou ser: "A primeira
obra científica de Portugal, que faria honra aos países
mais adiantados em conhecimentos filosóficos."
Foi
também José Anastácio da Cunha um poeta. Influenciado
pelas escolas francesa e inglesa, alguns autores consideram-no precursor
do Romantismo em Portugal. Foi em 1839 que a sua obra poética,
pela primeira vez reunida em volume, pela mão de Inocêncio
Francisco da Silva, saiu do prelo, com o título de Composições
Poéticas do Doutor José Anastácio da Cunha,
[...] (Lisboa, 1839). A poesia de José Anastácio da
Cunha foi definida pelo próprio Almeida Garrett ao dizer:
"De
José Anastácio da Cunha, que das matemáticas
puras nos deu o melhor curso que há em toda a Europa, desse
infeliz engenho (que talento houve já feliz em Portugal)
a quem não impediam as retas de Euclides, nem as curvas de
Arquimedes, de cultivar as musas; de tão ilustre nome, que
direi eu, senão o muito que me pesa da raridade das suas
poesias? Todas tão filosóficas, ternas e algumas repassadas
de uma tão meiga sensibilidade, que deixam na alma um como
eco de harmonia interior, que não vem do metro dos seus versos,
mas das idéias dos pensamentos."
Chegamos finalmente à questão de ter ou não
José Anastácio da Cunha sido maçom. Não
há qualquer documento conhecido que o indique objetivamente,
até porque os documentos originais referentes à Maçonaria
Setecentista perderam-se quase todos - se alguma vez os houve -
nas numerosas perseguições que lhe foram movidas.
Tem-se notícia, contudo, da existência, em meados e
finais do século XVIII, de uma oficina maçônica
a funcionar em Valença do Minho, para a qual não existe
qualquer documentação conhecida. Tudo isto, aliado
às amizades e conhecimentos de José Anastácio
da Cunha, aponta para que tenha sido iniciado em data e local desconhecido,
talvez no regimento aquartelado naquela localidade minhota, cujo
comandante e outros oficiais, de origem inglesa, eram provavelmente
maçons, como confirma Raul Rego ao afirmar: "José
Anastácio da Cunha, futuro lente de Coimbra, terá
sido iniciado em Valença do Minho por oficiais ingleses."
Existe
no entanto um documento que prova que José Anastácio
da Cunha era maçom e que fora iniciado em Valença,
ou - hipótese mais remota - em Almeida: trata-se de uma carta
que lhe escreveu a sua amante Margarida e que se encontra reproduzida
por António Baião nos seus Episódios Dramáticos
da Inquisição Portuguesa. Esta carta possui a particularidade
de apresentar aquilo a que o Baião chama de "indecifráveis
sinais", e que não são mais do que escrita maçônica.
A mulher que escreveu esta carta, provavelmente ensinada por José
Anastácio da Cunha, utiliza o alfabeto maçônico
para ocultar palavras como "santo ofício", "religião",
"temente a deus" e "vivi", embora com alguns
erros ortográficos, motivados certamente pela inexperiência
no uso deste alfabeto e também pela sua pouca cultura, demonstrada
ao longo de toda a missiva.
Este documento, há muito publicado nos meios historiográficos,
escapara sempre à observação atenta dos maçons,
não compreendendo, portanto, os profanos o significado da
simbologia nele empregada, embora os sinais tenham sido recentemente
decifrados. O seu valor para a história da Maçonaria
portuguesa é duplamente importante: por um lado, por provar
que José Anastácio da Cunha foi maçom, não
apenas em espírito e em ideologia, mas tendo efetivamente
recebido a Luz; por outro, na medida em que é o mais antigo
documento conhecido para Portugal a apresentar escrita com o alfabeto
maçônico. Sobre este assunto encontram-se investigações
em curso de que, numa altura mais próxima, informarei esta
R L.
Por tudo o que aqui foi dito e todo o mais que ficou por dizer,
José Anastácio da Cunha contribuiu decisivamente para
o progresso intelectual do País e, por conseguinte, da humanidade
em geral. É pois um exemplo que é necessário
não esquecermos, tanto pelo seu valor intrínseco,
como pelas perseguições que lhe foram movidas - a
ele e a tantos outros homens de real valor da nossa história
- por parte de forças ancestralmente cultoras da ignorância
e do antiprogresso.
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